Archive for Janeiro, 2019

Ana Luísa Amaral – Lugares Comuns
Janeiro 31, 2019

 

Entrei em Londres

num café manhoso (não é só entre nós

que há cafés manhosos, os ingleses também

e eles até tiveram mais coisas, agora

é só a Escócia e um pouco da Irlanda e aquelas

ilhotazitas, mas adiante)

 

Entrei em Londres

num café manhoso, pior ainda que um nosso bar

de praia (isto é só para quem não sabe

fazer uma pequena ideia do que eles por lá têm), era

mesmo muito manhoso,

não é que fosse mal intencionado, era manhoso

na nossa gíria, muito cheio de tapumes e de cozinha

suja. Muito rasca.

 

Claro que os meus preconceitos todos

de mulher me vieram ao de cima, porque o café

só tinha homens a comer bacon e ovos e tomate

(se fosse em Portugal era sandes de queijo),

mas pensei: Estou em Londres, estou

sozinha, quero lá saber dos homens, os ingleses

até nem se metem como os nossos,

e por aí fora…

 

E lá entrei no café manhoso, de árvore

de plástico ao canto.

Foi só depois de entrar que vi uma mulher

sentada a ler uma coisa qualquer. E senti-me

mais forte, não sei porquê mas senti-me mais

[forte.

Era uma tribo de vinte e três homens e ela sozi

[nha e

depois eu

 

Lá pedi o café, que não era nada mau

para café manhoso como aquele e o homem

que me serviu disse: There you are, love.

Apeteceu-me responder: I’m not your bloody

[love ou

Go to hell ou qualquer coisa assim, mas depois

pensei: Já lhes está tão entranhado

nas culturas e a intenção não era má e também

vou-me embora daqui a pouco, tenho avião

quero lá saber

 

E paguei o café, que não era nada mau,

e fiquei um bocado assim a olhar à minha volta

a ver a tribo toda a comer ovos e presunto

e depois vi as horas e pensei que o táxi

estava a chegar e eu tinha que sair.

E quando me ia levantar, a mulher sorriu

como quem diz: That’s it

 

e olhou assim à sua volta para o presunto

e os ovos e os homens todos a comer

e eu senti-me mais forte, não sei porquê,

mas senti-me mais forte

e pensei que afinal não interessa Londres ou nós,

que em toda a parte

as mesmas coisas são

 

Ana Luísa Amaral (Lisboa, 1956)
Poetisa, escritora de literatura infantil, tradutora, professora universitária, licenciada em Germânicas, doutorada em Literatura Norte-Americana.

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Maria Judite de Carvalho – [As Portas que Batem]
Janeiro 31, 2019

 

As portas que batemAs portas que batem

nas casas que esperam.

Os olhos que passam

sem verem quem está.

O talvez um dia

Aos que desesperam.

O seguir em frente.

O não se me dá.

 

O fechar os olhos

a quem nos olhou.

O não querer ouvir

quem nos quer dizer.

O não reparar

que nada ficou.

Seguir sempre em frente

E nem perceber.

 

Maria Judite de Carvalho (Lisboa, 18/9/1921 – Lisboa, 1998)
Contista, novelista, cronista, romancista, dramaturga, colaboradora em vários jornais e revistas.
Esposa de Urbano Tavares Rodrigues e mãe da escritora Isabel Fraga.

Ana Marques Gastão – [Ver-nos-emos um Dia]
Janeiro 31, 2019

 

Ver-nos-emos um dia

náufragos ou cegos

como animais da sombra.

Está escrito.

Na latitude total

da manhã

na aurora trazida pela noite.

Ver-nos-emos na palavra

de instantânea luz

gerada

no resíduo vivo

do amor.

Ver-nos-emos

tu no meu corpo

eu no teu

para celebrarmos

o regresso

da súbita apetência

de vida

que um dia

um anjo nos ofereceu.

 

Ana Marques Gastão (Lisboa, 1962)
Poetisa, crítica literária, colaboradora de diversas publicações, licenciada em Direito .

 

Soror Violante do Céu – Tirano Amor Cupido
Janeiro 31, 2019

 

 

Que suspensão, que enleio, que cuidado

É este meu, tirano deus Cupido?

Pois tirando-me enfim todo o sentido

Me deixa o sentimento duplicado.

 

Absorta no rigor de um duro fado,

Tanto de meus sentidos me divido,

Que tenho só de vida o bem sentido

E tenho já de morte o mal logrado.

 

Enlevo-me no dano que me ofende,

Suspendo-me na causa de meu pranto

Mas meu mal (ai de mim) não se suspende.

 

Ó cesse, cesse, amor, tão raro encanto

Que para quem de ti não se defende

Basta menos rigor, não rigor tanto.

 

Soror Violante do Céu (Lisboa, 30/05/1601(ou 1607) – 28/01/1693)
Poetisa e prosadora, autora de uma comédia, aos 16 A, foi conhecida pela Décima Musa e Fénix dos Engenhos Lusitanos, Professou em 1630.

Maria Alberta Menéres – [Umas São as Palavras Loucas]
Janeiro 31, 2019

 

Umas são as palavras    loucas

da lengalenga      ao meio dia

nascidas para um tempo de horas poucas

na velha sementeira de alegria.

 

Outras são as palavras rotas     ocas

que desfolhando andei       como quem via

que em vento se esfumando altivas bocas

só minha própria boca me servia.

 

E assim me avento ao espaço, passeando

pelo cativo som das transparências

inventadas em tons de não sei quando.

 

De palavras contorno experiências,

memória minha! Às vezes ondeando

frágeis projectos:   impaciências.

 

Maria Alberta Menéres (Vila Nova de Gaia, 25/8/ 1930)
Professora, tradutora, jornalista, poetisa e escritora infanto-juvenil, mãe da cantora Eugénia Melo e Castro.

Padre Manuel Antunes na Voz de Miguel Real – “O Meu Melhor Professor”
Janeiro 26, 2019

 

“O Padre Manuel Antunes (MA) foi o meu melhor professor – escrevo-o sem hesitação. Fui seu aluno ao longo de quatro anos, antes e depois do 25 de Abril, em duas “cadeiras” obrigatórias (“História da Cultura Clássica” e “Ontologia”) e duas de seminários anuais (“Platão” e, salvo erro, “Platão e Aristóteles”).

Tive, assim, oportunidade de o conhecer relativamente bem como professor. E foi o melhor, porque cruzava, em cada aula, mas também as conversas particulares com os alunos, uma imensa sabedoria com uma clareza pedagógica e uma acessibilidade pessoal invulgares.

As suas aulas constituíam um autêntico templo de sapiência (…).

Assistíamos às suas aulas – uma autêntica estufa de conhecimento, que a todos atraía e encandeava, como se presos pelas suas palavras – como neófitos de um mistério que, no final, se esclareceria, ou, impossível de esclarecer, ficava suspenso de resolução, mas conceptualmente esventrado, deixando de ser mistério e passando a ser um simples enigma.

Como ele dizia, mistério só nas religiões, na filosofia e na ciência só havia enigmas divididos em problemas.

Saíamos das suas aulas – sempre de manhã – de alma cheia, não de sabedoria, mas conscientes, caso quiséssemos, do caminho esforçado e labiríntico que a ela nos podia levar. (…)

Como MA resolvia a questão posta ou, esventrada, a deixava em suspenso? Para isso concorriam as três grandes fontes da sua sabedoria: a História, a Filosofia e a Literatura, que dominava com bastante à vontade e nas aulas amiúde cruzava (…).

Não fugia do aluno, não tinha pressa, não olhava para o relógio (penso que não tinha relógio de pulso, mas já não tenho a certeza), pelo contrário, tirava um caderninho e apontava o que o aluno lhe estava a dizer como se este fosse um grande mestre de filosofia.

(continua)

In JL de 24 de outubro a 6 de novembro de 2018

 

Padre Manuel Antunes (Sertã, 13/11/1918 – Lisboa, 16/1/1985)
Sacerdote, professor universitário, ensaísta, grande amigo de: Almada Negreiros, António Sérgio, Jorge de Sena, José Régio e Vitorino Nemésio, doutorado em Filosofia e Teologia.

 

Miguel Real (Lisboa, 01/03/1953)
Pseudónimo de Luís Martins
Ensaísta, romancista, dramaturgo, crítico literário, conferencista, professor de Filosfia, colaborador do JL, licenciado em Filosofia, mestre em Estudos Portugueses, especialista em Cultura Portuguesa.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Germano d´ Almeida, O Homem e o Escritor de A a Z (E e F)
Janeiro 26, 2019

 

E DE EVA

Sempre gostei da Eva da Bíblia (…) surpreendendo o Criador ao revelar-se uma criatura livre e pensante, uma mulher alegre (…)

Por isso dei o seu nome à minha Eva.”

 

F DE FESTA

Convívio entre as pessoas, gargalhadas, copos, música, alegres ditos de chuva, mas também e muitas vezes o simples prazer de estar com alguém em silêncio.”

 

In JL de 6 a 19 de junho de 2018

(continua)

 

Germano d´ Almeida (Boa Vista, Cabo Verde, 1945)
Contista e romancista, Prémio Camões (2018), advogado.

Guerra Junqueiro – Os Pobrezinhos
Janeiro 26, 2019

 

Pobres de pobres são pobrezinhos

Almas sem lares, aves sem ninhos.

 

Passam em bandos, em alcateias,

Pelas herdades, pelas aldeias.

 

É em Novembro, rugem procelas…

Deus nos acuda, nos livre delas!

 

Vêm por desertos, por estevais,

Mantas aos ombros, grandes bornais,

 

Como farrapos, coisas sombrias,

Trapos levados nas ventanias…

 

Filhos de Cristo,filhos d’ Adão

Buscam no mundo côdeas de pão!

 

Há-os ceguinhos, em treva densa,

D’ olhos fechados desde nascença.

 

Há-os com f´ridas esburacadas,

Roxas de lírios, já gangrenadas.

 

Uns de voz rouca, grandes bordões

Quem sabe lá se serão ladrões!…

 

Outros humildes, riso magoado,

Lembram Jesus que ande disfarçado…

 

Enjeitadinhos, rotos, sem pão,

Tremem maleitas d’ olhos no chão…

 

Campos e vinhas!… Hortas com flores!…

Ai, que ditosos os lavradores!

 

Olha, fumegam tectos e lares…

Fumo tão lindo!… Branco, nos ares!

 

Batem às portas, erguem-se as mães,

Choram meninos, ladram os cães…

 

Rezam e cantam, levam a esmola,

Vinho no bucho,pão na sacola.

 

Fruta da horta, caldo ou toucinho

Dão sempre os pobres a um pobrezinho.

 

Um que tem chagas, velho, coitado,

Quer ligaduras ou mel rosado.

 

Outro, promessa feita a Maria,

Deitam-lhe azeite na almotolia.

 

Pelos alpendres, pelos currais,

Dormem deitados como animais.

 

Em caravanas, em alcateias,

Vão por herdades, vão por aldeias…

 

Sabem cantigas, oraçõezinhas,

Contos d’ estrelas, reis e rainhas…

 

Choram cantando, penam rezando,

Ai, só a morte sabe até quando!

 

Mas no outro mundo Deus lhes prepara

Leito o mais alvo, ceia a mais rara…

 

Os pés doridos lhos lavarão

Santos e santas com devoção!

 

Para lavá-los, perfumaria

Em gomil d’ ouro a bacia.

 

E embalsamados, transfigurados,

Túnicas brancas, como em noivados,

 

Viverão sempre na eterna luz,

Pobres benditos, amém, Jesus!…

 

Abílio Manuel Guerra Junqueiro (Freixo de Espada à Cinta, 15 /09/1850 — Lisboa, 07/07/1923)
Poeta, o mais popular da sua época, jornalista, político, licenciado em Direito.

Florbela Espanca – Voz que se Cala
Janeiro 26, 2019

 

Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.

Amo a hera que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.

Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!

Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero Destino!…

 

Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8/12/1894 – Matosinhos, 8/12/1930)
Poetisa, 1.ª mulher a frequentar o curso de Direito na Universidade
de Lisboa, percursora do movimento feminista em Portugal.

Gentílicos ou Pátrios de Estados e Territórios – Panamá; Papuásia – Nova Guiné; Paquistão; Paraguai; Peru; Pitcairn
Janeiro 26, 2019

 

Gentílicos ou pátrios – nomes que indicam: nacionalidade, origem ou lugar de nascimento, residência de alguém ou proveniência de alguma coisa.

Eis alguns, de estados e territórios:

Panamá —————————————————- panamense

Papuásia – Nova Guiné ————————- papua

Paquistão ————————————————- paquistanês

Paraguai –————————————————- paraguaio

Peru ———————————————————- peruano

Pitcairn —————————————————- de Pitcairn

(continua)