Archive for Dezembro, 2018

António Manuel Couto Viana – Natal cada Natal
Dezembro 24, 2018

 

Quando na mais sublime dor,

A mulher dá à luz,

Há sempre um Anjo Anunciador

A murmurar-lhe ao coração — Jesus!

 

Cada criança é o Céu que vem

Pra nos remir do pecado

E as palhas d’oiro de Belém

Espalham-se no berço, como um Sol espelhado

 

Por sobre o lar presepial , o brilho

Da estrela abre o convite dos portais:

— Vinde adorar a floração do filho

No alvoroço da raiz dos pais.

 

VIANA, António Manuel Couto, Mínimos

 

António Manuel Couto Viana (Viana do Castelo, 24/01/1923 – Lisboa, 08/06/2010)
Poeta, contista, ensaísta, dramaturgo, actor, encenador, tradutor.
Dirigiu os Cadernos de Poesia, Távola Redonda e as revistas culturais:Graal e Tempo Presente.

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Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Angola – José Luandino Vieira – Natal
Dezembro 24, 2018

 

Branca roupa ao sol

Pirrulas na mulemba

cantam chuva.

 

Não há estrela-guia

sol-caju brilhando

pelos caminhos antigos

pés gretados batidos

vem todos.

… vovo Bartolomé enlanguescido

em carcomida cadeira acordado…

 

… sô Santo

subindo a calçada

a mesma calçada que outrora descia…


… Zito e Dimingas

no maximbombo da linha 4…

 

… Musunda amigo

com a firme vitória da sua alegria…

 

E vê

vêm também

cheirando a suor

as buganvílias

a den den

 

Pedro monangamba

olhos abertos de amor

na mão e cetro

a pá de trabalhador

 

Pascoal

(Ué ainda vivo velho Pascoal?!)

a vassoura de mateba

a farda cáqui

da Câmara Municipal.

 

De Calumbo

o sol do Cuanza

nos seios caju

docinha manga

trouxe Jana.

 

Vieram também

também vieram

algas verdes na garganta

os três magos da Ilha

– ngoma, reco-reco e violão!

 

Branca roupa ao sol

Pirrulas na mulemba

Não havia luar

porque a noite já não era

estrela-guia

e do ventre da mãe negra

o menino nascia.

 

José Luandino Vieira (Vila Nova de Ourém, 4/5/1935)
Pseudónimo de José Vieira Mateus da Graça. Fixou-se em Angola aos três anos.
Romancista, novelista, contista, poeta, galardoado com o Prémio Camões em 2006, colaborador jornalístico, tradutor.

José Régio – Litania do Natal
Dezembro 24, 2018

 

A noite fora longa, escura, fria.

Ai noites de Natal que dáveis luz,

Que sombra dessa luz nos alumia?

Vim a mim dum mau sono, e disse: “Meu Jesus…”

Sem bem saber, sequer, porque o dizia.

 

E o Anjo do Senhor: “Ave, Maria!”

 

Na cama em que jazia,

De joelhos me pus

E as mãos erguia.

Comigo repetia: “Meu Jesus…”

Que então me recordei do santo dia.

 

E o Anjo do Senhor: “Ave, Maria!”

 

Ai dias de Natal a transbordar de luz,

Onde a vossa alegria?

Todo o dia eu gemia: “Meu Jesus…”

E a tarde descaiu, lenta e sombria.

 

E o Anjo do Senhor: “Ave, Maria!”

 

De novo a noite, longa, escura, fria,

Sobre a terra caiu, como um capuz

Que a engolia.

Deitando-me de novo, eu disse: “Meu Jesus…”

 

E assim, mais uma vez, Jesus nascia.

 

RÉGIO, José, Antologia Poética

 

José Régio (Vila do Conde, 17/09/1901 – Vila do Conde, 22/12/1969)
Pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira
Poeta, dramaturgo, romancista, contista, ensaísta, crítico, fundador da revista Presença com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, desenhador, coleccionador, licenciado em Filologia Românica, professor.

Mário de Sá Carneiro – A Noite de Natal
Dezembro 24, 2018

 

Em a noite de Natal

Alegram-se os pequenitos;

Pois sabem que o bom Jesus

Costuma dar-lhes bonitos.

 

Vão se deitar os lindinhos

Mas nem dormem de contentes

E somente às dez horas

Adormecem inocentes.

 

Perguntam logo à criada

Quando acorde de manhã

Se Jesus lhes não deu nada.

 

– Deu-lhes sim, muitos bonitos.

– Queremo-nos já levantar

Respondem os pequenitos.

 

Mário de Sá Carneiro (Lisboa, 19/5/1890 – Paris, 26/5/1916) Poeta, contista, ficcionista, membro da Geração d´Orpheu.

António Lobo Antunes – [Dantes o Natal…]
Dezembro 20, 2018

 

“Dantes o Natal era levarem-me ao circo. Mais tarde era eu levar outras pessoas ao circo. Agora, que já não há ninguém que me leve ao circo ou para eu levar ao circo, o Natal são as boas-festas das gerências nos vidros das montras e iluminações da Câmara penduradas das árvores, reflectidas no passeio em machadinhas coloridas. (…)”

 

ANTUNES,  António Lobo, “MA PETITE EXISTENCE”, in Crónicas

 

António Lobo Antunes (Lisboa, 1/9/1942)
Romancista e cronista, distinguido com o Prémio Camões em 2007, médico especializado em Psiquiatria.

Padre Moreira das Neves – Natal
Dezembro 19, 2018

 

Seja cada presépio a nossa casa

Transformada no mais florido altar,

Um pedaço de sol em cada brasa,

Uma estrela do céu em cada olhar.

 

Seja o Natal das prendas uma prenda

Que não esqueça o mundo humilde e mudo,

Seja a verdade a dominar a lenda

A verdade primeiro e mais que tudo.

 

Seja o Natal fraterna comunhão

Com os pobres sem pão e sem lareira,

Não haja, em parte alguma, coração

Que, por Jesus, não ame a terra inteira.

 

A voz das almas se una à voz dos sinos:

– Glória a Deus! Para os homens, paz e bem!

Todos, pelo Natal, somos meninos

A beijar o Menino de Belém…

 

Padre Francisco Moreira das Neves (Gandra, Paredes, 18/11/1906- 31/03/1992)
Monsenhor, escritor, jornalista e poeta.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Germano d´ Almeida, O Homem e o Escritor de A a Z (C)
Dezembro 19, 2018

 

“C DE CLARIDOSOS

Os escritores que me deram Cabo Verde  a conhecer e me levaram a sentir-me visceralmente filho destas ilhas.

Com eles aprendi a amá-las e a sentir-me parte delas nos desgraçados tempos das secas e fome, e também nos festivos dias de chuva que nos levava a cantar e dançar nas ruas pedindo que viesses tão forte que cada pingo fosse capaz de encher um balde.

E senti que podia adoptar como meu e como divisa o belo poema de Holderlin: “E abertamente votei o meu coração à terra grave e sofredora, e muitas vezes, na noite sagrada, lhe prometi amá-la fielmente até à morte, sem receio, com o seu pesado fardo de fatalidade, e não desprezar nenhum dos seus enigmas. Assim me liguei a ela por medo de um vínculo mortal”.

 

In JL de 6 a 19 de junho de 2018

 

Germano d´ Almeida (Boa Vista, Cabo Verde, 1945)
Contista e romancista, Prémio Camões (2018), advogado.

Maria Teresa Horta – Além do Cume
Dezembro 19, 2018

 

 

Socorro-me

das roas do poema

verso a verso

no forro das palavras

 

buscando a luz

sedenta

e no seu lume

a encontrar o que há

aquém do nada

para chegar depois

 

além do cume

 

HORTA, Maria Teresa, Poesis

(Transcrito do JL de 7 a 20 de junho de 2017)

 

Maria Teresa Horta (Lisboa, 20/5/1937)
Poetisa, colaboradora de diversos jornais e revistas, pertenceu ao grupo Poesia 61 e aos movimentos cineclubista e feminista, co-autora do livro: Novas Cartas Portuguesas (1972) com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, tendo ficado conhecidas internacionalmente por: “As Três Marias”.

Baptista-Bastos – Os Dois no Jardim Que Vocês Conhecem
Dezembro 19, 2018

 

“Tenho medo de me esquecer do tempo em que éramos novos”

Ele olhou-a, surpreendido.

Tinham ido ao supermercado, carregavam, cada um, dois sacos de plástico com compras, a fadiga insinuara-se-lhes nas pernas e nos braços, e sentaram-se no banco do pequeno jardim, próximo de casa.

A tarde ia a meio, e uma brisa leve, levezinha afagava as copas das árvores.

“Cheira a rio”, disse ela.

Estava feliz e gostava de exprimi-lo. Acrescentou: “Por causa da felicidade. Éramos felizes e não gostava de que a memória perdesse esses tempos.”

“A memória é uma sobra”, disse ele.

(…)

O homem, agora, conta à mulher qualquer coisa de imponderável, porque ela franze o sobrolho. Mesmo assim é uma mulher atractiva. Atractiva, não é bom o termo. Vistosa, assim é que é: vistosa. Depois, sorriem os dois. Estão contentes, pelos vistos.

(…)

Erguem-se do banco, pegam nos sacos de plástico, e dirigem-se para o local onde me encontro.”

“Nota: O autor é totalmente contrário ao assim denominado Novo Acordo Ortográfico, pelo que continua a escrever segundo a chamada norma antiga.”

 

Baptista-Bastos, “a minha vida, Crónica”, in Revista Montepio, Outubro 2012

 

Baptista-Bastos (Lisboa, 27/2/1934 – Lisboa, 09/05/2017)
Jornalista, ensaísta, romancista.

Gentílicos ou Pátrios de Estados e Territórios – Namíbia; Nauru; Nepal; Nicarágua; Níger; Nigéria
Dezembro 19, 2018

 

Gentílicos ou pátrios – nomes que indicam: nacionalidade, origem ou lugar de nascimento, residência de alguém ou proveniência de alguma coisa.

Eis alguns, de estados e territórios:

 

Namíbia ———————————————————- namibiano

 

Nauru ————————————————————- nauruano

 

Nepal ————————————————————– nepalês

 

Nicarágua ———————————————- nicaraguano, nicaraguense

 

Níger ————————————————————- nigerino

 

Nigéria ———————————————————– nigeriano

 

(continua)