Augusto Gil – Art. 1056º do Código Civil

 

 

Oiça, vizinha: o melhor

É combinarmos o modo

De acabar com este amor

Que me toma o tempo todo.

 

Passo os meus dias a vê-la

Bordar ao pé da sacada.

Não me tiro da janela,

Não leio, não faço nada…

 

O seu trabalho é mais brando,

Não lhe prende o pensamento,

Vai conversando, bordando,

E acirrando o meu tormento…

 

O meu não: abro um artigo

De lei, mas nunca o acabo,

Pois dou de cara consigo

E mando as leis ao diabo.

 

Ao diabo mando as leis

Com excepção dum artigo:

O mil e cinquenta e seis…

Quer conhecê-lo? Eu lhe digo:

 

“Casamento é um contrato

Perpétuo”. Este adjectivo

Transmuda o mais lindo pacto

No assunto mais repulsivo.

 

“Perpétuo”. Repare bem

Que artigo cheio de puas.

Ainda se não fosse além

Duma semana ou de duas…

 

Olhe: tivesse eu mandato

De legislar e poria:

Casamento é um contrato

Duma hora – até um dia…

 

Mas não tenho. É pois melhor

Combinarmos algum modo

De acabar com este amor

Que me toma o tempo todo.

 

Augusto Gil (Lordelo do Ouro, 31/7/1873 – Guarda, 26/11/1929)
Poeta, colaborador de jornais, advogado, director-geral das Belas-Artes.

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