Archive for the ‘Biografias’ Category

António Alçada Baptista – Paris
Agosto 13, 2017

“Paris foi uma cidade decisiva na minha vida. Não sou dado a monumentos nem museus: era a paisagem humana que me interessava e que provocou em mim uma viragem total.

Acho que em Paris me encontrei comigo e tive a sorte de me ter dado com alguns nomes da inteligenzzia do meu tempo, de quem fui amigo e tenho a impressão de que foram decisivos na minha formação … ali fiz a via sacra dos intelectuais que, inesperadamente, me recebiam e que me davam uma importância que ainda hoje me admira.”

António Alçada Baptista (Covilhã, 29/1/1927 – Lisboa, 7/12/2008)
Romancista,ensaísta e cronista, advogado, desenvolveu actividades ligadas ao jornalismo e à edição.

Almeida Faria – O Primeiro Livro
Agosto 1, 2017

 

“Eu publiquei aos dezenove anos justamente por ser um pouco ingénuo e também concorri a um prémio literário, que acabei ganhando.

O Prémio era publicar o livro.

A obra era um pouco imatura, mas era revolucionária no ponto de vista político e formal.

Rumor Branco, para você ver, o título já era estranho, parecia uma poesia. Depois a estrutura do livro não tinha capítulos, o texto era dividido em fragmentos como os dias da criação do Mundo, a pontuação era muito diferente das regras, nunca havia maiúscula depois do ponto final – o próprio livro começa com minúscula. No entanto, foi uma provocação de um jovem que era contra a ditadura. Vivíamos num longo regime e aquilo era uma maneira simplesmente de manifestar a minha raiva.

Para a minha geração, aquele livro serviu como um manifesto antifascista e, claro, tive muitos problemas.

Meus professores não gostaram nada daquilo que fiz, pois além de ter o prémio tive diversas críticas que coincidiu com uma revolta estudantil generalizada nas principais universidades do pais, Lisboa e Coimbra. Portanto, é um livro ainda mais político do que seu conteúdo real.

Foi um livro que depois eu editei várias vezes e coloquei muita coisa, pois de fato havia a explosão da juventude.

Não era uma obra de grande valor literário e hoje não é considerada tão bom como A Paixão, mas é um livro de um jovem de um período pulsante.

Não sou de dar conselhos aos jovens, eles devem fazer o que querem e, sobretudo, não cederem aos padrões dominantes.”

 

Entrevista (excerto): Equipa Livre Opinião, 04/08/2014

 

Almeida Faria (Montemor-o-Novo, 6/5/1943)
Romancista, contista, dramaturgo, ensaísta, colaborador em diversas publicações, tradutor, detentor de vários prémios literários, docente, licenciado em Filosofia.

Tiago Torres da Silva – Um Escritor de Olhos Tristes (continuação)
Junho 17, 2017

 

“(…) Este poeta já falecido, gostava de beber! Eu gosto de poetas que bebem. Eu gosto de poetas que bebem. Eu gosto de poetas que vivem. Prefiro os que sofrem aos que não sentem. Prefiro os que riem aos que choram. Mas muitas vezes, também eu encontro prazer nas lágrimas, ou não fosse eu tão do fado!

Este escritor que é vivo e bem vivo, de olhos tristes emoldurados por piercings chama-se José Luís. Há quem o trate por Peixoto. Eu ainda não sei como o hei-de tratar. Por isso, trato de agradecer por me ter feito seu contemporâneo, e contento-me por ver o meu nome ao lado do seu em discos, em livros, nas páginas deste jornal… por ler as suas palavras das quais, de vez em quando, tenho absoluta necessidade de me afastar pela angústia, pela tristeza, pelo desespero.

E continuo, timidamente, a observá-lo de longe.”

 

In JL, “Debate-papo”, 22 Novembro – 5 Dezembro 2006

 

Tiago Torres da Silva (Lisboa, 29/12/1969)
Poeta, ficcionista, cronista, letrista, dramaturgo, encenador, engenheiro zootécnico.

Albano Martins – Autobiografia Breve (continuação)
Junho 5, 2017

 

“(…) A minha obra, estimada por uns, ignorada por outros, cresceu, atravessou o mar e chegou ao Brasil, que descobri em 1985 graças ao grande camonista e professor Leodegário de Azevedo Filho.

A história da minha relação com o Brasil, tão recheada de episódios romanescos e lances de encantamento, não cabe aqui: é matéria para filme de longa-metragem ou incorporado livro de memórias.

É preciso dizer, entretanto, que são brasileiros alguns dos mais atentos e perspicazes leitores /intérpretes da minha obra. E que do Brasil, país de ipê, da pitanga e dos afectos, falam dois livrinho que há anos publiquei e constituem a crónica abreviada do meu “achamento” daquelas terras, a que estou ligado por feitiço e sedução: A voz do chorinho ou apelos da memória e Poemas do retorno.

Na década de 90, uma viagem à Grécia proporcionou-me o contacto, ao vivo, com o espírito do classicismo. que por formação académica herdei e alguns vêem celebrado na minha poesia (Salvato Trigo, falando do meu aticismo, diz que dentro de mim mora  um poeta grego).

E, em anos recentes, as visitas a Florença e a Praga constituíram momentos de rara exaltação estética. O sublime está ali, ao alcance da mão, em cada rua, em cada pedra em cada recanto.

Perguntarão alguns pelas “obras valerosas” e outras não tanto assim. Delas rezam algumas crónicas esquecidas, que também falam das “gloriosas” omissões a que sempre estão sujeitos os que lêem pela cartilha oficial ou não pertencem à religião da paróquia.

Mas, camoneanamente falando, também é verdade que “não pode ser (…) limitada/ a água do mar em tão pequeno vaso”. “Nem eu delicadezas vou cantando / Co´o gosto do louvor”, como de si diz ainda o nosso poeta maior.”

In “Autobiografia”,  JL de 16 – 19 Janeiro 2008

Albano Martins (Telhado, Fundão, 6/8/1930)
Poeta, um dos fundadores da revista Árvore, colaborador de publicações, professor universitário, licenciado em Filologia Clássica.

João de Araújo Correia – Nascer Escritor
Maio 28, 2017

 

“(…) Frequentava eu o terceiro ano de Medicina, antes de cumprir os meus vinte anos, quando adoeci gravemente.

Obrigado a interromper o curso, por falta de saúde e mais alguma razão, sobrevinda à convalescença, concluí-o em Outubro de 1927.

Perdi seis anos de frequência escolar. Mas não os perdi de todo…

Passei-os em Canelas sem inacção mental e sem prejuízo do meu tratamento.

Quando me formei, era homem de razoável cultura e muita reflexão, própria de quem foi doente meia dúzia de anos.

Durante a convalescença, publiquei prosa e verso nos jornais da Régua.

Mas, de regresso às aulas e após a formatura, já casado e com dois filhos, interrompi a lide literária para me dedicar ao estudo e prática da Medicina.

Entretanto, sem deixar de querer bem à arte de curar, que nunca abandonei, meteu-se comigo outra vez a vocação literária.

Publiquei, em 1938, o meu primeiro livro, que intitulei Sem Método.

Livro de breves notas, foi elogiado por grandes homens como grande revelação de homem votado à produção literária.

Teve de se cumprir a minha sina – originada em factores ancestrais que mal alcanço.

Apenas sei que meu pai, com estudos oficiais rudimentares, lia e escrevia primorosamente.

De minha mãe, delicado espírito, devo ter herdado uma boa dose de sensibilidade.

Bastarão estes dados para se interpretar a minha alma de artista?

Sei que nasci escritor em casa de lavoura, situada à beira de uma fonte, na antiga vila de Canelas do Douro.”

 

In O Mestre de Nós Todos Antologia de João de Araújo Correia, organizada por José Braga Amaral.

 

João de Araújo Correia (Canelas do Douro, Peso da Régua, 1/1/1899 – Peso da Régua, 3/12/1985)
Contista, novelista, colaborador de jornais e revistas, linguista, médico e professor.

Albano Martins – Autobiografia Breve (continuação)
Abril 27, 2017

 

“E há os tempos de Mafra, a frequência do curso d oficiais milicianos, nas marchas forçadas na Tapada, com todo o equipamento às costas (…)

De Évora e do Regimento de Infantaria 16 onde, após a recruta, fora colocado como aspirante a oficial, guardo a memória de pelotão sob a minha responsabilidade (…)

Castelo Branco é outra das minhas cidades carismáticas. No liceu, onde, no ano lectivo de 1957/58, fui colocado como professor de serviço eventual (com despedimento garantido no termo do ano lectivo e, por isso, sem direito a vencimento durante as férias), encontrei aquela que, nesse mesmo ano, se tornaria, até hoje, a minha mulher: a Kay.

E em Viseu, dois anos depois, nasceria a Isabel, a nossa única filha – uma estrela, como lhe chamo numa pequena história infantil que recentemente escrevi. (…)

Em 61 (…) frequentava no antigo Liceu D. Manuel II (…), do Porto, o estágio pedagógico para o magistério liceal, que, uma vez terminado, havia de levar-me a Angra do Heroísmo, onde fora colocado como professor efectivo.

Dez meses depois, na sequência dum concurso, estava em Évora (outra vez o Alentejo, com o seu sortilégio mourisco e suas rubras papoilas!), onde, ao transferir-se para o Liceu Camões, de Lisboa, Vergílio Ferreira deixara uma vaga do 1.º grupo.

Ali tive como colegas, entre outros, o Manuel Patrício e o Fernando J.B. Martinho, com quem viria a fundar uma efémera colecção de poesia que, ao modo grego, baptizámos com o nome “Daimon”. O primeiro número da colecção seria Coração de bússola, o meu segundo livro que, assim comemora (comemorou há pouco) 40 anos de idade.

Em Outubro de 69, um novo concurso transferia-me de Évora paraVila Nova de Gaia, a cidade do rei Ramiro, vizinha do Porto. Foi há 39 anos. (…)”

In “Autobiografia”,  JL de 16 – 19 Janeiro 2008

(continua)

Albano Martins (Telhado, Fundão, 6/8/1930)
Poeta, um dos fundadores da revista Árvore, colaborador de publicações, professor universitário, licenciado em Filologia Clássica.

Albano Martins – Autobiografia Breve (continuação)
Abril 2, 2017

 

“(…) Na Faculdade de Letras, a funcionar ainda lá ao fundo da Rua do Século, no velho casarão da Academia das Ciências, e onde, dizia-se, se subia a descer, tive como professores algumas das personagens mais respeitadas de então: Vitorino Nemésio, Hernâni Cidade, Luís Filipe Lindley Cintra, Walter de Medeiros, e também Rebelo Gonçalves e Delfim Santos, este na área das Ciências Pedagógicas.

Meu colega de curso, de ano e turma, era o José Terra, um dos fundadores da revista Árvore, de que acabara de sair o primeiro fascículo.

Foi pela sua mão que, uma tarde, após as aulas, a uma das mesas do café, na Rua da Restauração, entrei no grupo, de cuja aventura participei activamente até à morte violenta da revista, em 1953, por decisão da Censura e às ordens da Polícia Política do anterior regime.

Era na cave do Café Martinho, ali ao lado do Teatro D. Maria II (depois, como quase todos os cafés da Baixa, transformado em Banco), era ali, dizia, que à tarde (e algumas vezes à noite)  nos juntávamos, eu, o Raul de Carvalho, delineando estratégias para a revista, escrevendo ao António Ramos Rosa (então a viver em Faro), ao Vítor Matos e Sá, ao Egito Gonçalves e a outros, ou ocupados  na tradução de algo que acabáramos de ler e gostaríamos de partilhar com os amigos (caso, por exemplo, de O EquívocoLe Malentendu -, de Camus, cuja versão, a duas mãos, permanece inédita).

E era ali também que, com frequência, aparecia o António Carlos, que há anos – tão cedo! – nos deixou, e, menos frequentemente, o Luís Amaro, escrupuloso funcionário da Portugália Editora.

Uma que outra vez por lá apareciam ainda o João Rui de Sousa, o António Osório, o Rogério Fernandes e, no piso superior, em surtidas rápidas ou estratégicas, o Mário Cesariny, o Raul Leal e o António Navarro. (…)”

In “Autobiografia”,  JL de 16 – 19 Janeiro 2008

(continua)

Albano Martins (Telhado, Fundão, 6/8/1930)
Poeta, um dos fundadores da revista Árvore, colaborador de publicações, professor universitário, licenciado em Filologia Clássica.

Manuel Alegre – E Alegre se Fez Triste
Março 12, 2017

Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno agosto.

Ela só viu meus dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.

A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.

E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer-me adeus: essa palavra
que fez tão triste a clara madrugada.

 

Manuel Alegre (Águeda, 12/5/1936)
Poeta, prosador e político português.

Sophia – O Nascer do Poema
Março 7, 2017

“(…) É-me difícil, talvez impossível, distinguir se o poema é feito por mim, em zonas sonâmbulas de mim, ou se é feito em mim por aquilo que em mim se inscreve. Mas sei que o nascer do poema só é possível a partir daquela forma de ser, estar e viver que me torna sensível – como a película de um filme – ao ser e ao aparecer das coisas. E  a partir de uma obstinada paixão por esse ser e aparecer. (…)”

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Obra Poética II

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o Prémio Camões (1999)

Eça de Queirós – Cartão de Aniversário ao Filho
Março 7, 2017

“[Lisboa, 6.4.1898]

Mon Bebert cheri
Je t´embrasse bien fort. J espere que tu a etè bien gentil. Il faut tacher de m eccri-
re. Gros baiser tom peti pere

Je.

“Meu querido Bebert

Beijo-te muito eternamente. Espero que te tenhas comportado bem. Procura escrever-me. Grande beijo do teu papá

Je”

Nota: “Eça de Queiroz escreve ao filho mais novo no dia do seu aniversário: Alberto completava então 7 anos.”

QUEIRÓS, Eça, A Arte de Ser Pai

Eça de Queirós (Póvoa do Varzim, 25/11/1845 – Paris, 16/8/1900)
Diplomata e escritor, considerado o melhor escritor realista português do séc. XIX.