Ana Luísa Amaral – Lugares Comuns

 

Entrei em Londres

num café manhoso (não é só entre nós

que há cafés manhosos, os ingleses também

e eles até tiveram mais coisas, agora

é só a Escócia e um pouco da Irlanda e aquelas

ilhotazitas, mas adiante)

 

Entrei em Londres

num café manhoso, pior ainda que um nosso bar

de praia (isto é só para quem não sabe

fazer uma pequena ideia do que eles por lá têm), era

mesmo muito manhoso,

não é que fosse mal intencionado, era manhoso

na nossa gíria, muito cheio de tapumes e de cozinha

suja. Muito rasca.

 

Claro que os meus preconceitos todos

de mulher me vieram ao de cima, porque o café

só tinha homens a comer bacon e ovos e tomate

(se fosse em Portugal era sandes de queijo),

mas pensei: Estou em Londres, estou

sozinha, quero lá saber dos homens, os ingleses

até nem se metem como os nossos,

e por aí fora…

 

E lá entrei no café manhoso, de árvore

de plástico ao canto.

Foi só depois de entrar que vi uma mulher

sentada a ler uma coisa qualquer. E senti-me

mais forte, não sei porquê mas senti-me mais

[forte.

Era uma tribo de vinte e três homens e ela sozi

[nha e

depois eu

 

Lá pedi o café, que não era nada mau

para café manhoso como aquele e o homem

que me serviu disse: There you are, love.

Apeteceu-me responder: I’m not your bloody

[love ou

Go to hell ou qualquer coisa assim, mas depois

pensei: Já lhes está tão entranhado

nas culturas e a intenção não era má e também

vou-me embora daqui a pouco, tenho avião

quero lá saber

 

E paguei o café, que não era nada mau,

e fiquei um bocado assim a olhar à minha volta

a ver a tribo toda a comer ovos e presunto

e depois vi as horas e pensei que o táxi

estava a chegar e eu tinha que sair.

E quando me ia levantar, a mulher sorriu

como quem diz: That’s it

 

e olhou assim à sua volta para o presunto

e os ovos e os homens todos a comer

e eu senti-me mais forte, não sei porquê,

mas senti-me mais forte

e pensei que afinal não interessa Londres ou nós,

que em toda a parte

as mesmas coisas são

 

Ana Luísa Amaral (Lisboa, 1956)
Poetisa, escritora de literatura infantil, tradutora, professora universitária, licenciada em Germânicas, doutorada em Literatura Norte-Americana.

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