Archive for Junho, 2018

Antero de Quental – [A rêverie da Saudade…]
Junho 17, 2018

 

” (…) a rêverie da saudade é para a alma que se deixa envolver nela como hera para os muros que veste e abraça. A princípio é um adorno, uma gala. Mas as raízes vão entrando dia a dia por entre as pedras mais bem ligadas, abrindo-as, deslocando-as.

Quando se lhe acode não é mais já do que uma ruína – uma ruína encoberta e protegida por uma ilusão”.

 

Breve excerto de uma carta a António de Azevedo Castelo Branco, 1867

 

Antero de Quental (Ponta Delgada,18/4/1842 – Ponta Delgada,11/9/1891)
Poeta, filósofo e político. Licenciado em Direito.

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Ruy Belo – [Ouve o Tempo…]
Junho 17, 2018

 

“…ouve o tempo passar escuta a sua voz…”

BELO, Ruy, Toda a Terra, 1976

 

Ruy Belo (S. João da Ribeira, Rio Maior, 27/2/1933 – Queluz, 8/8/1978)
Poeta, ensaísta, crítico literário, tradutor, professor, leitor de Português, licenciado em Direito e Filologia Românica, doutorado em Direito Canónico.

Vinicius de Moraes – Poética (I)
Junho 16, 2018

 

De manhã escureço

De dia tardo

De tarde anoiteço

De noite ardo.

 

A oeste a morte

Contra quem vivo

Do sul cativo

O este é meu norte.

 

Outros que contem

Passo por passo:

Eu morro ontem

 

Nasço amanhã

Ando onde há espaço:

Meu tempo é quando.

 

Vinicius de Moraes (Rio de Janeiro, 19/10/1913 – Rio de Janeiro, 9/7/1980)
Poeta, jornalista, compositor, diplomata.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Jorge Barbosa, Irmão
Junho 16, 2018

 

Cruzaste Mares
na aventura da pesca da baleia,
nessas viagens para a América
de onde às vezes os navios não voltam mais.

Tens as mãos calosas de puxar
as enxárcias dos barquinhos no mar alto;
viveste horas de expectativas cruéis
na luta com as tempestades;
aborreceu-te esse tédio marítimo
das longas calmarias intermináveis.

Sob o calor infernal das fornalhas
alimentaste de carvão as caldeiras dos vapores,

em tempo de paz
em tempo de guerra.

E amaste com o ímpeto sensual da nossa gente
as mulheres nos países estrangeiros!

Em terra
nestas pobres Ilhas nossas
és o homem da enxada
abrindo levadas à água das ribeiras férteis,
cavando a terra seca
nas regiões ingratas
onde às vezes a chuva mal chega
onde às vezes a estiagem é uma aflição
e um cenário trágico de fome!
Levas aos teus bailes
a tua melancolia
no fundo da tua alegria,
quando acompanhas as Mornas com as posturas
graves do violão
ou apertas ao som da música crioula
as mulheres amoráveis contra o peito.
(A Morna…
parece que é o eco em tua alma
da voz do Mar
e da nostalgia das terras mais ao longe
que o Mar te convida,
o eco da voz da chuva desejada,
o eco
da voz interior de nós todos,
da voz interior da nossa tragédia sem eco!
A morna…
tem de ti e das coisas que nos rodeiam
a expressão da nossa humildade,
a expressão passiva do nosso drama,
da nossa revolta,
da nossa silenciosa revolta melancólica!)

A América…
a América acabou-se
para ti.
Fechou as portas à tua expansão!

Essas aventuras pelos Oceanos
já não existem.
Existem apenas
nas histórias que contas do passado,
com o canhoto atravessado na boca
e risos alegres
que não chegam a esconder
a tua
melancolia.

O teu destino…
O teu destino
sei lá!
Viver sempre vergado sôbre a terra,
a nossa terra,
pobre
ingrata
querida!

Ser levado talvez um dia
na onda alta de alguma estiagem!
como um desses barquinhos nossos
que andam pelas Ilhas
e o Oceano acaba também por levar um dia!
Ou outro fim qualquer humilde
anónimo…

Oh Cabo-Verdeano humilde
anónimo
— meu irmão!

 

BARBOSA, Jorge,  Ambiente, 1941

(Transcrito de: Cadernos de Poesia)

 

Jorge Barbosa (Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde, 25/5/1902 -Cova da Piedade, 6/1/1971)
Poeta, colaborador em revistas e jornais, um dos fundadores da Revista Literária Claridade, pioneiro da poesia cabo-verdiana.

João José Cochofel – Sensibilidade
Junho 16, 2018

 

Que sensibilidade me sobe

da passada adolescência?

Que agudeza dos sentidos

me perturba a consciência?

 

Surge do desencanto

um mundo a que me abandono.

Tranquilo e caricioso

como um sol de Outono.

 

A cor, a luz, as formas,

sinto-as de coração novo!

Em tudo desconheço

uma experiência que renovo.

 

Como quem sai

duma longa doença,

deslumbrado e comovido

pela convalescença.

 

João José de Melo Cochofel Aires de Campos (Coimbra, 17/07/1919 – Lisboa, 14/03/1982)
Poeta, ensaísta, crítico literário e musical, colaborador em várias revistas: Altitude, Cadernos do Meio-Dia, Vértice, Presença, Seara Nova, integrou a geração neo-realista coimbrã e a organização do Novo Cancioneiro(1941), foi diretor da Academia dos Amadores de Música de Lisboa e da Sociedade Portuguesa de Escritores.
Organizou e dirigiu o Grande Dicionário da Literatura Portuguesa e de Teoria Literária, desde o início da sua publicação, em 1971.
Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas.

José Régio – Ter ou não ter ou Os Amigos
Junho 16, 2018

 

Triste!, estou hoje triste!, e despeitado

Com todos e comigo:

Por qualquer vão conflito imaginado,

Perdi um meu querido amigo

De há muitos anos.

– De há muitos anos, dizes?!

Como os patetas são felizes!:

Ainda podem ser enganados,

E tristes desenganados.

Pois um amigo é cousa que se perca,

Se adquira, troque, venda, merca,

Um amigo querido e tido longos anos…?

– Sim, tens razão!

Nós julgamos perder

Mal se nos abre a mão;

Mal a fechamos que julgamos ter.

Somos bem débil gente!

Dificilmente

Podemos encarar a nossa solidão,

Ou ver que só perdemos

O que jamais tivemos.

 

José Régio (Vila do Conde, 17/09/1901 – Vila do Conde, 22/12/1969)
Pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira
Poeta, dramaturgo, romancista, contista, ensaísta, crítico, fundador da revista Presença com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, desenhador, coleccionador, licenciado em Filologia Românica, professor.

Afonso Duarte – Cantar de Solidão
Junho 15, 2018

 

Enchem-se-me os olhos d´água;

Mergulho que nunca dá superfíceis;

Águas tão fundas, eu sei!

– A raiz da Árvore da vida,

Só, nela vai mergulhar;

Águas tão fundas, eu sei,

Que nem as águas do mar,

Enchem-se-me os olhos d´ água.

 

Enche-me a Noite: Tristeza

Do Escuro, da Imensidão;

Perdi tôda a comunhão

Com os homens da Superfície;

Enche-se-me os olhos d´ água,

Funduras d´ água sem chão.

 

In Cadernos de Poesia

 

Afonso Duarte (Ereira, freguesia de Verride, concelho de Montemor-o-Velho, 1/1/1884 – Coimbra, 5/3/1958)
Poeta, professor, pedagogo e lavrador, licenciado em Ciências Físico-Naturais.

Gentílicos ou Pátrios de Estados e Territórios – Haiti; Honduras; Hong Kong; Hungria; Iémen; Ilha Christmas; Ilha Norfolk; Ilhas Caimão; Ilhas Cocos
Junho 10, 2018

 

Gentílicos ou pátrios – nomes que indicam: nacionalidade, origem ou lugar de nascimento, residência de alguém ou proveniência de alguma coisa.

Eis alguns, de estados e territórios:

Haiti ——————————————————– haitiano

Honduras ———————————————— hondurenho

Hong Kong ———————————————- honconguês

Hungria ————————————————— húngaro

Iémen —————————————————— iemenita

Ilha Christmas —————————————- da Ilha Christmas

Ilha Norfolk ——————————————– da Ilha Norfolk

Ilhas Caimão —————————————— caimanês

Ilhas Cocos ——————————————— das Ilhas Cocos

(continua)

Fernando Dacosta – “Viver com Gentileza” (continuação)
Junho 10, 2018

 

“(…) Bastou pegar em malas, embarcar num paquete para tudo (me) desaparecer. Tinha três anos. Depois foi o desembarcar em Lisboa, o apanhar camionetas, ronronar estrídulo a caminho dos planaltos interiores, o desfazer da bagagem na casa de granito e telha, cheirando a feno e a maçãs.

Estava noutro continente, noutro hemisfério, noutro clima,  a neve e o frio cobriam os campos, as pessoas moviam-se depressa, deslizante, capotes de palha, tamancos de ferragens, não havendo, sob os seus invólucros e e o meu espanto, pretos, alguns eram mesmo loiros, com olhos e palavras azuis.

As escolas primárias sucederam-se-me (Segões, Folgosa) vidros partidos, inexistência de casa de banho, de aquecimento, cinco graus negativos enfrentados com minúsculas escalfetas levadas de casa.

Salvou-me a biblioteca da família, resistente num mirante aconchegado de sol e flores. Sol e flores imergiram-me então saídos dos livros de Camilo, Eça, António Vieira, Júlio Dinis, Victor Hugo, Salgari, Odete de Saint-Maurice, Garrett, Torga, Ferreira de Castro, Aquilino (amigo do meu avô) (…)

O Liceu de Lamego (estabelecimento para onde mandavam, pela sua interioridade, os professores incómodos ao regime) elevou-me a outro tempo. Vi no palco do deslumbrante Teatro Ribeiro Conceição da cidade, Vasco Santana, Laura Alves, Amália, Irene Isidro. E cinema: Deborah Kerr, Stewart Granger, Gary Cooper, Ava Gardener, Sophia Loren, Ana Magnani faziam-se deuses no seu écran.

A literatura, as artes, a história, a filosofia, a política tornaram-se, graças a essa iniciação, linhas determinantes na minha natureza anarca e transgressora. (…)”

In JL, “Autobiografia”, 17 – 30 Agosto 2005

(continua)

 

Fernando Dacosta (Luanda, 12/12/1945)
Jornalista, romancista, dramaturgo, contista, licenciado em Filologia Românica.

Luísa Costa Gomes – “Clausura e Disciplina”
Junho 9, 2018

 

“(…) Estive num colégio interno, mas não de freiras. Passei cinco anos no Instituto de Odivelas, que é para filhas de militares. A cena do crisma, por exemplo, de que já não me lembrava, foi uma amiga da época, hoje uma grande médica fisiatra no Hospital de S. José, que me contou.

Acho que fui eu mesma que fui a coxear, a imitar o bispo. Mas não tenho a certeza.

O livro* não é, no entanto, “autobiográfico”. Quem me dera que fosse. Para isso era preciso eu ter boa memória… Mas tem alguns ecos da experiência de clausura.

(…) Tinha dez anos quando entrei. Foi sobretudo a experiência de disciplina, que odiei, como todos os adolescentes, mas que me marcou para o resto da vida.

(…) Tornou-me trabalhadora e disciplinada. Se não tivesse tido, com a minha tendência natural para o devaneio, talvez nunca tivesse conseguido acabar nada.

Trabalhávamos das sete e meia da manhã às oito da noite, aulas todo o dia e mais três horas de estudo.

(…) Mas consegui, nos últimos anos, negociar meia hora para escrever no final do estudo. (…) Precisava absolutamente de o fazer e de ter aquele tempo para mim e para as minhas histórias. (…)

Quando saí de lá, aos 15 anos, para o liceu de Oeiras, acho que nem estudei mais… (…)”

 

In JL, “Elogio do humano”, 11 a 24 de abril de 2018

 

* Florinhas de Soror Nada – A Vida de uma Não-Santa (romance), Dom Quixote, Abril de 2018

 

Luísa Costa Gomes (Lisboa, 18/6/1954)
Contista, romancista, dramaturga, encenadora, tradutora, colaboradora em várias publicações, jornais e revistas, e programas de rádio e televisão, professora do ensino secundário, licenciada em Filosofia.