Archive for Outubro, 2018

Camilo Pessanha – Crepuscular
Outubro 31, 2018

 

Há no ambiente um murmúrio de queixume,

De desejos d’amor, d’ais comprimidos…

Uma ternura esparsa de balidos

Sente-se esmorecer como um perfume.

 

Às madressilvas murcham nos silvados

E o aroma que exalam pelo espaço,

Tem delíquios de gozo e de cansaço,

Nervosos, femininos, delicados.

 

Sentem-se espasmos, agonias d’ave,

Inapreensíveis, mínimas, serenas…

– Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,

O meu olhar no teu olhar suave.

 

As tuas mãos tão brancas d’anemia…

Os teus olhos tão meigos de tristeza…

– É este enlanguescer da natureza,

Este vago sofrer do fim do dia.

 

Camilo Pessanha (Coimbra, 7/8/1867 – Macau, 1/3/1926)
Poeta, licenciado em Direito.

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Sebastião da Gama – Cansaço
Outubro 31, 2018

 

Não quero amar nem ser amado…

Quero ficar estúpido e cansado

a este canto, e só.

 

Batido pelo Vento,

sem conforto, sem pão, sem alegria.

 

E se eu chamar não venhas.

(Que eu não hei-de chamar-te…)

 

No entanto, Amor, não saias para longe.

É que eu posso, apesar de tudo quanto digo,

chamar por ti.

E era tão bom saber que me escutavas!…

E era tão bom sentir que perdoavas!…

 

Sebastião da Gama (Vila Nova de Azeitão, Setúbal, 10/4/1924 – Lisboa, 7/2/1952)
Poeta e professor de Português, colaborador das Revistas: Árvore e Távola Redonda, fundador da Liga para a Protecção da Natureza (1948), licenciado em Filologia Românica.

António Gedeão – Reflexão Total
Outubro 28, 2018

 

Recolhi as tuas lágrimas

na palma da minha mão,

e mal que se evaporaram

todas as aves cantaram

e em bandos esvoaçaram

em tomo da minha mão.

Em jogos de luz e cor

tuas lágrimas deixaram

os cristais do teu amor,

faces talhadas em dor

na palma da minha mão.

 

António Gedeão (Lisboa, 24/1/1905 – Lisboa, 19/2/1997)
Pseudónimo de Rómulo de Carvalho.
Poeta, pedagogo, historiador de ciência e educação, professor, licenciado em Ciências Físico-Químicas.

Manuel da Fonseca – Estradas
Outubro 28, 2018

 

Não era noite nem dia.

Eram campos campos campos

abertos num sonho quieto.

Eram cabeços redondos

de estevas adormecidas.

E barrancos entre encostas

cheias de azul e silêncio.

Silêncio que se derrama

pela terra escalavrada

e chega no horizonte

suando nuvens de sangue.

Era hora do poente.

Quase noite e quase dia.

 

E nos campos campos campos

abertos num sonho quieto

sequer os passos de Nena

na branca estrada se ouviam.

Passavam árvores serenas,

nem as ramagens mexiam,

e Nena, pra lá do morro,

na curva desaparecia.

 

Já de noite que avançava

os longes escureciam.

Já estranhos rumores de folhas

entre as esteveiras andavam,

quando, saindo um atalho,

veio à estrada um vulto esguio.

Tremeram os seios de Nena

sob o corpete justinho.

E uma oliveira amarela

debruçou-se da encosta

com os cabelos caídos!

Não era ladrão de estradas,

nem caminheiro pedinte,

nem nenhum maltês errante.

Era António Valmorim

que estava na sua frente.

 

— Ó Nena de Montes Velhos,

se te quisessem matar

quem te haverá de acudir?

 

Sob este corpete justinho

uniram-se os seios de Nena.

 

— Vai te António Valmorim.

Não tenho medo da morte,

só tenho medo de ti.

 

Mas já noite fechava

a saída dos caminhos.

Já do corpete bordado

os seios de Nena saíam

— como duas flores abertas

por escuras mãos amparadas!

Aí que perfume se eleva

do campo de rosmaninho!

Aí como a boca de Nena

se entreabre fria fria!

Caiu-lhe da mão o saco

junto ao atalho das silvas

e sobre a sua cabeça

o céu de estrelas se abriu!

 

Ao longe subiu a lua

como um sol inda menino

passeando na charneca…

Caminhos iluminados

eram fios correndo cerros.

Era um grito agudo e alto

que uma estrela cintilou.

Eram cabeços redondos

de estevas surpreendidas.

Eram campos campos campos

abertos de espanto e sonho…

 

Manuel da Fonseca (Santiago de Cacém, 15/10/1911-11/3/1993)
Poeta, romancista, contista e cronista, membro do Grupo Novo Cancioneiro, presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores.

 

José Gomes Ferreira – [Sempre a Mesma Mulher…]
Outubro 28, 2018

 

Sempre a mesma mulher de saias curvas

nos degraus matinais

– capacho com olhos,

corpo sem nudez,

mãos de cera derretida.

 

Nenhuma cólera de não haver horizontes.

 

Apenas o sono português

desta morte com insónia

chamada vida.

 

José Gomes Ferreira (Porto, 9/6/1900 – Lisboa, 1985)
Poeta, jornalista – colaborador da Presença e Seara Nova -, membro do Novo Cancioneiro, compositor musical, tradutor de filmes, Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, licenciado em Direito, cônsul na Noruega, pai do arquitecto Raul H. Ferreira e do poeta Alexandre Vargas.

Gentílicos ou Pátrios de Estados e Territórios – Macau; Madagáscar; Malásia; Malavi; Maldivas; Mali; Malta; Marianas do Norte; Marrocos
Outubro 28, 2018

 

Gentílicos ou pátrios – nomes que indicam: nacionalidade, origem ou lugar de nascimento, residência de alguém ou proveniência de alguma coisa.

Eis alguns, de estados e territórios:

 

Macau —————————————————— macaísta, macaense

Madagáscar ———————————————– malgaxe

Malásia —————————————————— malaio

Malavi ——————————————————– malaviano

Maldivas —————————————————– maldivo

Mali ———————————————————– maliano

Malta ——————————————————— maltês

Marianas do Norte ———————————– das Marianas do Norte

Marrocos —————————————————- marroquino

 

(continua)

Lídia Jorge – [Cai a Chuva no Portal…]
Outubro 24, 2018

 

Cai a chuva no portal, está caindo

Entre nós e o mundo, essa cortina

Não a corras, não a rasgues, está caindo

Fina chuva no portal da nossa vida.

Gotas caem separando-nos do mundo

Para vivermos em paz a nossa vida.

 

Cai a chuva no portal, está caindo

Entre nós e o mundo, essa toalha

Ela nos cobre, não a rasgues, está caindo

Chuva fina no portal da nossa casa.

Por um dia todos longe e nós dormindo

Lado a lado, como páginas dum livro.

 

Lídia Jorge (Boliqueime, Algarve, 18 de Junho de 1946)
Romancista, autora de antologias poéticas e de uma peça de teatro, colaboradora de diversas revistas e jornais, professora, licenciada em Filologia Românica.

Luís Quintais – CF
Outubro 24, 2018

 

Nos teus lábios a noite

descreve um arco.

É o ciclo da melancolia

que se fecha.

Talvez não regresse.

Por outros sinais

lamentaremos a beleza

que, nos teus lábios,

a noite fez cessar.

 

Luís Quintais (Luena, Angola, 19/8/1968)
Escritor, galardoado com prémios de poesia, antropólogo, professor universitário.

 

Luiza Neto Jorge – Anos Quarenta, Os Meus
Outubro 24, 2018

 

De eléctrico andava a correr meio mundo

subia a colina ao castelo-fantasma

onde um pavão alto me aflorava muito

em sonhos à noite. E sofria de asma

 

alma e ar reféns dentro do pulmão

(como um chimpanzé que à boca da jaula

respirava ainda pela estendida mão).

Salazar três vezes, no eco da aula.

 

As verdiças tranças prontas a espigar

escondiam na auréola os mais duros ganchos.

E o meu coito quando jogava a apanhar

era nesse tronco do jardim dos anjos

 

que hoje inda esbraceja numa árvore passiva.

Níqueis e organdis, espelhos e torpedos

acabou a guerra meu pai grita “Viva”.

Deflagram no rio golfinhos brinquedos.

 

Já bate no cais das colunas uma

onda ultramarina onde singra um barco

pra Cacilhas e, no céu que ressuma

névoas águas mil, um fictício arco-

-irís como é, no seu cor-a-cor,

uma dor que ao pé doutra se indefine.

No cinema lis luz o projector

e o FIM através do tempo retine.

 

Luiza Neto Jorge (Lisboa, 1939 – Lisboa,1989)
Poetisa e tradutora, escreveu para o teatro e para o cinema, é considerada a personalidade poética mais importante da Poesia 61.

Machado de Assis – As Rosas
Outubro 24, 2018

 

 

Rosas que desabrochais,

Como os primeiros amores,

Aos suaves resplendores

Matinais;

 

Em vão ostentais, em vão,

A vossa graça suprema;

De pouco vale; é o diadema

Da ilusão.

 

Em vão encheis de aroma o ar da tarde;

Em vão abris o seio úmido e fresco

Do sol nascente aos beijos amorosos;

Em vão ornais a fronte à meiga virgem;

Em vão, como penhor de puro afeto,

Como um elo das almas,

Passais do seio amante ao seio amante;

Lá bate a hora infausta

Em que é força morrer; as folhas lindas

Perdem o viço da manhã primeira,

As graças e o perfume.

Rosas que sois então? – Restos perdidos,

Folhas mortas que o tempo esquece, e espalha

Brisa do inverno ou mão indiferente.

 

Tal é o vosso destino,

Ó filhas da natureza;

Em que vos pese à beleza,

Pereceis;

Mas, não… Se a mão de um poeta

Vos cultiva agora, ó rosas,

Mais vivas, mais jubilosas,

Floresceis.

 

ASSIS, Machado de, Crisálida

 

Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21/6/1839 – Rio de Janeiro, 29/9/1908)
Poeta, romancista, dramaturgo, contista, tetralogista, jornalista, considerado um dos maiores vultos da literatura brasileira.