Archive for the ‘Biografias’ Category

Albano Martins – Autobiografia Breve (continuação)
Abril 2, 2017

 

“(…) Na Faculdade de Letras, a funcionar ainda lá ao fundo da Rua do Século, no velho casarão da Academia das Ciências, e onde, dizia-se, se subia a descer, tive como professores algumas das personagens mais respeitadas de então: Vitorino Nemésio, Hernâni Cidade, Luís Filipe Lindley Cintra, Walter de Medeiros, e também Rebelo Gonçalves e Delfim Santos, este na área das Ciências Pedagógicas.

Meu colega de curso, de ano e turma, era o José Terra, um dos fundadores da revista Árvore, de que acabara de sair o primeiro fascículo.

Foi pela sua mão que, uma tarde, após as aulas, a uma das mesas do café, na Rua da Restauração, entrei no grupo, de cuja aventura participei activamente até à morte violenta da revista, em 1953, por decisão da Censura e às ordens da Polícia Política do anterior regime.

Era na cave do Café Martinho, ali ao lado do Teatro D. Maria II (depois, como quase todos os cafés da Baixa, transformado em Banco), era ali, dizia, que à tarde (e algumas vezes à noite)  nos juntávamos, eu, o Raul de Carvalho, delineando estratégias para a revista, escrevendo ao António Ramos Rosa (então a viver em Faro), ao Vítor Matos e Sá, ao Egito Gonçalves e a outros, ou ocupados  na tradução de algo que acabáramos de ler e gostaríamos de partilhar com os amigos (caso, por exemplo, de O EquívocoLe Malentendu -, de Camus, cuja versão, a duas mãos, permanece inédita).

E era ali também que, com frequência, aparecia o António Carlos, que há anos – tão cedo! – nos deixou, e, menos frequentemente, o Luís Amaro, escrupuloso funcionário da Portugália Editora.

Uma que outra vez por lá apareciam ainda o João Rui de Sousa, o António Osório, o Rogério Fernandes e, no piso superior, em surtidas rápidas ou estratégicas, o Mário Cesariny, o Raul Leal e o António Navarro. (…)”

In “Autobiografia”,  JL de 16 – 19 Janeiro 2008

(continua)

Albano Martins (Telhado, Fundão, 6/8/1930)
Poeta, um dos fundadores da revista Árvore, colaborador de publicações, professor universitário, licenciado em Filologia Clássica.

Manuel Alegre – E Alegre se Fez Triste
Março 12, 2017

Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno agosto.

Ela só viu meus dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.

A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.

E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer-me adeus: essa palavra
que fez tão triste a clara madrugada.

 

Manuel Alegre (Águeda, 12/5/1936)
Poeta, prosador e político português.

Sophia – O Nascer do Poema
Março 7, 2017

“(…) É-me difícil, talvez impossível, distinguir se o poema é feito por mim, em zonas sonâmbulas de mim, ou se é feito em mim por aquilo que em mim se inscreve. Mas sei que o nascer do poema só é possível a partir daquela forma de ser, estar e viver que me torna sensível – como a película de um filme – ao ser e ao aparecer das coisas. E  a partir de uma obstinada paixão por esse ser e aparecer. (…)”

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Obra Poética II

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o Prémio Camões (1999)

Eça de Queirós – Cartão de Aniversário ao Filho
Março 7, 2017

“[Lisboa, 6.4.1898]

Mon Bebert cheri
Je t´embrasse bien fort. J espere que tu a etè bien gentil. Il faut tacher de m eccri-
re. Gros baiser tom peti pere

Je.

“Meu querido Bebert

Beijo-te muito eternamente. Espero que te tenhas comportado bem. Procura escrever-me. Grande beijo do teu papá

Je”

Nota: “Eça de Queiroz escreve ao filho mais novo no dia do seu aniversário: Alberto completava então 7 anos.”

QUEIRÓS, Eça, A Arte de Ser Pai

Eça de Queirós (Póvoa do Varzim, 25/11/1845 – Paris, 16/8/1900)
Diplomata e escritor, considerado o melhor escritor realista português do séc. XIX.

António José Saraiva – Carta para Óscar Lopes (Janeiro – Fevereiro de 1979)
Março 7, 2017

“Lisboa, Janeiro – Fevereiro de 1979

Meu Caro,

Faltei à reunião porque não recebi comunicação nem tão pouco a guia do caminho-de-ferro. Embora seja muito pouco organizado nos meus papéis, posso-te assegurar isto.

Nestas condições, enviei ao reitor uma justificação por incompatibilidade de serviço que realmente não houve. Mas particularmente é conveniente que os serviços daí saibam que a convocação não me chegou, para providenciarem.

Estamos numa situação mundial de guerra. É neste quadro que vejo os acontecimentos na Indochina, a aliança da China com os USA, etc. Nesta situação é de prever que se agudize a luta partidária dentro de diversos países, e que surjam regimes de força, inclusive em Portugal. Negras perspectivas. (…)

Seguem brevemente provas. Envio-tas para as fazeres chegar ao Vasco Teixeira.

Um abraço do António José.”

António José Saraiva (Leiria, 31/12/1917 – Lisboa, 17/3/1993)
Historiador, ensaísta e colaborador em jornais e revistas, professor catedrático, doutorado em Filologia Românica, pai do jornalista José António Saraiva, irmão de José Hermano Saraiva.

Óscar Lopes – Carta para António José Saraiva (15/1/79)
Março 7, 2017

“Porto, 15/1/79

Caro Saraiva

1. Faltaste hoje à 1.ª reunião do júri para a agregação do Bernardo Xavier Coutinho. Tens de justificar essa falta em carta ao Reitor da Universidade do Porto, alegando incompatibilidade de serviço inadiável ou doença com atestado. (…)

2. Espero folhas da História da Literatura Portuguesa com gralhas corrigidas e pequenos retoques, a que acrescentarei, sobretudo, actualização bibliográfica. O Vasco Teixeira não me larga. Dizem-me que já saiu uma notícia no Diário de Notícias de quinta passada sobre a 10.ª edição. Ainda não vi.

3. Falaram-me, aqui na Faculdade, com agrado de um teu artigo de jornal sobre as origens portuguesas. Calculo que se relacione com conversas, ou antes, ideias que me expuseste. Vou tentar ler.

4. (…) Estamos a caminhar para uma crise grave, de grande desemprego estrutural. Nenhum especialista acredita a sério na integração no Mercado Comum Europeu, com osmose livre do mercado de trabalho e viabilização das potencialidades portuguesas económicas. O MCE é um pretexto para voltar a nova tentativa de acumulação capitalista, em que as multinacionais levam a parte de leão. Tempos difíceis que nós, os da Esquerda, encaramos como dizem  (ou cantam) os negros da América: We shall overcome. Há uma contradição viva entre o teu nacionalismo histórico-cultural e a tua complacência com o neo-capitalismo. A CIP não tem como pátria Portugal, mas a defesa da taxa de supervalia.

PS – Deste-e (ou escrevi) um número errado do teu telefone, pelo que não pude contactar-te com urgência, hoje.

Um abraço,

Óscar.”

 

SARAIVA e LOPES, António José e Óscar, Correspondência.

Óscar Lopes (Leça da Palmeira, 2/10/1917 – Porto, 22/03/2013)
Ensaísta, crítico literário, especialista em Linguística e Literatura, colaborador em diversos jornais e revistas, professor liceal e catedrático, licenciado em Filologia Românica e Histórico-Filosóficas.

Vergílio Ferreira – Falhar
Fevereiro 9, 2017

Vergílio Ferreira

“1982

30 – Agosto

Falhei a vida, está assento.

Em todo o caso, quem a não falhou para si? Porque não se falha apenas com o que se não conquistou, mas com aquilo mesmo que perfeitamente realizámos.

É decepcionante sonhar-se com um triunfo e ir dar a um fracasso. Mas o próprio triunfo também é um fracasso porque ele realizará tudo, excepto o sonho que nesse triunfo pusemos e não está lá.

Uma vitória devia ser vitória e o sonho que criámos de vencer. E  na vitória está só o vencer. O fracasso está no que aí falta.”

FERREIRA, Vergílio, Conta-Corrente 

 

Vergílio Ferreira (Melo, Gouveia, 28/1/1916 – Lisboa, 1/3/1996)
Romancista, contista, ensaísta, autor de diários, galardoado com o Prémio Camões em 1992,  professor, licenciado em Filologia Clássica.

Urbano Tavares Rodrigues – O Escritor na 1.ª Pessoa
Fevereiro 9, 2017

Urbano Tavares Rodrigues

“Sou um escritor “engagé” mas não um escritor de encomenda. É a minha própria relação com os seres humanos e com a História que me leva a escrever certos livros, embora eles não estejam directamente dependentes de uma necessidade de agitação social. O que ressalta deles é, sobretudo, a dialéctica optimismo/pessimismo,   esperança / desesperança. Sim, sou um escritor dialéctico…” (…)

Um escritor escreve (eu escrevo) porque tem necessidade de se compreender a si próprio e ao mundo a é através da escrita que realiza essas duas operações.”

In JL de 30.3.87

Urbano Tavares Rodrigues (Lisboa, 6/12/1923 -Lisboa, 09/08/2013)
Ficcionista, investigador, ensaísta, crítico literário, jornalista, professor universitário.
Pai da escritora Isabel Fraga, esposo de Maria Judite de Carvalho, falecida em 1998.

Maria Assunção Vilhena – Em Sines, “A Banhos” (Continuação)
Janeiro 22, 2017

Maria Assunção Vilhena

“(…) Depressa nos habituámos ao apito estridente e prolongado do “Frito”, anunciando a chegada de mais uma traineira a abarrotar de sardinha ou cavala.

Ao ouvi-lo, as operárias saíam de casa a correr, algumas a acabar de se vestir ou a pôr o lenço branco obrigatório, outras a engolir a última dentada de pão.

Corriam céleres, aspirando o cheiro a salmoura e a peixe seco pendurado às portas – reserva para os dias de mau mar – e pisavam, com chinelos de ourelo, as escamas prateadas que, despejadas na água de lavar o peixe, estavam secas e encaracoladas e estalavam debaixo dos pés. (…)

Trabalho na fábrica de conservas no Verão era sinal de menos fome no Inverno. Não era fácil o trabalho  das operárias nas fábricas, mas nós, os miúdos, alheios a esse trabalho penoso, brincávamos todo o dia na rua ou no Rossio cercado de buxos, onde havia um poço e um coreto.

Só entrávamos em casa nas horas de comer ou de dormir e era então que nos apercebíamos do que era a nossa casa de banhistas, que tinha a vantagem  de, não tendo catres de ferro, podermos saltar sobre os colchões de lã sem nos magoarmos. (…)

Minha mãe fez uma grande amizade com a vizinha mais próxima – a Senhora Luzia – que era quase da mesma idade e tinha um carácter semelhante.  O marido raramente estava em casa, pois andava na faina da pesca com um pequeno barco ou ia vender o peixe com o burro. (…)

Também nós fizémos as nossas amizades entre os filhos desse casal e os dos casais de pescadores ou de banhistas.

A minha maior amiga viria a ser a Ivete, a segunda filha da Senhora Luzia, quase da mesma idade que eu e cuja amizade se havia tornado tão profunda e tão sincera que havia de durar até ao fim da sua vida, ainda não há muitos anos. (…) Passeávamos no Rossio e por toda a vila a fazer recados às nossas mães. Íamos às lojas, ao talho, à Primorosa que, na minha ignorância de mocinha do monte julgava que significava “ir à do primo Rosa”… (…)

Nesses recuados tempos de banhos, já havia barracas na praia, mas os banhistas, vindos do campo, não as alugavam talvez por serem caras. (…)”

(continua)

VILHENA, M. Assunção, Gente do Monte

Maria Assunção Vilhena (Santiago de Cacém)
Concluiu o Curso de Professora do Ensino Primário em 1948, posteriormente licenciou-se em Filologia Românica e lecionou Francês na sua terra natal.
Dedicou-se ao estudo da Etnologia da Beira-Baixa e editou obras neste âmbito.

Al Berto Sob o Olhar de Joaquim Manuel Magalhães
Janeiro 13, 2017

Al Berto

Ao Al Berto,  lembrando o dia do seu aniversário – 11/01 -, que trago no meu coração e mente, este excerto de uma cópia da publicação que me ofereceu há anos! – cá estou (-amos), percorrendo ruas vazias de uma terra em ruínas, mas com o nosso (“e renosso”) mar repassado de força e transparência, refletindo muitos olhares cintilando de inefável saudade!…

” (…) O caminho de Al Berto (…) não é de contensão vocabular, a sua poesia não escolhe a rasura e, muitas vezes, perde-se num magma instintual inimigo do rigor que, em poesia, o próprio delírio deveria, no entender de muitos, assumir.

Mas a escrita só pode ser julgada pelos seus próprios conseguimentos e nunca por critérios abstractos.

E não deixa de ser excelente que, no âmbito da nossa actual poesia, possam coexistir com qualidade comparável várias tradições e práticas criando uma assinalável proliferação de diferenças. (…)

As descrições oníricas, a visão apocalíptica, os cortes cinematográficos constituem um engenho ocupado de jeitos estilísticos que podem se menos inovadores. Mas o que desencadeia tem a força de rastilhos atirados a várias pólvoras, entre as quais a da própria linguagem, e isso não pode deixar de nos lembrar que não é só numa concepção estreita de estilo que pode residir o valor duma obra: estilo é também comportamento e a capacidade de assumir o vulcão pode ser um alto motivo de fulgor literário. (…)

Alberto Pidwell Tavares, editor,  tem de ser referido ao tentar-se encontrar espaços de respiração parará da conjurada apoteose da literatura promocionada: pelos prémios literários, pelos editores tentaculares à nossa medida, pelos vários círculos de leitores  que nos enredam.

Abaixo a literatura para ferias!”

In Expresso, 20-Setembro-1980

 

Al Berto (Coimbra, 11/1/1948-Lisboa, 13/6/1997)
Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares
Poeta, pintor, editor, animador cultural, um “coimbrense-siniense” único.