Archive for the ‘Biografias’ Category

Augusto Abelaira – Escrever
Outubro 15, 2017

 

” (…) o meu objectivo, começo a adivinhá-lo, adivinha-se afinal simples: fazer de mim através da escrita um ser uno, não este caótico, contraditório indivíduo que sempre fui. Afinal escrever, mesmo descontinuamente, é fixar no papel uma continuidade e essa continuidade sou eu”.

ABELAIRA, Augusto, Nem Só Mas Também

 

Augusto Abelaira (Ança, Cantanhede, 18/3/1926 – Lisboa, 04/07/2003)
Romancista, dramaturgo, contista, jornalista, tradutor, professor, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas.

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Arquimedes da Silva Santos – A Educação do Ser
Outubro 15, 2017

 

“Eu tinha a formação de pedopsiquiatra e vi que a melhor maneira, do ponto de vista educativo, de agir na vida das crianças com dificuldades era através das expressões artísticas, quer seja da música, das artes plásticas, da psicomotricidade, da dança, do drama, etc. …

Fui um professor amador que, de algum modo, se profissionalizou. … como livre pensador e como franco atirador pude fazer aquilo que achava que devia ser. …

Dava liberdade aos meus alunos para podermos fazer as coisas de maneira a enriquecermo-nos, a encontrarmo-nos, a sermos.

A minha linha de acção era essa. Não era o saber, o ter, era exactamente o ser”.

 

Entrevista à revista Noesis – n.º 55, Julho/Setembro 2000

 

Arquimedes da Silva Santos (Póvoa de Santa iria, 18/6/ 1921)
Poeta, colaborador de publicações, professor,  licenciado em Medicina e especializado em psicopedagogia, estudou Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa e Psicologia na Sorbonne.

Aquilino Ribeiro – Seminário de Beja
Outubro 15, 2017

 

A “disciplina era branda e não se esfolava os joelhos a rezar”.

“Foi-se efetuando em mim o degelo da neve pura que era ao tempo em matéria de fé”.

Mas que andas tu aqui a fazer? – perguntava dentro de mim D. Quixote; E para onde hás-de ir?, contrapunha Sancho”.

 

RIBEIRO, Aquilino, Um Escritor Confessa-se

 

Aquilino Ribeiro (Tabosa do Carregal, 13/9/1885 – Lisboa, 27/5/1963)
Romancista, folhetinista, contista, novelista, professor, director da Seara Nova (1921), fundador e presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores (1956).

Fernando Dacosta – “Viver com Gentileza”
Setembro 25, 2017

 

“(…) Viver com gentileza, com generosidade (para com os outros e para comigo) é-me suficiente. Em termos literários, um livro (romance, narrativa, peça) de três em três anos basta-me, esperando mesmo que não seja demais para as minhas energias e para a paciência dos meus leitores. (…)

Sou por natureza e por gosto vagaroso, serôdio. Renasço todas as vezes que escrevo e amo. (…)

Escrevo à mão, cada vez mais devagar, em caderninhos de folhas lisas e capas grossas. Depois passo o rascunho, reformulando-o para o computador (…).

O húmus interessa-me mais do que a espuma, as raízes mais do que a experiência. (…)

Nasci numa noite abafada de Dezembro, no norte de Angola. (…)

Nasci débil e silencioso, sem vontade de gostar, detectou-o uma ama negra, da vida que encontrei à volta – em tudo contrária à natureza que enformou a minha natureza. O milagre, a aceitação de mim por mim, deu-se tarde, quando percebi que as sanzalas, os coqueiros, as mansões, ás áleas, os alpendres, as colunas não passavam de cenários amovíveis. (…)”

In JL, “Autobiografia”, 17-30 Agosto 2005

(continua)

 

Fernando Dacosta (Luanda, 12/12/1945)
Jornalista, romancista, dramaturgo, contista, licenciado em Filologia Românica.

Nélida Piñon – A Aventura da Escrita
Agosto 28, 2017

 

“Penso que cheguei à escritura levada por uma irresistível atração pela aventura. Sonhava em jamais dormir duas noites sob o mesmo teto, ainda que no lar fosse uma menina feliz. Eu queria ser Simbad, navegar sem jamais me deter.”

 

Nélida Piñon (Rio de Janeiro, 03/05/1937)
Romancista, contista, cronista, ensaísta, autora de literatura infanto-juvenil, licenciada em Jornalismo, primeira mulher a ser eleita presidente da Academia Brasileira de Letras.

Onésimo Teotónio Almeida – A Identidade
Agosto 28, 2017

 

“Quando na minha juventude saí de São Miguel para ir viver para Angra, apercebi-me de que era Micaelense… mais tarde, ao mudar-me para Lisboa, reconheci-me açoriano. Na Europa senti-me português. Na América reconheci-me europeu. No Oriente, apercebi-me Ocidental”.

 

Onésimo Teotónio Almeida (Pico da Pedra, Açores, 18/12/1946)
Escritor, ensaísta, cronista, colunista, professor universitário.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – João Vário – “Resumimos”
Agosto 28, 2017

 

Resumimos: estas ânsias anunciam pactos propícios.

Eis por que hemos insistido em discorrer de tal sorte.

Ah a memória é esse alvo desviado de deus –

coisa geral, coisa relativa, coisa dúbia,

mas coisa, decerto, paga com os exemplos e o tumulto,

porém, como ver, amanhã, o que, hoje, não pertence

nem a esse testemunho nem a esse grão

distribuído aos mendigos das nossas portas?

Vivemos desse crédito, sugere-se,

e desse dom de negar que ouvimos nem

a voz do que clama no deserto

e nos absolve

porque a confusão enche a nossa cabeça

e a longevidade, qualquer que seja o mundo,

é a nossa segunda obsessão,

e constatar que não somos explicáveis

ou lembrar que perecemos

provoca essa lágrima, a primeira

desde há muito tempo, de Anteu.

É esse tormento ou essa luz,

que divide ao meio a verdade,

que nos assiste para falar de predestinação?

 

VÁRIO, João, Exemplos, p. 115

 

João Vário (Mindelo, São Vicente, 7 de Junho de 1937 — Mindelo, São Vicente, 7 de Agosto de 2007).
Pseudónimo de João Manuel Varela, que também assinava, além de João Vário, Timóteo e Tio Tiofe na poesia e G. T. Didial na ficção e ensaios.
Poeta, contista, romancista e ensaísta, neurocirurgião, cientista e professor cabo-verdiano.

António Alçada Baptista – Paris
Agosto 13, 2017

“Paris foi uma cidade decisiva na minha vida. Não sou dado a monumentos nem museus: era a paisagem humana que me interessava e que provocou em mim uma viragem total.

Acho que em Paris me encontrei comigo e tive a sorte de me ter dado com alguns nomes da inteligenzzia do meu tempo, de quem fui amigo e tenho a impressão de que foram decisivos na minha formação … ali fiz a via sacra dos intelectuais que, inesperadamente, me recebiam e que me davam uma importância que ainda hoje me admira.”

António Alçada Baptista (Covilhã, 29/1/1927 – Lisboa, 7/12/2008)
Romancista,ensaísta e cronista, advogado, desenvolveu actividades ligadas ao jornalismo e à edição.

Almeida Faria – O Primeiro Livro
Agosto 1, 2017

 

“Eu publiquei aos dezenove anos justamente por ser um pouco ingénuo e também concorri a um prémio literário, que acabei ganhando.

O Prémio era publicar o livro.

A obra era um pouco imatura, mas era revolucionária no ponto de vista político e formal.

Rumor Branco, para você ver, o título já era estranho, parecia uma poesia. Depois a estrutura do livro não tinha capítulos, o texto era dividido em fragmentos como os dias da criação do Mundo, a pontuação era muito diferente das regras, nunca havia maiúscula depois do ponto final – o próprio livro começa com minúscula. No entanto, foi uma provocação de um jovem que era contra a ditadura. Vivíamos num longo regime e aquilo era uma maneira simplesmente de manifestar a minha raiva.

Para a minha geração, aquele livro serviu como um manifesto antifascista e, claro, tive muitos problemas.

Meus professores não gostaram nada daquilo que fiz, pois além de ter o prémio tive diversas críticas que coincidiu com uma revolta estudantil generalizada nas principais universidades do pais, Lisboa e Coimbra. Portanto, é um livro ainda mais político do que seu conteúdo real.

Foi um livro que depois eu editei várias vezes e coloquei muita coisa, pois de fato havia a explosão da juventude.

Não era uma obra de grande valor literário e hoje não é considerada tão bom como A Paixão, mas é um livro de um jovem de um período pulsante.

Não sou de dar conselhos aos jovens, eles devem fazer o que querem e, sobretudo, não cederem aos padrões dominantes.”

 

Entrevista (excerto): Equipa Livre Opinião, 04/08/2014

 

Almeida Faria (Montemor-o-Novo, 6/5/1943)
Romancista, contista, dramaturgo, ensaísta, colaborador em diversas publicações, tradutor, detentor de vários prémios literários, docente, licenciado em Filosofia.

Tiago Torres da Silva – Um Escritor de Olhos Tristes (continuação)
Junho 17, 2017

 

“(…) Este poeta já falecido, gostava de beber! Eu gosto de poetas que bebem. Eu gosto de poetas que bebem. Eu gosto de poetas que vivem. Prefiro os que sofrem aos que não sentem. Prefiro os que riem aos que choram. Mas muitas vezes, também eu encontro prazer nas lágrimas, ou não fosse eu tão do fado!

Este escritor que é vivo e bem vivo, de olhos tristes emoldurados por piercings chama-se José Luís. Há quem o trate por Peixoto. Eu ainda não sei como o hei-de tratar. Por isso, trato de agradecer por me ter feito seu contemporâneo, e contento-me por ver o meu nome ao lado do seu em discos, em livros, nas páginas deste jornal… por ler as suas palavras das quais, de vez em quando, tenho absoluta necessidade de me afastar pela angústia, pela tristeza, pelo desespero.

E continuo, timidamente, a observá-lo de longe.”

 

In JL, “Debate-papo”, 22 Novembro – 5 Dezembro 2006

 

Tiago Torres da Silva (Lisboa, 29/12/1969)
Poeta, ficcionista, cronista, letrista, dramaturgo, encenador, engenheiro zootécnico.