Archive for Julho, 2018

David Mourão-Ferreira – Escada sem Corrimão
Julho 31, 2018

 

É uma escada em caracol

E que não tem corrimão.

Vai a caminho do Sol

Mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos,

Mais estragados estão,

Nem sustos nem sobressaltos

servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe

Quem tem sonhos também não.

Há quem chegue a deitar fora

O lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.

Corre-se prigos em vão.

Adivinhaste: é a vida

A escada sem corrimão.

 

David Mourão-Ferreira (Lisboa, 24/2/1927 – 16/6/1996)
Poeta, novelista, romancista, ensaísta, colaborador de múltiplos jornais e revistas, co-fundador da revista Távola Redonda, professor, licenciado em Filologia Românica.

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Cesário Verde – De Tarde
Julho 31, 2018

 

Naquele “pic-nic” de burguesas,

Houve uma coisa simplesmente bela,

E que, sem ter história nem grandezas,

Em todo o caso dava uma aguarela.

 

Foi quando tu, descendo do burrico,

Foste colher, sem imposturas tolas,

A um granzoal azul de grão-de-bico

Um ramalhete rubro de papoulas.

 

Pouco depois, em cima duns penhascos,

Nós acampámos, inda o sol se via;

E houve talhadas de melão, damascos,

E pão de ló molhado em malvasia.

 

Mas, todo púrpuro, a sair da renda

Dos teus dois seios como duas rolas,

Era o supremo encanto da merenda

O ramalhete rubro das papoulas.

 

VERDE, Cesário, O Livro de Cesário Verde

 

Cesário Verde (Lisboa, 25/2/1855 – Lumiar, 19/7/1886)
Poeta, estudante do curso Superior de Letras.

Castro Alves – Poeta
Julho 31, 2018

 

 

Meditar é trabalhar. Pensar é obrar.

O olhar fito no céu é uma obra.

  1. HUGO.

 

L’univers est ]e temple, et Ia serre rautel.

Les cieux sont le dbme; et les astres vans nombre

Sont les sacrés flambeaux pour ce temps aliurptés.

LAMARTINE.

 

POETA, às horas mortas que o cálice azulado

— Da etérea flor — a noite — debruça-se p’ra o mar,

E a pálida sonâmbula, cumprindo o eterno fado,

As gazas transparentes espalha do luar,

 

Eu vi-te ao clarão, trêmulo dos astros lá n’altura

Pela janela aberta às virações azuis,

— A amante sobre o peito sedento de ternura,

A mente no infinito sedenta só de luz.

 

Perto do candelabro teu Lamartine terno

À tua espera abria as folhas de cetim;

Mas tu lias no livro, onde escrevera o Eterno

Letras — que são estrelas — no céu — folha sem fim

 

Cismavas… de astro em astro teu pensamento errava

Rasgando o reposteiro da seda azul dos céus:

E teu ouvido atento… em êxtase escutava

Nas virações da noite o respirar de Deus.

 

O oceano de tua alma, do crânio transbordando,

Enchia a natureza de sentimento e amor,

As noites eram ninhos de amantes s’ocultando,

O monte — um braço erguido em busca do Senhor.

 

Nas selvas, nas neblinas o olhar visionário

Via s’erguer fantasmas aqui… ali… além,

P’ra ti era o cipreste — o dedo mortuário

Com que o sepulcro aponta no espaço ao longe… alguém

 

No cedro pensativo, que a sós no descampado

Geme e goteja orvalhos ao sopro do tufão,

Vias um triste velho — sozinho, desprezado

Molhando a barba em prantos co’a fronte para o chão.

 

Aqui — ondina louca — vogavas sobre os mares —

Ali — silfo ligeiro — na murta ias dormir,

Anjo — de algum cometa, que vaga pelos ares,

Na cabeleira fúlgida brincavas a sorrir.

 

Sublime panteísta, que amor em ti resumes,

Sentes a alma de Deus na criação brilhar!

Perfume — tu subias, de um anjo entre os perfumes,

Ave do céu — nas nuvens teu ninho ias buscar.

 

Canta, poeta, os hinos, com que o silêncio acordas,

A natureza — é uma harpa presa nas mãos de Deus.

O mundo passa… e mira o brilho dessas cordas…

E o hino?… O hino apenas chega aos ouvidos teus.

 

Todo o universo é um templo — o céu a cúpula imensa,

Os astros — lampas de ouro no espaço a cintilar,

A ventania — é o órgão que enche a nave extensa,

Tu és o sacerdote da terra — imenso altar.

 

Castro Alves (Curralinho, 14/3/1847 – Salvador, 6/7/1871)
Poeta, conhecido pelo “Poeta dos Escravos”.

Carlos Nejar – Crença
Julho 31, 2018

 

Ainda serei eterno.

Não sei quando.

Sei que a sombra se alonga

e eu me alongo,

bólide na erva.

 

Ainda serei eterno.

Tenho ânsias cativas

no caderno. Cortejo

de símbolos, navios

e nunca mais me encerro

no meu fio.

 

Ainda serei eterno.

O mês finda, o ano,

o recomeço.

E o fraterno em mim

quer campo, monte, algibe.

Mas sou pequeno

para tanto aceno.

 

Metáforas me prendem

o eterno

que se pretende isento.

 

Numa dobra me escondo;

Noutra, deito.

Os nomes me percorrem no poente.

Sou sobrevivente

de alguma alta esfera

que saia de si mesma

e é primavera.

 

O eterno ainda será viável

como o sol, o dia,

o vento;

misturado ao que me entende

e transborda.

Misturado ao permanente

que me sobra.

 

Carlos Nejar (Brasil, Porto Alegre, 11/1/1939)
Poeta, ficcionista, tradutor, crítico, membro da Academia Brasileira de Literatura, conhecido por “poeta do pampa brasileiro”.

Camilo Pessanha – Estátua
Julho 31, 2018

 

Cansei-me de tentar o teu segredo:

No teu olhar sem cor, — frio escalpelo,

O meu olhar quebrei, a debatê-lo,

Como a onda na crista dum rochedo.

 

Segredo dessa alma e meu degredo

E minha obsessão! Para bebê-lo

Fui teu lábio oscular, num pesadelo,

Por noites de pavor, cheio de medo.

 

E o meu ósculo ardente, alucinado,

Esfriou sobre o mármore correcto

Desse entreaberto lábio gelado…

 

Desse lábio de mármore, discreto,

Severo como um túmulo fechado,

Sereno como um pélago quieto.

 

Camilo Pessanha (Coimbra, 7/8/1867 – Macau, 1/3/1926)
Poeta, licenciado em Direito.

Camilo Castelo Branco – Anel
Julho 31, 2018

 

Dá-me um anel; mas que seja

Como o anel em que cingida

Tem gemido toda a minha vida.

Dá-me um anel; mas de ferro,

Negro, bem negro, da cor

Desta minha acerba dor,

Deste meu negro desterro!

 

Dá-me um anel; mas de ferro…

Sempre comigo hei-de tê-lo;

Há-de ser o negro elo,

Que me prenda à sepultura.

Quero-o negro…seja o estigma,

que decifre o escuro enigma,

Duma grande desventura.

 

Dá-me um anel; mas de ferro,

Que resista mais que os ossos

Dum cadáver aos destroços

Do roaz verme do pó.

Entre as cinzas alvacentas,

como espólio das tormentas

Apareça o ferro só.

 

E o teu nome impresso nele,

Falará dum grande amor,

Nutrido em ânsias de dor,

Pelo fel da sociedade…

Que teu nome nele escrito,

Nesse padrão infinito,

Vá comigo à Eternidade.

 

Camilo Castelo Branco (Lisboa, 16/3/1825 – S. Miguel de Seide, 1/6/1890)
Romancista, cronista, crítico, dramaturgo, poeta e tradutor.

 

Branquinho da Fonseca – Sonho da Rosa
Julho 31, 2018

 

Se me recordas entristeço e faço

porque o teu vulto sensual me esqueça

e o teu olhar, a tua boca, e essa

graça de graça que tu pões no passo.

 

Sonho-fumo esgarçando-se no espaço-

nas mãos em concha amparo-te a cabeça,

e sem que a minha boca desfaleça

beijo-te a boca e cinge-te o meu braço.

 

Já, no jardim deserto da tristeza,

vens aos meus olhos como a luz acesa

que uma penumbra dolorida apaga…

 

Vai-se extinguindo o meu desejo… Olha:

tu foste a rosa que ao abrir se esfolha,

nuvem perdida que no céu divaga…

 

Branquinho da Fonseca (Mortágua, 4/5/1905 – Lisboa, 6/5/1974)
Poeta, contista, romancista e dramaturgo, cofundador das Revistas: Tríptico, Presença e Sinal – esta com Miguel Torga. Assinou algumas obras com o pseudónimo António Madeira. Filho do escritor Tomás da Fonseca. Licenciado em Direito.

Tomás Ribeiro – Faço Ideia (Num Álbum)
Julho 31, 2018

 

– “A proprietária do livro
que te aqui deixo, Tomás,
é minha amiga; e verás
que não tem nada de feia.”
– “Faço ideia.”

– “É Beatriz!”
– “O nome é lindo!”
– “E o corpo? airoso e gentil!…
e aquele nobre perfil!…
e a fronte que o orgulho alteia!…
– “Faço ideia!”

– “E vai fugir-nos, poeta!…
cansada já de festins,
troca os salões por jardins,
a capital pela aldeia!…
– “Faço ideia.”

– “Não fazes ideia! enganas-te!
não pode haver fantasia
que sonhe inteira a magia
de que a beatriz se rodeia!”
– “Faço ideia!”

– “Ai fazes?!… pois nesse caso
descreve-a assim – tal e qual.”
– “Mas… sem ver o original?!…”
– “Amigo, não se arreceia
quem faz ideia!”

O meu amigo, senhora,
que a verdade não falseia,
fez assim vosso elogio,
e eu fiquei… fazendo ideia!

 

Tomás António Ribeiro Ferreira  (Parada de Gonta, Tondela, 11/07/1831c – Lisboa, 06 02/1901)
Político, poeta e escritor, colaborador de vários jornais e revistas, licenciado em Direito.
Pai da  poetisa Branca de Gonta Colaço e avô do escritor Tomás Ribeiro Colaço.

Branca de Gonta Colaço – Ao Meu Neto Luiz Fernando
Julho 31, 2018

 

Luiz Fernando: sê bom! Foge à cobiça

E expande alegre a tua mocidade;

Acima do querer, põe a Justiça;

Acima da Justiça, a caridade.

 

Ama as palavras que uma fé mortiça

Hoje se atreve a olhar sem majestade;

Palavras que o passado ergueu na liça:

Honra, Pátria, Heroísmo, Santidade!

 

Procura ser alguém; mas se o não fores,

Sê contente servindo os teus amores

Na doce paz de uma existência honrada;

 

Quando quiseres orientar teu rumo,

Põe Deus mais alto que o Sol a prumo

E mais alto que Deus não ponhas nada.

 

Branca Eva de Gonta Syder Ribeiro Colaço (Lisboa, 8 de Julho de 1880 — Lisboa, 22 de Março de 1945)
Poetisa, dramaturga, conferencista, recitalista, erudita e poliglota.
Filha  de Tomás Ribeiro.

Bocage – Proposição das Rimas do Poeta
Julho 31, 2018

 

Incultas produções da mocidade

Exponho a vossos olhos, ó leitores:

Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,

Que elas buscam piedade, e não louvores:

 

Ponderai da Fortuna a variedade

Nos meus suspiros, lágrimas e amores;

Notai dos males seus a imensidade,

A curta duração de seus favores:

 

E se entre versos mil de sentimento

Encontrardes alguns cuja aparência

Indique festival contentamento,

 

Crede, ó mortais, que foram com violência

Escritos pela mão do Fingimento,

Cantados pela voz da Dependência.

 

Manuel Maria Barbosa du Bocage (Setúbal, 15/9/1765 – Lisboa, 21/12/1805)
Poeta.