Archive for Fevereiro, 2019

Vasco Graça Moura – Poema para Eduardo Prado Coelho
Fevereiro 27, 2019

 

eduardo

 

Quando morre um amigo não se sabe o que se há-de dizer,

só que nos faz falta, que gostávamos da sua

presença, de saber que nos trazia uma relação diferente

com o mundo e connosco e que também isso

 

era inquietação, conhecimento e alegria. E há-de ser

sempre duro e difícil aceitar

que a voz que ele tinha, os gestos que fazia,

os seus encantamentos, até as suas manias, a sua maneira de

andar,

 

ficam só na memória entre outras sombras e silêncios.

a vida continua, sim, o mundo continua,

todos dizemos isso e sente-se uma precária segurança,

uma surda música de alívio porque não é ainda a nossa vez,

 

e continuam os rios e os mares, as nuvens e os continentes,

as derivas da história, as coisas do dia a dia,

mesmo que um amigo morra, e continuam

os homens e os seus  conflitos, e continuam

 

as coisas mais belas e as mais sórdidas, mas mais pungentes e as

que nos marcam a esperança, mesmo que morra

um amigo que não voltaremos a ver e se tenha tornado

apenas uma íntima presença.

 

nós pressentimos tudo isto porque temos

de agarrar-nos a qualquer coisa, e ainda mais

quando more um amigo e nos vem a certeza

de que uma parte de nós, do que nos explica, do que é

 

a nossa geração morre com ele.

 

Vasco Graça Moura

 

In JL, 29/08/2007

 

Vasco Graça Moura (Porto, 3/1/1942 – Lisboa, 27/04/2014)
Poeta, ficcionista, cronista, tradutor, licenciado em Direito.

 

Eduardo Prado Coelho (Lisboa, 29/3/1944 – Lisboa, 25/8/2007)
Escritor, crítico literário, ensaísta, colunista, comentador político, grande difusor da cultura, professor universitário, licenciado em Filologia Românica e doutorado pela FLUL, filho de Jacinto do Prado Coelho e pai da jornalista Alexandra Prado Coelho.

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Joaquim Pessoa – Última Canção
Fevereiro 26, 2019

 

De barco em barco. Por cada flor,

por cada terra,

um outro céu, um outro amor.

E a derradeira paz depois da guerra.

 

De coração em coração, o porto.

De mágoa em mágoa, o que magoa.

De barco em barco, em busca de lisboa

chegarei tarde, talvez. Ou talvez morto.

 

De rua em rua: o mar. Também o povo.

E tudo o que faz parte da canção.

Eu estou em terra. Mas chegarei de novo

a ti. De coração em coração.

 

De nome em nome. Por cada flor,

por toda a gente,

este canto senão ser navegador

e morrer na pátria livremente.

 

Joaquim Pessoa (Barreiro, 22/2/1948)
Poeta, artista plástico, professor.

David Mourão-Ferreira – Abandono ou Fado Peniche
Fevereiro 26, 2019

 

Por teu livre pensamento

foram-te longe encerrar.

Tão longe que o meu lamento

não te consegue alcançar.

E apenas ouves o vento.

E apenas ouves o mar.

 

Levaram-te, era já noite:

a treva tudo cobria.

Foi de noite, numa noite

de todas a mais sombria.

Foi de noite, foi de noite,

e nunca mais se fez dia.

 

Ai dessa noite o veneno

persiste em me envenenar.

Ouço apenas o silêncio

que ficou em teu lugar.

Ao menos ouves o vento!

Ao menos ouves o mar!

 

David Mourão-Ferreira (Lisboa, 24/2/1927 – 16/6/1996)
Poeta, novelista, romancista, ensaísta, colaborador de múltiplos jornais e revistas, co-fundador da revista Távola Redonda, professor, licenciado em Filologia Românica.

José Jorge Letria – [Estou Sentado Junto à Janela]
Fevereiro 26, 2019

 

Estou sentado junto à janela

e tenho à minha frente o mar,

lençol de luz e espuma

onde abrigo o meu olhar

quando as palavras começam,

mesmo sem eu querer, a rimar.

É com a borboleta que aprendo

a paixão do voo, a pressa

que o vento tem de lhe tocar.

Depois dos meus olhos

estão as dunas, para além delas

o carrossel das ondas

rodopiando sem parar

com a dança das gaivotas

por cima a ajudar.

 

LETRIA, José Jorge, A Borboleta com Asas de Vento

 

José Jorge Letria (Cascais, 08/06/1951)
Poeta, romancista, contista, dramaturgo, autor de literatura infanto-juvenil, coautorde antologias de poesia, jornalista.

Baptista-Bastos – [Possuo Numerosos Blocos…]
Fevereiro 26, 2019

 

“(…) Possuo numerosos blocos cheios de notas, não sei para que uso, se as escrevo há anos sem proveito aparente.

Certo dia, a Isaura perguntou-me: “Alguma vez irás servir-te dessas garatujas?”

E eu: “Talvez, nunca se sabe.”

A Isaura sorriu e disse: “Eu guardo tudo o que é teu. Apontamentos, rabiscos. Está tudo dentro de uma caixa de cartão. Já está a abarrotar. No fundo, é o teu trabalho: escrever, não é?”

Escrever é difícil; escrever bem, impossível. É uma tentativa repetida vezes sem conta, uma procura de nos aproximar de um rosto, de uma frase, de uma realidade que rapidamente se desvanece, porque toda a realidade é uma mentira muito bem disfarçada para nos enganar. (…)”

 

In Montepio Outubro 2012, ” a minha vida” CRÓNICA

 

Baptista-Bastos (Lisboa, 27/2/1934 – Lisboa, 09/05/2017)
Jornalista, ensaísta, romancista.

Hélia Correia – [Na Minha Prosa…]
Fevereiro 26, 2019

 

” (…) Na minha prosa, a frase obedece também à música e a esse motor poético. (…)

A dança é sempre muito forte no meu imaginário (…)”

 

In JL, 24 de outubro a 6 de novembro, Hélia Correia “Precisamos de palavra no mundo”

 

Hélia Correia (1949)
Ficcionista, poetisa e dramaturga, galardoada com o Prémio Camões 2015, licenciada em Filologia Românica, ex-professora do Ensino Secundário.

 

Padre Manuel Antunes na Voz de Miguel Real – “O Meu Melhor Professor” (continuação)
Fevereiro 26, 2019

 

” Erudito mas próximo; rigoroso nas  classificações, mas justo; compreensivo com as carências de conhecimentos dos alunos, prestando informações sobre as obras de mais fácil leitura; uma infinita paciência para com as intervenções dos alunos, algumas – vejo hoje – autênticos disparates e anacronismos (recordo uma aula sobre Plotino, continuamente interrompida por uma aluna  ferrenhamente marxista-leninista; ele respondia com um sorriso tímido, dizendo apenas que era possível uma outra interpretação); sábio mas delicado, de uma polidez a toda a prova; nenhum traço de sobranceria, de altivez, de vaidade, penso que a Humildade seria das virtudes cristãs a que melhor se lhe aplicaria (porventura nele natural devido às regras de Obediência jesuítica), a Humildade e, sem dúvida, a Temperança, a compreensão lúcida de que se é pelos extremos que a Cultura se move, fazendo revolver e sofrer povos e indivíduos (…)

Foi em nome do principio da Moderação que aceitou pertencer aos órgãos superiores da Faculdade no pós 25 de Abril, mas os extremos políticos e sociais continuavam muito acerados (de lembrar que muitos alunos de então consideravam Louis Althusser o maior filósofo da atualidade), era impossível fazer ouvir a voz da ponderação.

Obrigado, Professor!”

 

In JL de 24 de outubro a 6 de novembro de 2018

 

Padre Manuel Antunes (Sertã, 13/11/1918 – Lisboa, 16/1/1985)
Sacerdote, professor universitário, ensaísta, grande amigo de: Almada Negreiros, António Sérgio, Jorge de Sena, José Régio e Vitorino Nemésio, doutorado em Filosofia e Teologia.

 

Miguel Real (Lisboa, 01/03/1953)
Pseudónimo de Luís Martins
Ensaísta, romancista, dramaturgo, crítico literário, conferencista, professor de Filosofia, colaborador do JL, licenciado em Filosofia, mestre em Estudos Portugueses, especialista em Cultura Portuguesa.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Germano d´ Almeida, O Homem e o Escritor de A a Z (G)
Fevereiro 20, 2019

 

G DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

 

Acrescentaria Eça de Queirós e Jorge Amado*. Amo os três, li tudo o que encontrei deles.

Com o Memorial do Convento, Saramago encorajou-me a prosseguir uma experiência de contar estórias que sentia em mim mas não me atrevia a usar. Obrigado à Maria Leonor que me mandou o livro depois de ler o primeiro editorial do Ponto&Vírgula.

Com García Márquez aprendi que não há limites para as loucuras da imaginação, se ele até ganhou o Nobel!

Eça é a incomparável e suprema ironia dos bem-aventurados pobres de léxico que acabam ganhando o reino da glória. ”

 

In JL de 6 a 19 de junho de 2018

(continua)

 

* Permito-me subentender tratar-se de um lapso, uma vez que os três a que o autor se refere, destaca Saramago e não Amado.

 

Germano d´ Almeida (Boa Vista, Cabo Verde, 1945)
Contista e romancista, Prémio Camões (2018), advogado.

Gentílicos ou Pátrios de Estados e Territórios – Polinésia Francesa; Polónia; Porto Rico; Quénia; Quirguizistão; Quiribati; Reino Unido; Rep. Centro-Africana; República Checa; República Dominicana 
Fevereiro 20, 2019

 

Gentílicos ou pátrios – nomes que indicam: nacionalidade, origem ou lugar de nascimento, residência de alguém ou proveniência de alguma coisa.

Eis alguns, de estados e territórios:

 

Polinésia Francesa ——————————- polinésio

Polónia ————————————————— polaco

Porto Rico ——————————————– porto-riquenho

Quénia ————————————————– queniano

Quirguizistão ————————————– quirguize

Quiribati——————————————— quiribatiano

Reino Unido ————————————- britânico

Rep. Centro-Africana ——————– centro-africano

República Checa —————————- checo

República Dominicana —————— dominicano

(continua)

Joseia Matos Mira – [Inconsciente a Mão…]
Fevereiro 19, 2019

 

Inconsciente a mão afaga a relva;

Viaja na distância o olhar,

Onde se somem as asas e as velas;

Exaltado pulsa o coração no mundo.

 

MIRA, Joseia Matos, Trans-Lúcido, 2006

 

Joseia Matos Mira (Baleizão, Beja)
Romancista, contista e poetisa.
Professora do ensino secundário e superior, licenciada em Filologia Românica, doutorada em Literatura Francesa.