Archive for Agosto, 2018

Fernando Sylvan- Menino Grande
Agosto 31, 2018

 

Papá,
Ressoa em todo eu
A minha voz primeira
Quando te chamava.
O menino que fui potenciou-se.
Não há menino grande,
Mas sou,
Papá,
Menino verdadeiro.

Já não fujo a gritar pelas ravinas,
Nem monto búfalos,
Nem subo a coqueiros,
Nem me escondo detrás de bananeiras.

Nascem-me já cabelos brancos,
Tenho um bigode
E sou feio e gordo.

E penso e escrevo e faço versos
E abro os braços ao mundo.

Começo a ser como querias.

Papá,
Se me visses agora
Reconhecer-me-ias!

 

SYLVAN, Fernando, 7 Poemas de Timor

 

Fernando Sylvan (Díli, 26/8/1917 – Cascais, 25/12/1993)
Pseudónimo de Abílio Leopoldo Motta-Ferreira, poeta, prosador, dramaturgo e ensaísta timorense.

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Lindley Cintra – Dialectos Portugueses, (Continuação)
Agosto 31, 2018

 

“Parece-me poder enumerá-los do modo seguinte:

1.º ) a “troca do b pelo v“, como é hábito dizer-se – ou, para empregar um modo de descrever mais correcto: o desaparecimento da oposição fonológica entre os fonemas /v/ e /b/ e a sua fusão num fonema único /b/, realizado ora como oclusiva, ora como fricativa (ou espirante) b ou b.

 

2.º ) a “pronúncia do s como x ou como j” – isto é, em termos cientificamente correctos: a realização do fonema /s/ e do seu correlativo sonoro /z/, como fricativas ápico-alveolares, mais ou menos palatalizadas (é a variante mais palatalizada que é vulgarmente conhecida pelo nome de s beirão).

 

3.º ) a “pronúncia do ch como tx ou tch” – ou, também descrito com mais rigor: a permanência da distinção fonologia em posição inicial de sílaba entre o fonema /ê/, representado pelo grafam  ch e o fonema /s/, representado pelo grafema x.

 

4.º ) a pronúncia de ou como o-u em â-u“, isto é, como ditongos, ou, mais precisamente, a conservação do ditongo /ou/, nas suas diversas realizações possíveis, correspondendo à grafia tradicional ou, mantida na ortografia oficial.

 

Por outro lado, um português do Norte – e, neste caso também um falante da língua-padrão (…) –  não terá dificuldade em reconhecer como um dos traços mais típicos da fala de um português do Sul, uma característica:

 

5.º ) a “passagem de ei a ê ” ou, dito mais exactamente, a monotongação do ditongo ei, que se conserva na grafia oficial e na língua falada padrão, embora, nesta última como [ai]. (…)”

 

CINTRA, Luís Filipe Lindley, Três Estudos de Dialectologia Portuguesa

 

Luís Filipe Lindley Cintra (Lisboa, 05/03/1925 — Sesimbra, 18/08/1991)
Filólogo, linguista, investigador, diretor do Boletim de Filologia e da Revista Lusitana (nova série), criador do Departamento de Linguística Geral e Românica da FLUL, coautor da Nova Gramática do Português Contemporâneo com Celso Cunha, professor catedrático.

Vanda Sôlho – Fim de Estação
Agosto 29, 2018

 

Teus frutos são filhos

que te enchem os braços;

sugaram-te a vida,

deram-te cansaços,

mas são tua glória

na luta travada

com a seca do estio,

com a agrura do frio;

e agora teus braços,

secos e enrugados,

vergam-se pelo peso

dos frutos criados;

já não lhes dás seiva,

só protecção

enquanto os embalas

no fim da estação.

 

SÔLHO, Vanda, Poemas para Ti

 

Vanda Sôlho (Setúbal, Janeiro de 1949
Poetisa, fotógrafa, bacharel em Comunicação Social.

Zeca Afonso – [Menina dos Olhos Tristes]
Agosto 29, 2018

 

Menina dos Olhos Tristes,
O que tanto a faz chorar?
-O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Senhora de olhos cansados,
Porque a fatiga o tear?
-O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Hum-Hum-Hum; Hum-Hum-Hum-Hum
Hum-Hum-Hum; Hum-Hum-Hum-Hum

Vamos, senhor pensativo,
Olhe o cachimbo a apagar,
-O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Anda bem triste um amigo,
Uma carta o fez chorar.
-O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Hum-Hum-Hum; Hum-Hum-Hum-Hum
Hum-Hum-Hum; Hum-Hum-Hum-Hum

A Lua que é viajante,
É que nos pode informar
-O soldadinho já volta
Do outro lado do mar.

O soldadinho já volta,
Está quase mesmo a chegar.
Vem numa caixa de pinho.
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar.

Hum-Hum-Hum; Hum-Hum-Hum-Hum
Hum-Hum-Hum; Hum-Hum-Hum-Hum

 

Zeca Afonso

José Afonso (Aveiro, 02/08/1929 – Setúbal, 23/02/1987)
Compositor e cantar, professor, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas.

Vergílio Ferreira Na Primeira Pessoa
Agosto 29, 2018

 

” Vejo o meu pai, no limite da minha infância, dobrar a porta do pátio, com um baú de folha na mão. Vejo-o de lado, e sem se voltar, eu estou dentro do pátio e não há, na minha memória, ninguém mais ao pé de mim. Devo ter o olhar espantado e ofendido por ele partir.

Mas alguns meses depois o corredor da casa da minha avó amontoa-se de gente, na despedida da minha mãe e da minha irmã mais velha que partiam também. Do alto dos degraus de uma sala contígua, descubro um mar de cabeças agitadas e aos gritos, Estou só ainda, na memória que me ficou.

Depois, não sei como, vejo-me correndo atrás da charrete que as levava. O cavalo corria mais do que eu e a poeira que se ia erguendo tornava ainda a distância maior. Minha mãe dizia-me adeus de dentro da charrete e cada vez de mais longe. Até que deixei de correr.

Desta vez houve choro pela noite adiante – tia Quina contava, conta ainda. Mas não conta de choro algum dos meus dois irmãos que ficavam também. (…)

Três irmãos, duas tias e avó maternas, depois a vida recomeçou. Mas toda esta infância me parece atravessar apenas um longo inverno. É um inverno soturno de chuvas e de vento, de neves na montanha, de histórias de terror, contadas à luz da candeia no negrume da cozinha, assombrada de tempestade.

Até que um dia um tio de minha mãe, que era padre na aldeia (…) se empolgou para me consagrar ao Altíssimo.  Para me ir desbravando a alma, juntamente com a doutrina, atacou-me a memória com o latinório todo da missa. Aprendi-o sem falhas, ia eu nos seis anos.  (…) ”

 

In JL 28 de janeiro de 1986 (dia em que completou 70 anos)

(continua)

 

Vergílio Ferreira (Melo, Gouveia, 28/1/1916 – Lisboa, 1/3/1996)
Romancista, contista, ensaísta, autor de diários, galardoado com o Prémio Camões em 1992,  professor, licenciado em Filologia Clássica.

José Saramago – O Exame da Quarta Classe
Agosto 29, 2018

 

“Para orgulho da família, tanto a da cidade como a da aldeia, saí aprovado com distinção no exame da quarta classe.

A prova oral realizou-se numa sala do rés do chão (rés do chão em relação às traseiras do prédio que davam para o recreio,  mas primeiro andar em relação à rua), estava uma manhã transparente, de sol brilhante, pelas janelas abertas de um lado e outro corria uma aragem, as árvores do recreio eram verdes e frondosas (nunca mais voltaria a brincar à sombra delas), e o meu fato novo, se não é falsa memória minha, apertava-me debaixo dos braços.

Recordo-me de ter hesitado a uma pergunta do júri (talvez não soubesse, talvez a tartamudez me tivesse travado a língua como às vezes sucedia), e que alguém, um homem bastante novo que eu nunca tinha visto na escola, encostado ao alizar da porta mais próxima das que davam para o recreio,  a três passos de mim, me soprou subtilmente a resposta. Por que estava ele ali, e não na sala, como toda a gente? Mistério.

Foi isto no ano de 1933, mês de junho, e eu entraria em outubro no Liceu Gil Vicente, instalado nesse tempo no antigo Mosteiro de São Vicente de Fora. Durante algum tempo pensei que uma coisa tinha necessariamente de ir com  outra: o nome do liceu com o do santo… Não se podia esperar que eu soubesse quem era esse tal Gil Vicente.”

 

SARAMAGO, José, As Pequenas Memórias

 

José Saramago (Azinhaga, Golegã, 16/11/1922 – Lanzarote, 18/06/2010)
Romancista, contista, poeta, dramaturgo, argumentista, jornalista, galardoado com o Prémio Camões em 1995  e com  Prémio Nobel de 1998.

Maria Judite de Carvalho – Aquele Azul
Agosto 29, 2018

 

“O homem foi resvalando cada vez mais depressa, de mistura com pedras, terra, plantas secas – ressequidas – e muito pó, pelos quase degraus inventados pelo tempo – pensou ele antes de cair lá em baixo num lugar qualquer mas amplo porque respirou com facilidade e as suas mãos magoadas, esvoaçando, não encontraram nenhum obstáculo por perto. (…) Nunca sentira uma coisa assim e teve a certeza de que nunca mais sentiria, era impossível tal repetição numa vida humana, sempre tão curta e ameaçada.

(…)

Aquele azul! Era uma mancha informe, mas de uma beleza… A beleza do impossível, deu consigo a pensar. (…)

O homem, porém, não era crente nem poeta, ou talvez fosse ambas a coisas e ignorasse. Aquele azul, porém… (…)

O homem tomara de novo posse do seu corpo terreno. Caíra em si. (…)

O homem sentou-se sobre os calcanhares, como quem se sente incapaz de suportar o peso de tantas maravilhas, levantou-se outra vez, foi-se habituando à luz, melhor, à ausência de luz.

(…)

Aquele homem que nunca tivera nada, até porque no seu tempo já quase nada havia para possuir, sentiu-se, de súbito, rico. E resolveu que construiria uma barraca ali perto, para morar; depois iria buscar a mulher e os filhos onde os tinha deixado, do outro lado da colina. Mas primeiro construiria a barraca, tinha medo de perder aquela maravilha. (…)

Quando saiu, trepando até à superfície, afastou as plantas ressequidas que camuflavam a entrada da gruta, e pôs-se à procura de algo que pudesse servir-lhe de ponto de referência, já que o Sol estava a pôr-se e só no dia seguinte podia começar a trabalhar.

Meteu os braços por entre as ramadas e encontrou algo duro. Era uma placa metálica em que estravam gravadas treze letras cabalísticas, cabalísticas porque o número treze, ele sabia, tinham-lhe contado… METROPOLITANO: Que queria dizer metropolitano?

Espetou a placa no solo e afastou-se devagar como um bicho, de novo atento aos ruídos e ao perigo que podia vir a atacá-lo, como há horas acontecera.”

 

CARVALHO, Maria Judite, “Aquele Azul”, in Além do Quadro

 

Maria Judite de Carvalho (Lisboa, 18/9/1921 – Lisboa, 1998)
Contista, novelista, cronista, romancista, dramaturga, colaboradora em vários jornais e revistas.
Esposa de Urbano Tavares Rodrigues e mãe da escritora Isabel Fraga.

Sophia – [Para Atravessar Contigo o Deserto do Mundo]
Agosto 29, 2018

 

Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para enfrentarmos juntos o terror da morte

Para ver a verdade para perder o medo

Ao lado dos teus passos caminhei

 

Por ti deixei meu reino meu segredo

Minha rápida noite meu silêncio

Minha pérola redonda e seu oriente

Meu espelho minha vida minha imagem

E abandonei os jardins do paraíso

 

Cá fora à luz sem véu do dia duro

Sem os espelhos vi que estava nua

E ao descampado se chamava tempo

 

Por isso com teus gestos me vestiste

E aprendi a viver em pleno vento

 

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Livro Sexto

 

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6/11/1919 – Lisboa, 2/7/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999).

Cecília Meireles – Lua Adversa
Agosto 29, 2018

 

Tenho fases, como a lua,

Fases de andar escondida,

fases de vir para a rua…

Perdição da minha vida!

Perdição da vida minha!

Tenho fases de ser tua,

tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,

no secreto calendário

que um astrólogo arbitrário

inventou para meu uso.

 

E roda a melancolia

seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém

(tenho fases, como a lua…).

No dia de alguém ser meu

não é dia de eu ser sua…

E, quando chega esse dia,

o outro desapareceu…

 

MEIRELES, Cecília, Vaga Música

 

Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 7/11/1901 – Rio de Janeiro, 9/11/1964)
Poetisa, professora e jornalista, fundadora da 1.ª Biblioteca Infantil do Rio de Janeiro.

António Nobre – O Sepulcrozito
Agosto 29, 2018

 

 

Num bosque triste e só,

Sob uma concha de árvore, de ramos,

Eu e um poeta* – nós ambos, enterrámos

Alguns papéis no pó.

 

Eu enterrei e pus

Os meus primeiros, remendados versos,

Ele, porém, deixou ali “dispersos”

Poemas de oiro e luz.

 

Ele entregou à paz

Da boa terra, silenciosa e calma,

Um livrozito, manuscrito da alma

daquele bom rapaz.

 

Como porém voou,

Seguindo as águias, cheio de coragem,

Para uma eterna, oceânica viagem,

E nunca mais voltou;

 

Um dia, sem ninguém,

Violei a doce e pequenina cova;

E de branco, à unção da lua nova,

Vi levantar-se alguém!

 

Era o Amor a visão

Que eu vi sair desse sepulcrozito,

E trazia na mão um manuscrito,

E dentro um coração!

 

(1884)

 

* Eduardo Coimbra

 

NOBRE, António, Primeiros Versos

 

 

António Nobre (Porto, 16/8/1868 – Foz do Douro, 18/3/1900)
Poeta, licenciado em Ciências Políticas.