Archive for the ‘Biografias’ Category

Julieta Monginho – [Como um ruído de chocalhos para além da curva da estrada], continuação
Abril 25, 2018

 

“Os homens recolhiam, a família jantava e depois era noite, ou seja, a manhã estrelada.

As mulheres levavam as cadeiras até à porta da frente, punham-se a apanhar o fresco. E reconheciam as vizinhas sentadas, até ao fundo da rua, assim como toda a gente que passava e se metia com a gaiata, porque a luz de tanta estrela junta era muito mais meiga que a do sol. Podiam olhar olhar olhar, e sonhar, sem que os olhos protestassem.

Ali estão as Três Marias, aponta a mãe. Oríon, corrige a avó, que ainda não tinha entrado na história mas esteve sempre escondidinha, num lugar invisível.

Toca para a cama, manda a tia Chica, sem mandar coisa alguma pois só o sono é capaz de vencer a genica da gaiata. Há-de despertar com o aroma do leite a ferver, sair da cama, atravessar em corrida a Casa enorme para ir ter com a avó, que amassa o pão, moldando duas papais, só para a neta.”

 O título é retirado de O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro”

JL, “Memórias de Outros Verões”, 17 a 30 de agosto de 2016

 

Julieta Monginho (Lisboa, 1958)
Escritora e advogada.

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Julieta Monginho – Como um ruído de chocalhos para além da curva da estrada*
Abril 21, 2018

 

” O dia começava ao pôr-do-sol, com os chocalhos das ovelhas. Escuta, lá soam eles, dizia a tia Chica, cansada de pressentir todos os sons da Aldeia; feliz por, durante esses dias, os ouvir através dos ouvidos curiosos da sobrinha.

A gaiata saltava da minúscula cadeira encarnada e corria a assomar ao portão, nas traseiras da Casa. Se fosse hoje, pensa ela, teria fotografado cada segundo dessa espera impaciente: a cauda da estrada, lá em cima, iluminada como a de um cometa pachorrento, um cometa alentejano, terreno, seguindo o aroma do pão; depois o novelo, tão distante que parecia impossível desdobrar-se até chegar fio por fio, balido por balido, aos olhos esbugalhados da gaiata.

O caminho à frente, treque-treque, língua de fora, esbaforido. Atrás o pastor, quase tão alto como o depósito da água, que, ao passar por nós, levava os dedos ao boné e ciciava boa tarde. Boa tarde, ti Lucas.

Já não via desaparecer o rebanho na outra ponta da estrada, a que dava para o Desvio, assim chamavam os aldenovenses ao cruzamento que os levaria a Beja, a Espanha ou a Lisboa.

Os ouvidos já escutavam outra música, a que vinha da venda mesmo em frente, as vozes dos homens amparadas umas às outras, um queixume plural, mudado em cante. Às vezes falo comigo e digo triste sorte que é a minha. A mãe dava-lhe as moedas e mandava-a à venda por uma laranjada.

Lá dentro fazia escuro, mal se distinguiam os homens por baixo dos chapéus, quanto mais as gargalhadas. De onde sairia o cante? Ali se demorava, a ver se descobria, esfregando nas mãos na garrafa fresquinha. Voltava para casa a correr, quando ouvia chamar pelo seu nome pequenino. A laranjada era repartida por três copos. O da menina era o maior. (…)”

” * O título é retirado de O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro”

(continua)

 

JL, “Memórias de Outros Verões”, 17 a 30 de agosto de 2016

 

Julieta Monginho (Lisboa, 1958)
Escritora e advogada.

Teolinda Gersão – Lisboa
Março 24, 2018

 

“(…) É uma cidade com que me identifico. Gosto de flanar por Lisboa, de andar ao acaso, de meter-me pelas ruas e ver coisas que nunca tinha visto, cantos, recantos, janelas. E gosto de falar com as pessoas.

(…) partir à descoberta de Lisboa, que é um bom lugar para nos perdermos. Não é uma cidade monumental, é feita de pequenas coisas. Os bairros são todos diferentes. No fundo eram pequenas aldeias, com individualidade própria.

Sou sempre viajante, nunca turista. Ando sempre à procura de coisas  e Lisboa é um bom lugar para as encontrar, um bom lugar para encontros e para acasos. Já encontrei histórias e pessoas muito engraçadas deambulando por aí.

(…) gosto de descer o caracol da Graça, de andar por aquelas ruas, também por ser um sítio onde as pessoas ainda se conhecem, onde ainda se sabe onde há pão quente e a que horas.

(…) ia olhando para Lisboa já de outra maneira. Pensando que iria escrever sobre Lisboa, que tem muito para dizer e para ver. (…)”

In, JL, 9 a 22 de março de 2011

 

Teolinda Gersão (Coimbra, 1940)
Romancista, contista, professora universitária.

Alexandre Pinheiro Torres – “O “terrível” escritor” – Excerto de um Artigo do Jornal Público
Fevereiro 17, 2018

 

“O “terrível” escritor

Poeta, ensaísta, romancista e professor, uma da vozes mais sarcásticas e picarescas da literatura portuguesa, Alexandre Pinheiro Torres morreu.

Portugal – com o qual tinha uma relação de ódio-amor – fica mais pobre.

Há mais de 30 anos a viver em Cardiff, o “terrível Torres”, como era conhecido, deixa uma obra incontestável, nomeadamente na área do movimento neo-realista.

O escritor, poeta e ensaísta Alexandre Pinheiro Torres faleceu na madrugada de ontem, em Cardiff, País de Gales, (…) onde era professor da universidade local em Literaturas de Língua Portuguesa.

Nascido em Amarante, em 1923, formou-se em Físico-Químicas, na Universidade do Porto, e em Histórico-Filosóficas em Coimbra, cidade em que conheceu Joaquim Namorado e os poetas do Novo Cancioneiro.

(…)

Alexandre Pinheiro Torres estreou-se na poesia, em 1950, com “Novo Génesis”, fundando um ano depois, com Egito Gonçalves, a revista “Serpente”.

Começa a frequentar a tertúlia dos neo-realistas, na Pastelaria Smarta, em Lisboa, onde predominam Castro Soromenho e Carlos de Oliveira.

Com Abelaira ou Herberto Hélder faz parte de outras tertúlias, nos cafés Bocage ou Montecarlo.

E continua a escrever poesia.

Mas é pela sua actividade enquanto crítico neo-realista – mordaz e virulento – que começa a dar nas vistas, sobretudo na década de 60. (…)

A professora e ensaísta Maria Alzira Seixo não tem dúvidas:
“Pinheiro Torres marcou posição nas letras portuguesas contemporâneas como crítico, nomeadamente no seu livro ‘Romance: O Mundo em Equação’, de 1967.
Nele assume frontalmente as teses neo-realistas vigentes e desenvolve-as com coerência, radicalismo e espírito de controvérsia, não só através das polémicas, que na altura manteve com figuras da época, como em leituras que desenvolveu de textos de autores como Carlos de Oliveira, Cardoso Pires e Alves Redol, documentos de extrema importância e exercícios de interpretação ideológica de muita penetração crítica.”

Documentos que verteu na imprensa, regularmente no “Diário de Lisboa”, mas também na “Colóquio/Letras”, “Seara Nova”, “Vértice”, no “JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias” e, entre muitas outras publicações, no “Avante!”. Mas o escritor, apesar de ter sido simpatizante do PCP, nunca militou nas fileiras comunistas. Preferia assumir-se como “compagnon de route”.

(…)

Depois do rocambolesco encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores – por ocasião da entrega do Grande Prémio de Novela a Luandino Vieira – é detido no Aljube. Ordens da PIDE, apesar de a sua família ser uma “das mais poderosas dentro do salazarismo”, como confessou à revista “Ler”, em 1995.

Decide partir. Para Cardiff. Desde então, a sua relação com Portugal é de ódio-amor. (…)

“Sempre vivemos no Reino do Teatro. Toda a gente a representar. Tudo a fingir”, disse na entrevista à “Ler”.

E acrescentava:

“Todos os lusíadas-coitados se mascaram seja do que for. Até o Pessoa não resistiu.”(…)

“Somos pobres com alma de ricos”, dizia, para incómodo de muita gente, no III Congresso de Escritores Portugueses, em 1991.

(…)

Mas como recorda o seu amigo Manuel Lopes, director da Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim, “por detrás da sua truculência, havia uma imensa ternura; a sua gargalhada mordaz escondia – sobretudo nas personagens que criava nos seus livros – uma outra relação com o país”.

Pinheiro Torres, de resto, logo que as aulas acabavam vinha a correr para Portugal, onde passava férias em Amarante, no Algarve e voltava à Póvoa de Varzim (o cenário de um dos seus mais belos livros de poesia – “A Ilha do Desterro”).

Agustina Bessa-Luís, amiga de infância de Pinheiro Torres, justamente na Póvoa, não anda muito longe da opinião de Manuel Lopes. “Apesar do seu carácter bastante atrabiliário”, diz entre uma gargalhada, “quando falava sobre a Póvoa, como em ‘O Adeus às Virgens’, era mais doce. Nos outros livros parecia que queria castigar a sociedade.”

“Talvez por isso, pelo seu génio sarcástico, a sua obra não foi ainda suficientemente apreciada”, nota Eduardo Lourenço.

Como acontece tantas e tantas vezes em Portugal, talvez agora se comece a ler uma das vozes menos classificáveis da literatura portuguesa. A do ensaísta que quer na poesia como na ficção não partilhou, curiosamente, das ideias neo-realistas.

É assim com “A Nau de Quixibá”, “Espingardas e Música Clássica”, “Sou Toda Sua Meu Guapo Cavaleiro” (porventura o seu melhor romance) ou “O Meu Anjo Catarina”, todos publicados na Caminho.

Porém, o “terrível Torres” – como era apelidado na praça literária – deixa, também, uma obra única no plano ensaístico. E de lá do alto vai continuar a rir-se:

“[Quando escrevo] Ninguém se pode divertir mais do que eu”, disse ao “Diário de Notícias”, “com excepção dos membros do júri dos prémios literários, adoradores da Nossa Senhora da Tristeza.”

In Púbico, Ípsilon, por Carlos Câmara Leme, 4 de Agosto de 1999

 

Alexandre Pinheiro Torres (Amarante, 27/10/1923 – Cardiff, 3/8/1999)
Romancista, poeta, ensaísta, historiador de literatura, crítico literário, co-fundador da revista Serpente, colaborador em diversas publicações: Diário de Lisboa,  Colóquio/Letras, Seara Nova, Vértice, JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, galardoado pela Associação Portuguesa de Escritores com: Prémio de Ensaio Jorge de Sena (1979), Prémio de Ensaio Ruy Belo (1983) e Prémio da Poesia (1983), pelo volume de poemas A Flor Evaporada, tradutor, professor catedrático de Literatura Portuguesa e Brasileira na Universidade de Cardiff, para a qual foi convidado como docente, bacharel em Ciências Físico-Químicas, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas.

António Estanqueiro – Ser Professor
Janeiro 29, 2018

 

” (…) Escolhi a minha profissão certamente influenciado pelos bons professores que tive. Sou professor há mais de 35 anos. Durante este tempo, fui colaborador de diversos órgãos de comunicação social e recebi convites para me dedicar em exclusivo ao jornalismo. Optei por ficar no ensino. Acredito que decidi bem!

Participei na gestão da escola como coordenador dos professores de Filosofia, membro do conselho pedagógico e diretor de turma. Mas sinto-me mais realizado na interacão pedagógica com os alunos. Gosto da prática letiva. Por isso, na reflexão sobre a educação e sobre a minha experiência de professor, prefiro centrar-me no essencial da escola: ensinar e aprender.

Como a maioria dos professores, procuro conhecer e valorizar as capacidades, o estilo e o ritmo de aprendizagem dos alunos. Mas sou exigente em relação ao esforço que cada um deve fazer. Todos os dias, tento impedir que o vírus da mediocridade se propague à minha volta.

Penso que o papel do professor é preparar os alunos para a vida, não é aumentar o sucesso estatístico, tão desejado pelos governantes! Adocicar as dificuldades não ajuda a crescer. Os alunos têm de ser desafiados a desenvolver gradualmente as suas potencialidades, a esforçar-se, a dar o seu melhor na conquista do sucesso.

O sucesso é gratificante e o que é gratificante é motivador. Sei que o esforço dará melhores frutos se for acompanhado por um bom método de estudo. Nesse sentido, tenho dinamizado diversos projetos para ensinar a estudar. É certo que cada aluno deve construir o seu próprio método, de acordo com o seu estilo de aprendizagem e o tipo de tarefa a realizar. Mas precisa da orientação experiente do professor. O ensino será tanto mais eficaz, quanto mais depressa o aluno ganhar autonomia no processo de aprendizagem.

Valorizo a dimensão formativa da avaliação. Tenho por hábito ajudar os alunos a fazer a sua autoavaliação e a tomar consciência dos vários fatores que influenciam os resultados escolares. Um aluno consciente sente orgulho nos seus sucessos e, perante eventuais insucessos, não inventa justificações, atribuindo toda a culpa a outras pessoas ou à falta de sorte. Assume as suas responsabilidades e aprende as lições dos erros. Acredita nas suas capacidades. Sabe que, se persistir no esforço e aperfeiçoar o seu método de estudo, conquistará melhores resultados. (…)”

 

In Jornal de Letras, 14/12/2011.

António Estanqueiro (Ponte de Vagos, 1950)
Escritor e coautor de manuais escolares, professor de Filosofia e Psicologia.

Manuel António Pina – Passagem
Janeiro 8, 2018

 

Com que palavras ou que lábios

é possível estar assim tão perto do fogo

e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,

tão sem peso por cima do pensamento?

 

Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,

e não só uma voz de ninguém.

Onde, porém? Em que lugares reais,

tão perto que as palavras são de mais?

 

Agora que os deuses partiram,

e estamos, se possível, ainda mais sós,

sem forma e vazios, inocentes de nós,

como diremos ainda margens e diremos rios?

 

Manuel António Pina (Sabugal, 18/11/1943 – Porto, 19/10/2012)
Poeta, autor de literatura infanto-juvenil, dramaturgo, ficcionista, jornalista, licenciado em Direito.
Galardoado com o Prémio Camões em 2011.

Mário de Carvalho – O Estímulo da Escrita
Janeiro 8, 2018

 

“Houve uma altura em que as pessoas se encontravam e falavam sobre literatura. As chamadas tertúlias.

Ainda fiz parte de um grupo de jovens universitários que se interessavam por literatura e que na altura publicou alguns livros, alguns volumes temáticos, e que se chamou, por causa dos quatro elementos da cultura clássica, os “Quatro Elementos Editores”.

E havia muitos encontros, muitas conversas, animadas pelo professor Fernando Guerreiro.

As pessoas trocavam textos, lia-se.

Comecei a escrever alguns contos e também escrevi um livro chamado O Livro Grande de Tebas e Mariana, que seria publicado em terceiro lugar. (…)

Foram as leituras, estas conversas, estes encontros onde se falava sobre literatura, sobre cultura, que me estimularam.

(…) E depois fui sendo levado. Surgiram situações, perguntavam-me “quando é que vem o próximo livro?”.

 

In Observador, entrevista a Rita Cipriano, 08/10/2016

 

Mário de Carvalho (Lisboa, 25/9/1944)
Romancista, contista, novelista, dramaturgo, licenciado em Direito.

Fernando Pessoa – Compensação Natural
Outubro 30, 2017

 

“Não é natural trabalhar por qualquer coisa, seja o que for, sem uma compensação natural, isto é, egoísta.”

PESSOA, Fernando, O Banqueiro Anarquista 

 

Fernando Pessoa (Lisboa 13/6/1888 – Lisboa, 30/11/1935 )
Poeta, escritor e tradutor, distinguiu-se pela criação de heterónimos, que o tornaram famoso.

Augusto Abelaira – Escrever
Outubro 15, 2017

 

” (…) o meu objectivo, começo a adivinhá-lo, adivinha-se afinal simples: fazer de mim através da escrita um ser uno, não este caótico, contraditório indivíduo que sempre fui. Afinal escrever, mesmo descontinuamente, é fixar no papel uma continuidade e essa continuidade sou eu”.

ABELAIRA, Augusto, Nem Só Mas Também

 

Augusto Abelaira (Ança, Cantanhede, 18/3/1926 – Lisboa, 04/07/2003)
Romancista, dramaturgo, contista, jornalista, tradutor, professor, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas.

Arquimedes da Silva Santos – A Educação do Ser
Outubro 15, 2017

 

“Eu tinha a formação de pedopsiquiatra e vi que a melhor maneira, do ponto de vista educativo, de agir na vida das crianças com dificuldades era através das expressões artísticas, quer seja da música, das artes plásticas, da psicomotricidade, da dança, do drama, etc. …

Fui um professor amador que, de algum modo, se profissionalizou. … como livre pensador e como franco atirador pude fazer aquilo que achava que devia ser. …

Dava liberdade aos meus alunos para podermos fazer as coisas de maneira a enriquecermo-nos, a encontrarmo-nos, a sermos.

A minha linha de acção era essa. Não era o saber, o ter, era exactamente o ser”.

 

Entrevista à revista Noesis – n.º 55, Julho/Setembro 2000

 

Arquimedes da Silva Santos (Póvoa de Santa iria, 18/6/ 1921)
Poeta, colaborador de publicações, professor,  licenciado em Medicina e especializado em psicopedagogia, estudou Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa e Psicologia na Sorbonne.