Ruy Belo – As Velas da Memória

 

Há nos silvos que as manhãs me trazem

chaminés que se desmoronam:

são a infância e a praia os sonhos de partida

 

Abrir esse portão junto ao vento que a vida

aquém ou além desta me abre?

Em que outro mundo ouvi o rouxinol

tão leve que o voo lhe aumentava as asas?

Onde adiava ele a morte contra os dias

essa primeira morte?

Vinham núpcias sem conto na inconcebível voz

Que plenitude aquela: cantar

como quem não tivesse nenhum pensamento.

 

Quem me deixou de novo aqui sentado à sombra

deste mês de junho? Como te chamas tu

que me enfunas as velas da memória ventilando: “aquela

[vez…”?

 

Quando aonde foi em que país?

Que vento faz quebrar nas costas destes dias

as ondas de uma antiga música que ouvida

obriga a recuar a noite prometida

em círculos quebrados para além das dunas

fazendo regressar rebanhos de alegrias

abrindo em plena tarde um espaço ao amor?

Que morte vem matar a lábil curva da dor?

Que dor me faz doer de não ter mais que morrer?

 

E ouve-se o silêncio descer pelas vertentes da tarde

chegar à boca da noite e responder

 

BELO, Ruy, Antologia Poética

 

Ruy Belo (S. João da Ribeira, Rio Maior, 27/2/1933 – Queluz, 8/8/1978)
Poeta, ensaísta, crítico literário, tradutor, professor, leitor de Português, licenciado em Direito e Filologia Românica, doutorado em Direito Canónico.

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