Archive for the ‘Biografias’ Category

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Germano d´ Almeida, O Homem e o Escritor de A a Z (G)
Fevereiro 20, 2019

 

G DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

 

Acrescentaria Eça de Queirós e Jorge Amado*. Amo os três, li tudo o que encontrei deles.

Com o Memorial do Convento, Saramago encorajou-me a prosseguir uma experiência de contar estórias que sentia em mim mas não me atrevia a usar. Obrigado à Maria Leonor que me mandou o livro depois de ler o primeiro editorial do Ponto&Vírgula.

Com García Márquez aprendi que não há limites para as loucuras da imaginação, se ele até ganhou o Nobel!

Eça é a incomparável e suprema ironia dos bem-aventurados pobres de léxico que acabam ganhando o reino da glória. ”

 

In JL de 6 a 19 de junho de 2018

(continua)

 

* Permito-me subentender tratar-se de um lapso, uma vez que os três a que o autor se refere, destaca Saramago e não Amado.

 

Germano d´ Almeida (Boa Vista, Cabo Verde, 1945)
Contista e romancista, Prémio Camões (2018), advogado.

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Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Germano d´ Almeida, O Homem e o Escritor de A a Z (E e F)
Janeiro 26, 2019

 

E DE EVA

Sempre gostei da Eva da Bíblia (…) surpreendendo o Criador ao revelar-se uma criatura livre e pensante, uma mulher alegre (…)

Por isso dei o seu nome à minha Eva.”

 

F DE FESTA

Convívio entre as pessoas, gargalhadas, copos, música, alegres ditos de chuva, mas também e muitas vezes o simples prazer de estar com alguém em silêncio.”

 

In JL de 6 a 19 de junho de 2018

(continua)

 

Germano d´ Almeida (Boa Vista, Cabo Verde, 1945)
Contista e romancista, Prémio Camões (2018), advogado.

Vergílio Ferreira na Primeira Pessoa (continuação)
Janeiro 18, 2019

 

“(…) Mas dos centros de irradiação da minha actividade, apenas Évora transbordou de emoção para a lembrança. E como a Coimbra, é de novo a música, agora o coral dos camponeses, que a levanta ao espaço da minha comoção. Ouço-a ainda agora, a esse coro de amargura, raiado à infinitude da planície, cruzado às ruas ermas da cidade, expandindo à eternidade do céu.

Vejo-me atravessando o claustro do liceu, os alunos já saíram da aula, eu suspendo-me ainda um pouco da janela para a planície.

Évora do silêncio com sinos nas manhãs de domingo, estradas abandonadas à vertigem da distância, ó cidade irreal, cidade única, memória perdida de mim. Sou do Alentejo como da serra onde nasci, a mesma voz de uma e outra ressoa em mim a espaço, a angústia e solidão.

E a minha biografia deve ter findado aqui. Lisboa é um sítio onde se está, não um lugar onde se vive. Mesmo que lá se viva há 18 anos como eu. Eu o disse, aliás, a alguém, na iminência de vir: quando for a Lisboa, levo a província comigo e instalo-me nela. E assim fiz. Os livros que aqui escrevi são afinal da província donde sou.

Terrorismo do trânsito, das relações pessoais, da luta em febre pela glória (…), terrorismo das distâncias, das relações humanas ao telefone (…).

Vejo-me numa enfermaria do hospital, acordando estranhamente de não sei que tempo de inconsciência, com vários médicos conversando entre si e sobre mim. Pergunto de que se trata, porque estou ali. “Foste atropelado” – diz-me o meu filho, que é um dos médicos.

Tenho fracturas do crânio, várias contusões pelo corpo. Lisboa selvagem, cidade bonita na claridade dos prédios, no rio das descobertas, no aéreo das colinas, meu veneno e minha sedução. Fui atropelado. Mas é talvez justo que o fosse. Porque eu não sou daqui.”

 

In JL 28 de janeiro de 1986 (dia em que completou 70 anos)

 

Vergílio Ferreira (Melo, Gouveia, 28/1/1916 – Lisboa, 1/3/1996)
Romancista, contista, ensaísta, autor de diários, galardoado com o Prémio Camões em 1992,  professor, licenciado em Filologia Clássica.

Maria Teresa Horta – “Memória” de Maria Judite de Carvalho
Janeiro 16, 2019

 

“Conheci a Maria Judite de Carvalho mal cheguei à escrita com o meu livro de poesia Espelho Inicial. Aliás conheci-a enquanto mulher do escritor Urbano Tavares Rodrigues, pois resguardada em si mesma não só ela ainda não publicara, como nem contara a ninguém que escrevia, no resguardo do silêncio.

E não sendo, também, dada a convívios e reuniões, mantinha-se afastada de quase todos nós, o que acendera a minha curiosidade a seu respeito. Ou seja, sobre ela quase nada se sabia e quase nada se dizia.

No entanto um dia, acabava eu de chegar ao jornal Diário de Lisboa para entregar uma crónica que me tinham pedido, o Urbano, que na altura trabalhava na sua redação, veio ter comigo e disse-me:

– A Maria Judite gostaria muito que a Teresa fosse a nossa casa, para a conhecer pessoalmente.

Aceitei o convite inesperado, mas tímida como era na altura, foi sobressaltada que subi a escada sombria de madeira velha de um prédio antigo da Rua Tomás Ribeiro. E foi a própria Maria Judite que me abriu a porta.

Ainda sem fôlego, deparei-me com o seu olhar inteligente e com um inesperado sorriso contido.

Levou-me até uma pequena sala cheia de livros e papéis, onde estivemos a conversar as duas: da vida e da avidez da escrita, das escritoras e dos escritores de quem gostávamos, do que podíamos ou não esperar de um Portugal sem liberdade, sentindo-a aqui e ali mais reservada; mas, embora sem nos abrirmos muito, dissemos o suficiente para ficarmos a gostar uma da outra.

Já ao fim da tarde, quando me acompanhou de volta à escada empoeirada, lembro-me de ela ter posto, de súbito, a sua mão firme e muito morena no meu ombro, dizendo-me:

– A Teresa tem de aprender depressa a defende-de do mundo…”

 

In JL, 4 a 17 de julho de 2018

 

Maria Teresa Horta (Lisboa, 20/5/1937)
Poetisa, colaboradora de diversos jornais e revistas, pertenceu ao grupo Poesia 61 e aos movimentos cineclubista e feminista, co-autora do livro: Novas Cartas Portuguesas (1972) com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, tendo ficado conhecidas internacionalmente por: “As Três Marias”.

 

Maria Judite de Carvalho (Lisboa, 18/9/1921 – Lisboa, 1998)
Contista, novelista, cronista, romancista, dramaturga, colaboradora em vários jornais e revistas.
Esposa de Urbano Tavares Rodrigues e mãe da escritora Isabel Fraga.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Germano d´ Almeida, O Homem e o Escritor de A a Z (D)
Janeiro 16, 2019

 

” D  DE DEPUTADO

Uma experiência de vida que certamente não será necessário nem desejaria repetir.

Aderi ao MpD na abertura política em 1990, por achar importante contribuir para a instauração do pluripartidarismo no país.

E depois disso afastei-me, não tenho qualquer vocação para aceitar a disciplina partidária, que não achei muito diferente da disciplina militar.”

In JL de 6 a 19 de junho de 2018

(continua)

 

Germano d´ Almeida (Boa Vista, Cabo Verde, 1945)
Contista e romancista, Prémio Camões (2018), advogado.

Miguel Torga – [Horas a Fio a Cavar…]
Janeiro 2, 2019

 

 

“Coimbra, 2 de Janeiro de 1975 – Horas a fio a cavar o quintal. Como sempre, quando dei conta, tinha um talhão semeado a preceito, as leivas esfareladas, o estrume devidamente enterrado, a semente conscienciosamente repartida. E tudo sem esforço, naturalmente.

Uma vez debruçado na belga, o corpo parece ensinado. Quanto menos atenção dou aos gestos, mais perfeitos saem. Os regos direitos, a fundura precisa, a terra nivelada.

A sabedoria que a gente traz nos cromossomas! Que pena que nos meus antepassados não tivesse havido também um letrado que me deixasse de herança a ciência de manejar a caneta como manejo a enxada.”

 

TORGA, Miguel, Diário

 

Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX,  galardoado com o Prémio Camões em 1989, médico.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Germano d´ Almeida, O Homem e o Escritor de A a Z (C)
Dezembro 19, 2018

 

C DE CLARIDOSOS

Os escritores que me deram Cabo Verde  a conhecer e me levaram a sentir-me visceralmente filho destas ilhas.

Com eles aprendi a amá-las e a sentir-me parte delas nos desgraçados tempos das secas e fome, e também nos festivos dias de chuva que nos levava a cantar e dançar nas ruas pedindo que viesses tão forte que cada pingo fosse capaz de encher um balde.

E senti que podia adoptar como meu e como divisa o belo poema de Holderlin: “E abertamente votei o meu coração à terra grave e sofredora, e muitas vezes, na noite sagrada, lhe prometi amá-la fielmente até à morte, sem receio, com o seu pesado fardo de fatalidade, e não desprezar nenhum dos seus enigmas. Assim me liguei a ela por medo de um vínculo mortal”.

 

In JL de 6 a 19 de junho de 2018

 

Germano d´ Almeida (Boa Vista, Cabo Verde, 1945)
Contista e romancista, Prémio Camões (2018), advogado.

Vergílio Ferreira na Primeira Pessoa (Continuação)
Dezembro 13, 2018

 

“(…)  E eis que se me levantam os sete anos de Coimbra. Sombrios, longos, penosos. Mas o que acede desse tempo à evocação tem apenas o halo de uma balada. Ruas da Alta, e a Torre, e o palácio rio do alto da Universidade, e os mestres que eu julgava um prodígio da Natureza, quando cheguei à cidade, e fiquei a julgar também, a vários deles, quando saí, mas com outro sinal, e  a praxe estúpida, e os namoros estúpidos, e a descoberta, enfim, da literatura (…) , e as tertúlias, as rixas, o próprio futebol, as próprias desgraças físicas – tudo me ressoa agora a uma toada de legenda. (…)

Assim Coimbra, só no ressoar do seu nome tem já um timbre de guitarra. (…) Coimbra da saudade difícil, Coimbra de sempre e de nunca. Coimbra a levei, longo tempo me acompanhou, presente, obsessiva.

Mas ainda havia tanta coisa à minha espera. Faro de ar marinho, da laguna das águas mortas, Bragança das invernias, Évora, Lisboa.

Professor sou-o por fatalidade. Mas alguma coisa se me impõe na avidez dos alunos que me escutam, na necessidade de responder à sua descoberta do mundo – e assim me invento o professor que não sou, e eles imaginam em verdade o que é em mim só ficção. (…)”

In JL 28 de janeiro de 1986 (dia em que completou 70 anos)

(continua)

 

Vergílio Ferreira (Melo, Gouveia, 28/1/1916 – Lisboa, 1/3/1996)
Romancista, contista, ensaísta, autor de diários, galardoado com o Prémio Camões em 1992,  professor, licenciado em Filologia Clássica.

Vergílio Ferreira na Primeira Pessoa (continuação)
Novembro 21, 2018

 

“E quando aos sete o fui ver esticado na cama, a face toda negra, e me obrigaram a beijar-lhe a mão morta, já tinha o destino talhado para o Senhor.

Minhas tias apoderam-se logo de mim, negligenciando um pouco os meus irmãos e sufocaram-me de religião.

Na instrução primária cumpri. Deus mostrava à evidência que me chamava ao seu serviço. Era forte em contas, mas atrapalhado na História, de qualquer modo, os desígnios de Deus eram evidentes. E assim, para se cumprir a sua vontade, parti.

Ficava à distância de um dia de comboio, o Seminário. Saio na estação ao anoitecer, há uma multidão de seminaristas à minha volta, todos vestidos de preto. Estou entre eles, não conheço ninguém.

Avançamos pelo escuro estrada fora, no tropear confuso de uma enorme massa negra.

O Seminário espera-nos numa curva da estrada. É um casarão enorme, olho-o do fundo do meu pavor. Há Outono à minha volta, respiro-o agora em todo esse passado morto, nos castanheiros a desfolharem-se na cerca, no espaço dos salões, nos longos corredores ermos, nos ângulos cruzados pelos espectros dos prefeitos.

Mas seis anos depois, levantado de heroísmo, saí.

Fiz o liceu, entrei na Universidade. Mas não o fiz assim em três palavras como o faço aqui. Meu irmão corpo. Como foi difícil acomodarmo-nos um ao outro. À vida que me coube não a pude utilizar toda. Numa fracção dela acumulei assim aquilo com que se realiza  – o sonho, o trabalho, a alegria. (…)”

 

In JL 28 de janeiro de 1986 (dia em que completou 70 anos)

(continua)

 

Vergílio Ferreira (Melo, Gouveia, 28/1/1916 – Lisboa, 1/3/1996)
Romancista, contista, ensaísta, autor de diários, galardoado com o Prémio Camões em 1992,  professor, licenciado em Filologia Clássica.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Germano d´ Almeida – O Homem e o Escritor de A a Z (B)
Novembro 20, 2018

 

B DE BOA VISTA

Desde sempre não tive dúvidas de que a ilha da Boa Vista era o centro do mundo.

Mas ficando um pouco mais adulto, já com alguma instrução e experiência de vida, consenti em alargar esse centro de forma a abranger Cabo Verde Inteiro.

Ora deste postulado nunca saí e, descaradamente plagiando o Eça, defini-me como sempre “rústico de Boa Vista”.

Na realidade visito-a com muito pouca frequência, mas isso não me faz qualquer falta, porque carrego-a como algo intrínseco à minha pessoa e ela continua sendo o inesgotável baú onde desencovo todas as minhas estórias.”

 

In JL de 6 a 19 de junho de 2018

(continua)

Germano d´ Almeida (Boa Vista, Cabo Verde, 1945)
Contista e romancista, Prémio Camões (2018), advogado.