Rosa Alice Branco – A divisibilidade dos aromas

 

Pela janela vem o cheiro da manhã, da relva

e das rosas salpicadas de fresco que se casam com o cheiro

dos lençóis sonolentos. Ao bater a porta já só sinto

o meu perfume, o que pomos por cima das certezas

e das dúvidas, por cima dos segredos que trespassam a pele.

Em breve me confundirei com o cheiro dos outros, daquele homem

vergado pelo saco de batatas, da florista a compor as margaridas,

da peixeira à porta da vizinha mostrando as goelas sangrentas

(talvez porque se tenha levantado cedo e apregoar assim

fere a garganta), das crianças a caminho da escola, de todos

os que hão-de cruzar o meu dia e de ti que hás-de cruzar

também a minha noite. Contar-te-ei todas as horas com a mistura

dos aromas que me compõem e ouvirei na tua pele

a subtil diferença entre os dias. Amanhã fecharemos a porta

e o teu cheiro irá entranhado em mim até uma distância infinita

das rosas que cantam à janela e seguirei pela estrada

estendendo a pele às dádivas do dia.

 

BRANCO, Rosa Alice, “Da Alma e dos Espíritos Animais”, Soletrar o Dia

 

Rosa Alice Branco (Aveiro, 1950)
Poetisa, mestre em Filosofia do Conhecimento.

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