António Gedeão –Estrela da Manhã

 

Numa qualquer manhã, um qualquer ser,

vindo de qualquer pai,

acorda e vai.

Vai.

Como se cumprisse um dever.

 

Nas incógnitas mãos transporta os nossos gestos;

nas inquietas pupilas fermenta o nosso olhar.

E em seu impessoal desejo latejam todos os restos

de quantos desejos ficaram antes por desejar.

 

Abre os olhos e vai.

 

Vai descobrir as velas dos moinhos

e as rodas que os eixos movem,

o tear que tece o linho,

a espuma roxa dos vinhos,

incêndio na face jovem.

 

Cego, vê, de olhos abertos.

Sozinho, a multidão vai com ele.

Bagas de instintos despertos

ressuma-lhe à flor da pele.

 

Vai, belo monstro.

Arranca

as florestas com os teus dentes.

Imprime na areia branca

teus voluntariosos pés incandescentes.

 

Vai

 

Segue o teu meridiano, esse,

o que divide ao meio teus hemisférios cerebrais;

o plano de barro que nunca endurece,

onde a memória da espécie

grava os sonos imortais.

 

Vai

 

Lábios húmidos do amor da manhã,

polpas de cereja.

Desdobra-te e beija

em ti mesmo a carne sã.

 

Vai

 

À tua cega passagem

a convulsão da folhagem

diz aos ecos

“tem que ser”.

 

O mar que rola e se agita,

toda a música infinita,

tudo grita

“tem que ser”.

 

Cerra os dentes, alma aflita.

Tudo grita

“Tem que ser”.

 

António Gedeão (Lisboa, 24/1/1905 – Lisboa, 19/2/1997)
Pseudónimo de Rómulo de Carvalho.
Poeta, pedagogo, historiador de ciência e educação, professor, licenciado em Ciências Físico-Químicas.

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