Archive for Novembro, 2018

Teixeira de Pascoaes – [Feita de Sol…]
Novembro 21, 2018

 

FEITA de sol é a carne que nos veste

Os ossos, que são feitos de luar.

E a nossa alma é sombra

A sonhar e a pensar, conforme é dia

Ou noite, pois em nosso pensamento

Esplende o sol.

Mas, ao luar, é que se expande

O nosso dom fantástico, êsse vôo

Sem fim do nosso ser

Que ultrapassa as estrelas,

E alcança, além do tempo, a eternidade,

E o infinito, além do espaço,

E Deus, além dos deuses.

 

S. João de Gatão, Março de 1950

 

In Cadernos de Poesia

 

Teixeira de Pascoaes (Amarante, 8/11/1877 – Gatão, 14/12/1952)
Poeta, prosador, licenciado em Direito.

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Vergílio Ferreira na Primeira Pessoa (continuação)
Novembro 21, 2018

 

“E quando aos sete o fui ver esticado na cama, a face toda negra, e me obrigaram a beijar-lhe a mão morta, já tinha o destino talhado para o Senhor.

Minhas tias apoderam-se logo de mim, negligenciando um pouco os meus irmãos e sufocaram-me de religião.

Na instrução primária cumpri. Deus mostrava à evidência que me chamava ao seu serviço. Era forte em contas, mas atrapalhado na História, de qualquer modo, os desígnios de Deus eram evidentes. E assim, para se cumprir a sua vontade, parti.

Ficava à distância de um dia de comboio, o Seminário. Saio na estação ao anoitecer, há uma multidão de seminaristas à minha volta, todos vestidos de preto. Estou entre eles, não conheço ninguém.

Avançamos pelo escuro estrada fora, no tropear confuso de uma enorme massa negra.

O Seminário espera-nos numa curva da estrada. É um casarão enorme, olho-o do fundo do meu pavor. Há Outono à minha volta, respiro-o agora em todo esse passado morto, nos castanheiros a desfolharem-se na cerca, no espaço dos salões, nos longos corredores ermos, nos ângulos cruzados pelos espectros dos prefeitos.

Mas seis anos depois, levantado de heroísmo, saí.

Fiz o liceu, entrei na Universidade. Mas não o fiz assim em três palavras como o faço aqui. Meu irmão corpo. Como foi difícil acomodarmo-nos um ao outro. À vida que me coube não a pude utilizar toda. Numa fracção dela acumulei assim aquilo com que se realiza  – o sonho, o trabalho, a alegria. (…)”

 

In JL 28 de janeiro de 1986 (dia em que completou 70 anos)

(continua)

 

Vergílio Ferreira (Melo, Gouveia, 28/1/1916 – Lisboa, 1/3/1996)
Romancista, contista, ensaísta, autor de diários, galardoado com o Prémio Camões em 1992,  professor, licenciado em Filologia Clássica.

Cecília Meireles – Traça a Reta e a Curva
Novembro 20, 2018

 

Traça a reta e a curva

Tudo é preciso.

de tudo viverás.

 

Cuida com exatidão da perpendicular

E das paralelas perfeitas.

Com apurado rigor.

Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo,

Traçarás perspectivas, projectarás estruturas.

Número, ritmo, distância, dimensão.

Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.

 

Construirás os labirintos impermanentes

Que sucessivamente habitarás.

 

Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.

Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.

E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.

 

Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.

Raramente, um pouco mais.

 

Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 7/11/1901 – Rio de Janeiro, 9/11/1964)
Poetisa, professora e jornalista, fundadora da 1.ª Biblioteca Infantil do Rio de Janeiro.

Eugénio de Andrade – O Amor
Novembro 20, 2018

 

Estou a amar-te como o frio

corta os lábios.

 

A arrancar a raiz

ao mais diminuto dos rios.

 

A inundar-te de facas,

de saliva esperma lume.

 

Estou a rodear de agulhas

a boca mais vulnerável

 

A marcar sobre os teus flancos

o itinerário da espuma

 

Assim é o amor: mortal e navegável.

 

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

 

Ruy Belo – Elogio de Maria Teresa
Novembro 20, 2018

 

Eu que às vezes encontro sem saber porquê

um simples não sei quê em estátuas retratos antigos

de límpidas mulheres desconhecidas

eu que de súbito à primeira vista me apaixono adolescentemente

por essas mulheres mortas mas contemporâneas

de um pobre poeta português do século vinte

levadas até ele talvez por um discreto gesto

às formas e às cores impresso por um homem

que na arte encontrava a única razão de vida

abro a pasta e deparo com o teu retrato

um retrato de passe anos atrás tirado

no sítio suburbano onde primeiro vivemos

e juntos suportámos com surpresa a solidão

de sermos dois e ela só vergar os ombros onde os dias nos poisavam

Conheço outros retratos teus onde também estás viva

um deles bem me lembro estava à minha espera em saint-malo

uma tarde ao voltar do monte saint-michel

nesse verão bretão onde então procurava

justificação por mínima que fosse para a vida

numa das muitas fugas de mim próprio

que às vezes empreendo embora antecipadamente certo

de que só pela morte enfim me encontrarei comigo

com todos quantos verdadeiramente amei

alguns desconhecidos e alguns mesmo inimigos

sobretudo sedentos de justiça

de que depois somente de bem morto hei-de dispor daquela paz

que sempre apeteci mas nunca procurei

até por não ter tempo para isso nem sequer para saber

coisas simples como saber quem sou porque ao certo só sei

que muito mais passei naquilo em que fiquei

nem que fossem os filhos ou os versos

que fiquei muito mais naquilo onde passei

como passos na areia no inverno ou repentinas sensações

de me sentir de súbito sensivelmente bem

encher o peito de ar sentir-me vivo

São retratos diferentes de quem foste um breve instante

e nele floriste e apenas não murchaste

por haveres ficado um pouco mais em tais fotografias

Mas há em todos eles uma graça inesperada

a surpresa da corça ou restos dessa raça

que há em ti talvez um pouco mais que nas demais mulheres

expressão sempre surpreendente da surpresa

mesmo até para quem te conhece tão bem como eu te conheço

Se nuns mais do que noutros sem excepção desponta

a madrugada que era e é esse teu riso claro

quem primeiro falou de riso claro

talvez houvesse ouvido a água quando corre sobre os seixos de um

[ribeiro

talvez a houvesse visto branca e fresca

mas teve de inventar pra conquistar essa metáfora

quando eu que te ouvi rir não fiz mais do que ouvir

e sei que o som da água imita o teu sorriso

Talvez dentro de séculos se não fale já de ti

coisa aliás sem maior importância

que a de não ter alguém deixado o teu retrato

em qualquer dos museus esparsos pelo mundo

Eu estarei morto e pouco poderei fazer

por ti simples mulher da minha vida

Mas isso não importa importa esta manhã

este bar de milão onde olho o teu retrato

enquanto espero o meu pequeno almoço

saboreio as cervejas em jejum tomadas

e começam de súbito a chegar aos meus ouvidos

inesperados os primeiros acordes do concerto imperador

Se um dia penso porventura te perder

mulher simples recôndita e surpreendente

sobre quem recaiu o peso do meu nome

só então saberei quanto valias verdadeiramente

Estás presente em mim como ninguém

e sabes quão terrivelmente amei e amo outras mulheres

além de ti além de minha mãe

Mas tu tens o meu nome clara rilke tu trocaste

a tua alegre vida irrequieta

no único infeliz dos teus negócios

por um poeta pobre velho e feio como eu

Contigo aprendi coisas tão simples como

a forma de convívio com o meu cabelo ralo

e a diversa cor que há nos olhos das pessoas

Só tu me acompanhaste súbitos momentos

quando tudo ruía ao meu redor

e me sentia só e no cabo do mundo

Contigo fui cruel no dia a dia

mais que mulher tu és já hoje a minha única viúva

Não posso dar-te mais do que te dou

este molhado olhar de homem que morre

e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente

Bons dias maria teresa até depois

preciso de tomar o meu pequeno almoço

a cerveja era boa mas é bom comer

como come qualquer homem normal

e me poupa ao perigo de até pela idade

me converter subitamente num sentimental

 

Ruy Belo (S. João da Ribeira, Rio Maior, 27/2/1933 – Queluz, 8/8/1978)
Poeta, ensaísta, crítico literário, tradutor, professor, leitor de Português, licenciado em Direito e Filologia Românica, doutorado em Direito Canónico.

Marquesa de Alorna – [Eu Cantarei um Dia de Tristeza]
Novembro 20, 2018

 

 

Eu cantarei um dia da tristeza

por uns termos tão ternos e saudosos,

que deixem aos alegres invejosos

de chorarem o mal que lhes não pesa.

 

Abrandarei das penhas a dureza,

exalando suspiros tão queixosos,

que jamais os rochedos cavernosos

os repitam da mesma natureza.

 

Serras, penhascos, troncos, arvoredos,

ave, ponte, montanha, flor, corrente,

comigo hão-de chorar de amor enredos.

 

Mas ah! que adoro uma alma que não sente!

Guarda, Amor, os teus pérfidos segredos,

que eu derramo os meus ais inutilmente.

 

 

D. Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre, Marquesa de Alorna (Lisboa, 31/10/ 1750 – Lisboa,  11/10/ 1839)
Conhecida por “Alcipe”, nome que adoptou na Arcádia.
Poetisa, escreveu sobre literatura, sociedade e política, traduziu a Arte Poética de Horácio e o Ensaio sobre a Crítica de Pope.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Germano d´ Almeida – O Homem e o Escritor de A a Z (B)
Novembro 20, 2018

 

“B DE BOA VISTA

Desde sempre não tive dúvidas de que a ilha da Boa Vista era o centro do mundo.

Mas ficando um pouco mais adulto, já com alguma instrução e experiência de vida, consenti em alargar esse centro de forma a abranger Cabo Verde Inteiro.

Ora deste postulado nunca saí e, descaradamente plagiando o Eça, defini-me como sempre “rústico de Boa Vista”.

Na realidade visito-a com muito pouca frequência, mas isso não me faz qualquer falta, porque carrego-a como algo intrínseco à minha pessoa e ela continua sendo o inesgotável baú onde desencovo todas as minhas estórias.”

(continua)

In JL de 6 a 19 de junho de 2018

 

Germano d´ Almeida (Boa Vista, Cabo Verde, 1945)
Contista e romancista, Prémio Camões (2018), advogado.

Jorge de Sena Ser
Novembro 20, 2018

 

CANSADA expectativa tão ansiosa
que ser só eu na minha vida espalha!
Na longa noite em que se tece a malha
de que não serei nunca, fervorosa

minha presença rútila e curiosa
arde sombria como um arder de palha,
curiosa apenas de saber se goza
o voar das cinzas quando o vento calha

lá onde o levantá-las é verdade.
Inùltimente se mistura tudo,
que a mesma ansiedade, já esquecida,

de novo recomeça. Mas quem há-de
contrariá-la? Eu não, que não me iludo:
Viver é isto, quando se é só vida.

28-2-51

 

In Cadernos de Poesia

 

Jorge de Sena (Lisboa, 2/11/1919 – St.ª Bárbara, Califórnia, 4/6/1978)
Poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor, professor catedrático, licenciado em Engenharia Civil e doutorado em Letras.

Gentílicos ou Pátrios de Estados e Territórios – Martinica; Maurícia; Mauritânia; Mayotte; México; Mianmar
Novembro 20, 2018

 

Gentílicos ou pátrios – nomes que indicam: nacionalidade, origem ou lugar de nascimento, residência de alguém ou proveniência de alguma coisa.

Eis alguns, de estados e territórios:

 

Martinica ——————————————————- martinicano

 

Maurícia ——————————————————– mauriciano

 

Mauritânia —————————————————— mauritano

 

Mayotte ——————————————————— de Mayotte

 

México ——————————————————— mexicano

 

Mianmar ——————————————————– birmanês

 

(continua)

Helder Macedo – “O Prémio D. Dinis”
Novembro 20, 2018

 

“No passado dia 6 foi-me entregue pelo Presidente da República o Prémio D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus, referente ao ano de 2017, pelo meu livro de ensaios Camões e outros contemporâneos. Foi uma ocasião festiva num ambiente de magia. (…)

O Prémio D. Dinis tem a fundamental particularidade de não fazer separação de géneros literários, podendo ser atribuído a ficção, poesia ou ensaio.

Considero por isso importante que,  independentemente do mérito que este meu livro possa ter, tenha sido atribuído a uma obra (…) que procura estabelecer uma ponte entre a análise literária e a potencial leitura das obras analisadas (…). Não pelo que pessoalmente me diga respeito e a este meu livro, mas na medida em que reflete uma esclarecida política cultural da Fundação Casa de Mateus. (…)

Também por essas e todas as outras razões quero celebrar a generosa presença do Presidente da República, cujo provado “sentido de Estado” vai de par com um notável conhecimento da nossa literatura (…), desejando que este meu livro lhe tivesse merecido pelo menos um aceno. (…)”

 

In JL de 24 de outubro a 6 de novembro de 2018

 

Helder Macedo (Krugersdop, África do Sul, 1935)
Poeta, romancista, ensaísta, crítico e investigador literário português, colaborador de antologias, jornais e revistas nacionais e internacionais, licenciado em Estudos Portugueses e Brasileiros e História, doutorado em Letras.