António Patrício – Relíquia

 

Era de minha mãe: é um pobre xale

que tem pra mim uma carícia de asa.

Vou-lhe pedir ainda que me fale

da que ele agasalhou em nossa casa.

 

Na sua trama já puída e lassa

deixo os meus dedos pra senti-la ainda;

e Ela vem, é Ela que me abraça,

fala de coisas que a saudade alinda.

 

É a minha mãe mais perto, mais pertinho,

que eu sinto quando toco o velho xale,

que guarda um não sei quê do seu carinho.

 

E quando a vida mais me dói, no escuro,

sinto ao tocá-lo como alguém que embale

e beije a minha sede de amor puro.

 

António Patrício (Porto, 7/3/1878 – Macau, 4/6/1930)
Poeta, dramaturgo, contista, colaborador em revistas, médico e diplomata.

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