Eduardo Bettencourt Pinto – Solstício

 

 

A Eugénio Lisboa

 

Nunca se regressa do tempo mas dos espelhos,

lagos onde te debruças e espreitas o silêncio

do teu rosto.

Cada manhã lembram-te, como um severo juiz,

o órfão menino que foste.

No fundo dos olhos perderam-se as garças,

a clara e pueril sombra das olaias,

setembro cantava ainda sobre os ombros

ou entre as primeiras chuvas da tua vida.

Foi um instante: o lume que te levou

à alegria eterna de um momento

foi-se apagando nas mãos, oiro e pedra

da alma.

Até a paciência se tornou numa guitarra calada.

Mas não percas nisso o canto.

Daqui a pouco te levantarás da melancolia,

essa cama de equívocos onde o corpo se deita

cansado e que acaba por sequestrar o coração.

Enquanto os presidiários do fatalismo se encerram

nos labirintos da solidão, segue por outro caminho

em direcção ao sul, à casa e à claridade

onde os teus passos nasceram

em corrida para o rio.

 

Eduardo Bettencourt Pinto (Angola, 1954)
Poeta e ficcionista.

 

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