Daniel Faria – [Homens que São…] (poema integral)

 

 

Homens que são como lugares mal situados

Homens que são como casas saqueadas

Que são como sítios fora dos mapas

Como pedras fora do chão

Como crianças órfãs

Homens sem fuso horário

Homens agitados sem bússola onde repousem

 

Homens que são como fronteiras invadidas

Que são como caminhos barricados

Homens que querem passar pelos atalhos sufocados

Homens sulfatados por todos os destinos

Desempregados das suas vidas

 

Homens que são como a negação das estratégias

Que são como os esconderijos dos contrabandistas

Homens encarcerados abrindo-se com facas

 

Homens que são como danos irreparáveis

Homens que são sobreviventes vivos

Homens que são sítios desviados

Do lugar

 

Homens que são como projectos de casas

Em suas varandas inclinadas para o mundo

Homens nas varandas voltadas para a velhice

Muito danificados pelas intempéries

 

Homens cheios de vasilhas esperando a chuva

Paradas à espera

De um companheiro possível para o diálogo interior

 

Homens muito voltados para um modo de ver

Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro

De si mesmo

Homens tão improperados tão desprevenidos

Para se receber

 

Homens à chuva com as mãos nos olhos

Imaginando relâmpagos

Homens abrindo lume

Para enxugar o rosto para fechar os olhos

Tão impreparados tão desprevenidos

Tão confusos à espera de um sistema solar

Onde seja possível uma sombra maior

 

Homens que trabalham sob a lâmpada

Da morte

Que escavam nessa luz para ver quem ilumina

A fonte dos seus dias

 

Homens muito dobrados pelo pensamento

Quem vêm devagar como quem corre

As persianas

Para ver no escuro a primeira nascente

 

Homens que escavam dia após dia o pensamento

Que trabalham na sombra da copa cerebral

Que podam a pedra da loucura quando esmagam as pupilas

Homens todos brancos que abrem a cabeça

À procura dessa pedra definida

 

Homens de cabeça aberta exposta ao pensamento

Livre. Que vêm devagar abrir

Um lugar onde amanheça.

Homens que se sentam para ver uma manhã

Que escavam um lugar

Para a saída.

 

Não levantemos os homens que se sentam à saída

Porque se movem em seus carreiros interiores

Equilibram com dificuldade uma ideia

Qualquer coisa muito nítida, semelhante

A uma folha vazia

E põem ninhos nas árvores para se libertarem

Da gaiola terrível, invisível muitas vezes

De tão dura

Não nos aproximemos dos homens que põem as mãos nas grades

Que encostam a cabeça aos ferros

Sem outras mãos onde agarrar as mãos

Sem outra cabeça onde encostar o coração

Não lhes toquemos senão com os materiais secretos

Do amor.

Não lhes peçamos para entrar

Porque a sua força é para fora e a sua espera

É a fé inabalável no mistério que inclina

Os homens para dentro

Não os levantemos

Nem nos sentemos ao lado deles. Sentemo-nos

No lado oposto, onde eles podem vir para erguer-nos

A qualquer instante

 

FARIA, Daniel, Poesia

 

Daniel Augusto da Cunha Faria (Baltar, Paredes, 10/04/1971 – Porto, 09/06/1999)
Poeta, vencedor de vários prémios literários e escolares, colaborador em diferentes revistas, autor de desenhos, colagens, mobiles, encadernação e encenação, dirigente d´O Círculo de Leitura no Seminário Maior (1989/93).
Licenciado em Teologia (parte curricular concluída em 1994 e tese defendida em 1996), e em Estudos Portugueses (1998), seminarista antes de ingressar no curso de Letras, a um ano de ser ordenado sacerdote, tendo optado após a conclusão daqueles estudos pela vida monástica, como postulante no Mosteiro Beneditino  de S. Bento da Vitória (1997-98); noviço no Mosteiro de Singeverga onde, quase no termo do noviciado, sofreu um acidente doméstico que o colheu para outra vida.


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