Archive for Abril, 2019

Sophia – [No 25 de Abril…]
Abril 25, 2019

 

“- No 25 de Abril há um momento poético extraordinário. Hoje em dia nós olhamos para trás e perguntamos a nós próprios se foi a nossa sede de uma ilusão que criou uma espécie de fantasmagoria.

Mas não há dúvida de que eu me lembro de uma cidade de Lisboa sem nenhuma política, sem nenhuma violência. Lembro-me da cidade de Lisboa onde todas as pessoas que encontrávamos sorriam, lembro-me de ver passar pequenos grupos de gente nova no Rossio que pareciam pequenos bandos de bailarinos ou de gaivotas, e atravessavam de um lado ao outro da praça. Lembro-me de bandeiras que dançavam em cima da cabeça das pessoas e das expressões e dos gestos e das vozes.

E tudo isto era um tão bonito e extraordinário momento poético e como que uma ilha noutro planeta…

Talvez tivesse havido um momento em que, imagino, algo para toda a gente estava para além da política e que depois a política destroçou, a política tradicional.

Creio que houve um estado de graça. Mas depois o pecado do poder destruiu esse estado de graça.”

 

In JL de 16 de Fevereiro a 1 de Março de 1982

 

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o Prémio Camões (1999)

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Maria Teresa Horta – “Memórias”
Abril 25, 2019

 

“Sempre que me pedem para contar como vivi o 25 de Abril, penso de imediato numa imensa festa, numa rutilante aventura feita de liberdade (…) a partir daquela primeira noite em que começou a ser-nos cortada a atadura do medo e pudemos pensar em reaprender a vida (…)

Fora a Maria Isabel Barreno que me telefonara, alertando-me para que algo de estranho se estava a passar… “Liga o rádio, já!” – disse-me,  que liguei-o e fiquei ali siderada a ouvir, “aqui, Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas“, seguido de uma marcha militar, enquanto o Luís se voltava  vestir à pressa para sair, madrugada dentro a caminho do Expresso, onde então trabalhava.

Madrugada que passei em branco, a tomar conta do sono do meu filho então com nove anos (…).

Tomei um café e liguei para a Maria Velho da Costa. Como não podia deixar de ser, falámos do nosso julgamento a decorrer por efeito de um processo que nos fora movido pelo governo fascista, devido à publicação de Novas Cartas Portuguesas escrita juntamente com Maria Isabel Barreno. “Se for um golpe dos militares do Kaulza, vamos logo presas, caso sejam os capitães, é diferente“, concluímos unânimes.

Em seguida acordei o meu filho, contei-lhe o que se passava, logo vendo nascer o brilho da excitação no seu olhar azul, diante de tão inesperada aventura, a que secretamente já íamos chamando de revolução, e partimos a caminho do Expresso, pelas avenidas vazias (…).

Voltámos para casa a contra-gosto, e quando no início da tarde falei em ir sozinha para junto do quartel do Carmo, o meu filho disse-me: “Um dia vou acusar-te de não me teres deixado ver a revolução“. Desassossegada, abracei-o,  e fomos ver a revolução na rua. (…)

Sempre pensei que seria belíssimo, traçar-se um mapa do 25 de abril, desenhando a liberdade.”

 

In JL, 16 a 29 de abril de 2014

 

Maria Teresa Horta (Lisboa, 20/5/1937)
Poetisa, colaboradora de diversos jornais e revistas, pertenceu ao grupo Poesia 61 e aos movimentos cineclubista e feminista, co-autora do livro: Novas Cartas Portuguesas (1972) com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, tendo ficado conhecidas internacionalmente por: “As Três Marias”.

Maria Isabel Barreno – “A explosão da alegria”
Abril 25, 2019

 

” A libertação dum peso que nos esmagava, essa é a primeira sensação que recordo do 25 de Abril. Fiquei livre dum longo e penoso processo judicial, que me aparece apenas como um pequeno detalhe na explosão da alegria coletiva. Nesse tempo não lutávamos por mudanças pessoais, mas sim pelo fim de um regime que nos condenava à injustiça, à ignorância, à liberdade de expressão e de todos os direitos cívicos, à pobreza e à auto-flagelação. (…)

Chegou o 25 de Abril. É indescritível a alegria desses dias, dessas semanas, desses meses. Sentíamos que havia, finalmente, um “nós” enunciável para além do futebol, do fado e do bacalhau.

Corríamos dum lado para o outro, incansáveis, nas ruas coalhadas de gente e de carros. Engarrafamentos monstros, soldados arvorados em polícias sinaleiros, todos sorríamos, acenávamos, abraçávamo-nos, fazíamos “VV” de vitória.

Chegaram estrangeiros para ver a revolução maravilhosa, nós mostrávamos, orgulhosos, vejam fizemos uma revolução única, exemplar, não somos atrasados nem incivilizados, está provado.  (…)”

 

In JL, 16 a 29 de abril de 2014

 

Maria Isabel Barreno (Lisboa, 10/7/1939 – 03/09/2016)
Romancista, novelista, contista, ensaísta, autora de trabalhos sociológicos e de guiões para a televisão e cinema, colaboradora de jornais e revistas, integrou o Movimento Feminista de Portugal com as escritoras: Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, com as quais é co-autora de: Novas Cartas Portuguesas, tendo ficado conhecidas internacionalmente por: “As Três Marias”, licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas.

Mário de Carvalho – “Um sorriso de permeio”
Abril 25, 2019

 

“Já contei a notícia que me chegou do 25 de Abril numa manhã gelada duma cidade sueca. Seguiram-se dias de frenesi, troca de informações, trato de coisas burocráticas, despachos alfandegários, contactos,  obtenção de documentos. Uma família a desinstalar.

Quando descemos no aeroporto, súbito o relance do sol nos olhos, o suave do céu, o abraço de amigos e conhecidos. Foi um relampejo, uma nota de alegria colorida que eu já havia esquecido, durante os últimos tempos. Estava já acostumado aos cinzentos, às indiferenças, às cortesias distantes, que, aliás, não me iam mal ao feitio. Entrei e fui levado no alvoroço e no ruído. Beijos e abraços estalados. Música no ambiente, em qualquer sítio.

Nos dias seguintes notei um comportamento inabitual nos meus conterrâneos, nos gestos, nos comportamentos, nas relações. Havia uma especial gentileza nos ares. Uma atmosfera diferente, que eu não conhecia em Portugal. As pessoas sorriam muito. Tratavam-se com cortesia. Era como se existisse entre todos uma especial cumplicidade, entre a leda ousadia infantil e a leal camaradagem das armas. (…)

Aquele clima fraterno, adequado a uma cidade mágica, de filme musical, nunca mais o senti. Foi um parêntese. Um momento especial , talvez único, de transição. Ficou-me na memória, como um mistério embelezado. (…)”

 

In JL, 16 a 29 de abril de 2014

 

Mário de Carvalho (Lisboa, 25/9/1944)
Romancista, contista, novelista, dramaturgo, licenciado em Direito.

Lídia Jorge – “Lembrar o momento perfeito”
Abril 25, 2019

 

“(…) Pode dizer-se que o 25 de Abril, antes de mais, é um dia. Um dia que começa numa madrugada em que cinco mil rapazes se dispõem a correr o risco de ficar sem futuro, para inverterem o velho destino e nos oferecerem a possibilidade de viver em Liberdade.

É nesse dia que surgem os elementos fundadores de toda uma mitologia para onde se convoca a escuridão, a incerteza, o risco, o denodo, e, por fim, já ao declinar da tarde, a libertação e a beleza. Esse dia é o momento intocável, aquele que por mais que façam e desfaçam, por mais que minimizem, sobrevive por si porque foi de facto excepcional. Foi um momento perfeito. (…)”

 

In JL, 16 a 29 de abril de 2014

 

Lídia Jorge (Boliqueime, Algarve, 18 de Junho de 1946)
Romancista, autora de antologias poéticas e de uma peça de teatro, colaboradora de diversas revistas e jornais, professora, licenciada em Filologia Românica.

Almeida Faria – “Um dia em abril”
Abril 25, 2019

 

“(…) A Notícia chegou-me de madrugada. Deixou-me eufórico mas não surpreendido. Acabara de cumprir com desespero e raiva a longa provação de três anos e três meses de serviço militar, durante a qual convivi com o declínio diário de antigo regime.

Já semanas antes um amigo nos tinha avisado, e nas vésperas, um diplomata estrangeiro etilicamente bem disposto perguntara-nos sorrindo ao apontar vários navios de guerra ancorados na barra do Tejo: Don´t you think that something is about to happen?

Apesar dos comunicados militares aconselhando a população a não sair de casa e a manter a calma, descemos a pé e de transistor em punho, pelo deserto das ruas, rumo ao Largo do Carmo. À medida  quedos aproximávamos do Largo, o número de civis entusiastas aumentava e no Carmo era já multidão (…)

A caminho de casa passámos pelo pequeno legista de comidas e bebidas na Rua Alexandre Herculano, entretanto devorado pelo “progresso” e pelos ventos do tempo. Preocupado e prestes a fechar, o idoso dono confessou-nos que vendera num só dia quase tudo o que tinha.

Regressados a casa, relatámos o que vimos e ouvimos à Hanna e ao António Damásio, nossos estudiosos e sábios vizinhos. Olhando, lá em baixo, a rotunda do Marquês de Pombal, por onde nos meses seguintes desfilariam tantas manifestações de protesto e indignação, imaginámos futuros possíveis sem podermos adivinhar o que aquele dia iria significar, as ilusões e desilusões que ele traria ao resto das nossas vidas.”

 

In JL, 16 a 29 de abril de 2014

 

Almeida Faria (Montemor-o-Novo, 6/5/1943)
Romancista, contista, dramaturgo, ensaísta, colaborador em diversas publicações, tradutor, detentor de vários prémios literários, docente, licenciado em Filosofia.

Manuel Alegre – “A quinta dimensão”
Abril 25, 2019

 

“Não sei escrever sobre o 25 de Abril. Tudo está dito e está sempre tudo por dizer.

Para mim começou quando o vizinho, um oficial do exército argelino, foi bater-me à porta, às sete da manhã. Havia um telefonema para mim (nós não tínhamos telefone). Era o Aquilino de Bragança : “Lisboa está tomada”. E eu a responder: “Isso foi o Afonso Henriques”. Mas ele insistiu: “Os tanques estão na rua, desta vez é a sério”.

Fui avisar a Mafalda, que já estava a tratar do Francisco, nosso filho, então com oito meses.  Havia em nós um misto de entusiasmo e de dúvida. Quem tinha mandado os tanques para a rua? Golpe de direita? Ou outra coisa?

Corremos para a sede da Frente Patriótica, onde já estava o Piteira Santos. Falou-se para Paris, tentou-se Lisboa, mas só muito mais tarde se conseguiria. A rádio argentina dava notícias, mas não acrescentava grande coisa. Idem a rádio francesa. Passámos a manhã ao telefone e junto à rádio. Ao princípio da tarde, fomos convidados pela agência France Press, de onde acompanhámos os acontecimentos. Notícias do povo ao lado dos revoltosos. Bom sinal.

Quase ao final da tarde, sintonizei a Emissora Nacional. Transmitia canções do Zeca Afonso e do Adriano, algumas com letra minha. (…)

E vimos, então, pela televisão, as primeiras imagens: os tanques no Largo do Carmo, o povo a apoiar, cravos nas espingardas. (…)”

 

In JL, 16 a 29 de abril de 2014

 

Manuel Alegre (Águeda, 12/5/1936)
Poeta, prosador e político português, galardoado com o Prémio Camões em 2017.

Luís Miguel Nava – Paixão
Abril 20, 2019

 

Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos

situar num mesmo poema o coração e a pele quase podíamos

abrir entre eles uma parede e abrir

depois caminho à água

 

Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia

de súbito em profundas minas, a memória

das suas mais longínquas galerias

extrai aquilo de que é feito o coração.

 

Ficávamos no quarto, onde por vezes

o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior

paixão que pelo coração se chega à pele.

Não há então entre eles nenhum desnível.

 

Luís Miguel Nava (Viseu, 29/9/1957 – Bruxelas, 10/5/1995)
Poeta, galardoado com o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores em 1978, ensaísta, antologista, leitor de português, tradutor, licenciado em Filologia Românica.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Aguinaldo Fonseca, Círculo
Abril 20, 2019

 

Nascemos, morremos,

Tornamos a nascer em cada sonho, cada ideia, cada gesto.

Cada dia que chega é flor que se abre ao sol

Com novo cheiro, nova cor, nova beleza.

Nossos desejos são asas que se elevam

Cruzando o céu da vida em voo largo

Mas nunca chega, nunca páram

Enquanto corre o sangue e a vida cresce e rola.

O fim de um sonho é o começo de outro

Cada horizonte outro horizonte aponta,

E uma esperança morta outra esperança aquece.

Há magoas, alegrias, desesperos

E a gente insatisfeita

Enquanto ri ou chora

Ou canta ou fica triste

Vai nascendo, morrendo e renascendo

Cada dia, cada hora, cada instante

Noutra vida, noutro sonho, noutra esperança

 

Aguinaldo Fonseca (Cabo Verde, Mindelo, 22/9/1922 – Lisboa, 24/01/2014)
Poeta.

 

 

José-Alberto Marques – O Pronome
Abril 20, 2019

 

 

É e não é

porque está em vez

 

Se um dia estiver

mesmo com manha

deixa de estar

porque o seu lugar

alguém o apanha

 

Por isso digo

chamando a canção:

 

EU sou TEU (irmão)

e ISTO que desenho

com geito

QUEM diria?

é ALGO dum coração

do tamanho

do povo

que trago no peito

 

MARQUES, José-Alberto, A Gramática a Rimar

 

José-Alberto Marques (Torres Novas, 4/10/1939)
Poeta, romancista, autor de literatura infanto-juvenil e de textos de crítica literária, colaborador em publicações, orientador pedagógico de Português.