Archive for Setembro, 2018

David Pinto Correia – Poema para Fiama H. Pais Brandão
Setembro 22, 2018

 

Construo a minha face: da noite

retiro as pontes para meu olhar

e das feridas de todos os mortos

a linfa envenenada

para meus braços. Depois volto

a destruir minha imagem

e incansavelmente me estilhaço

e me renego.

 

Construo depois a minha outra face: combate

de séculos as minhas mãos inertes

em que soletro a sabedoria

que deixaste nas mil e uma

histórias

nas trezentas e noventa e nove

melodias

que me atormentam os passos.

 

CORREIA, David Pinto, Este Branco Silêncio

 

David Pinto Correia (Funchal, 1939 – Lisboa, 19/08/2018)
Professor catedrático na FLUL, doutorado em Literatura Portuguesa, autor de várias obras, dirigente de diversas publicações e colectâneas, detentor de cargos na cultura portuguesa – um professor para recordar pela vida fora.

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Luís Amaro – [Há um Silêncio…]
Setembro 22, 2018

 

Há um silêncio que me fala

E um segredo noturno que pressinto

Na invisível mão que se me estende

E rasga as trevas

Da minha alma perdida no caminho

 

Luís Amaro (Aljustrel, 1923 – Lisboa, 24/08/1018)
Poeta, bibliógrafo e crítico literário, co-dirigiu a revista Árvore, e colaborou nas publicações: Seara Nova, Távola Redonda e Portucale.

Olavo Bilac – Velhas Árvores
Setembro 21, 2018

 

Olha estas velhas árvores, mais belas

Do que as árvores novas, mais amigas:

Tanto mais belas quanto mais antigas,

Vencedoras da idade e das procelas…

 

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas

Vivem, livres de fomes e fadigas;

E em seus galhos abrigam-se as cantigas

E os amores das aves tagarelas.

 

Não choremos, amigo, a mocidade!

Envelheçamos rindo! envelheçamos

Como as árvores fortes envelhecem:

 

Na glória da alegria e da bondade,

Agasalhando os pássaros nos ramos,

Dando sombra e consolo aos que padecem!

 

Olavo Bilac (Rio de Janeiro, 16/12/1865 – Rio de Janeiro, 28/12/1918)
Jornalista e poeta, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, autor da letra do Hino à Bandeira.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Angola – Ondjaki – [No Dia da Apreciação…]
Setembro 21, 2018

 

“no dia da apreciação, depois de atravessar as galerias do fórum algemado, ouve do juiz pergunta lacônica: luiz dias galvão, você fuma maconha?”.

a resposta é um drible nos caprichos da ditadura: “sou poeta desde menino”.

 

In correio da bahia, 02.09.2007

 

Ondjaki (Luanda, 1977)
Poeta, contista, artista plástico.

Luísa Ducla Soares – Antigamente
Setembro 19, 2018

 

A nossa Mãe Eva

mais o Pai Adão

nunca se vestiam,

nem com um calção.

 

Jesus não provou

jamais coca-cola

nem jogou futebol

no pátio da escola.

 

Não tendo fogão,

a Virgem Maria

comeu muitas vezes

a sopinha fria.

 

Dom Afonso Henriques

vestia armadura

e não se queixava

de a roupa ser dura.

 

A Rainha Santa

não tinha sanita.

Onde iria ela

se estava aflita?

 

O Vasco da Gama

fazia viagens

sem um telemóvel

para mandar mensagens.

 

Luís de Camões,

repara, que horror,

não escreveu os livros

num computador.

 

O Marquês de Pombal,

com tanto salão,

não pôde comprar

uma televisão.

 

Ó jovem que estás

sempre descontente,

não querias viver

como antigamente?

 

SOARES, Luísa Ducla, A Cavalo no Tempo

 

Luísa Ducla Soares (Lisboa, 20/7/1939)
Poetisa ligada ao grupo Poesia 61, destacada escritora de literatura infantil, licenciada em Filologia Germânica.

Manuel Gusmão – [O Rio Divide-te…]
Setembro 19, 2018

 

O rio divide-te entre

as margens montanhosas

pelas pedras

que saltando

vais de

onde vens

rosto de quem

uma borboleta

brilha na claridade

do súbito assombro.

 

GUSMÃO, Manuel, Pequeno Tratado das Figuras

 

Manuel Gusmão (Évora, 11/2/1945)
Poeta, ensaísta, tradutor, colaborou em diversas publicações, fundador das revistas: Ariane e Dedalus, coordenador da revista Vértice desde 1988, professor universitário.

Flor Campino – [Do Sul…]
Setembro 19, 2018

 

Do sul te veio a ausência.

Lenços brancos

as clareiras desprendem, invioláveis,

por onde a luz

captura o sono

e esplêndida

te deixa, e solitária.

 

Flor Campino (Tomar, 1943)
Escritora e pintora.

António Torrado – À Beira Tempo
Setembro 19, 2018

 

é um templo visto em vidro

no vivo crepitante das lunetas

estufa lhe chamam, de sol

e cidra

azedo de ferrugens e promessas.

 

Se templo é

e fosco de desesperar

a babugem do mar já o lavou

e o que ficou, no tampo do altar,

dá pouco para rezar.

A cerveja, meus senhores, acabou.

 

TORRADO, António, Dos Templos

 

António Torrado (Lisboa, 21/11/1939)
Poeta, dramaturgo, contista, destacado autor de literatura infantil e juvenil, professor, pedagogo, jornalista, licenciado em Filosofia.

António José Forte – Poema [3]
Setembro 19, 2018

Um sábio
não sabia fumar cachimbo

mas a mulher do sábio sabia

quando o sábio chorava
por não saber fumar cachimbo
a mulher do sábio sorria

e assim durante meses e anos

até que
no dia em que o sábio sabia que morria
não disse à mulher que sabia

por isso quando ele chorava
a mulher do sábio sorria

 

António José Forte (Póvoa de Santa Iria, 10/2/1931 – Lisboa, 15/12/1988)
Poeta ligado ao Movimento Surrealista Português.

Gentílicos ou Pátrios de Estados e Territórios – Irão; Iraque; Irlanda; Islândia; Israel; Itália; Jamaica; Japão; Jabuti; Jordânia
Setembro 19, 2018

 

Gentílicos ou pátrios – nomes que indicam: nacionalidade, origem ou lugar de nascimento, residência de alguém ou proveniência de alguma coisa.

Eis alguns, de estados e territórios:

Irão ——————————————————– iraniano

Iraque —————————————————– iraquiano

Irlanda —————————————————- irlandês, hibérnico

Islândia ————————————————— islandês

Israel —————————————————— israelita

Itália ——————————————————- italiano

Jamaica ————————————————- jamaicano

Japão ————————————————- japonês, niponense, nipónico

Jibuti ————————————————— jibutiano

Jordânia ———————————————– jordano

(continua)