Archive for the ‘Biografias’ Category

Eduardo Prado Coelho – “Nascer sem fim” – Autobiografia
Abril 7, 2019

 

“Nasci em 29 de março de 1944. A guerra chegava, eu começava a nascer.

Trata-se de nascer todos os dias, de adiar a morte, de a não ver. Nasci muitas vezes. Um dia fui nascendo ao chegar a Paris, em outubro de 1987. Um dia levantei-me e olhei-me no espelho, passei água pela cara amarfanhada pelo sono: estávamos em Abril de 1974, era a revolução dos cravos, viemos para a rua ver o que se passava, tínhamos começado a nascer para a democracia. Para a liberdade, uns para os outros, livres. A minha mãe entusiasmou-se e, como morava em frente da Penitenciária, vinha para a rua dar de comer aos soldados que procuravam proteger-se do frio.

Em 29 de março de 2004 combinámos ir jantar fora para festejar os meus anos (eram 60 anos, uma mutação na vida de uma pessoa) num restaurante nos arredores de Lisboa, ao que parece. Mas, antes de irmos, passaríamos por casa da Margarida Lages.

Nasci mais uma vez com essa surpresa: esperava na sala, de luzes apagadas, um grupo de amigos próximos, alguns antigos, alguns mais recentes, e um jantar com vários protocolos de aniversário.

Havia textos que os mais dotados para a escrita haviam redigidos: textos no meu estilo, textos de uma amizade às vezes irónica. Reinava a imaginação. A Ana tinha concebido tudo com a cumplicidade da Margarida. Trocaram mails que formavam um dossier de contactos.

Nasce-se quando a vida de repente é mais clara porque vemos o sorriso encantado daqueles a quem chamamos amigos. Com o tempo a amizade começa a ser algo que está cada vez mais dentro de nós. (…)”

In JL de 11/05/2005

(continua)

 

Eduardo Prado Coelho (Lisboa, 29/3/1944 – Lisboa, 25/8/2007)
Escritor, crítico literário, ensaísta, colunista, comentador político, grande difusor da cultura, professor universitário, licenciado em Filologia Românica e doutorado pela FLUL, filho de Jacinto do Prado Coelho e pai da jornalista Alexandra Prado Coelho.

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Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Germano d´Almeida, O Homem e o Escritor de A a Z (M)
Abril 7, 2019

 

M DE MEMÓRIA

Faz-me lembrar o testamento de um tal Charles Lounsbury, que decidiu distribuir os seus bens neste mundo entre os homens que viriam depois dele: aos pais e mães, deixou todas as palavras de louvor e todos os apelidos carinhosos, mas para eles usarem generosamente a favor dos filhos pequenos; às crianças deixou as flores do campo e o direito de brincar no meio delas e também as areias douradas e as nuvens brancas que flutuam no céu;  aos amantes deixou o mundo imaginário, as estrelas do firmamento, as rosas vermelhas, os suaves acordes da músicas e tudo o mais que desejarem para a beleza do seu amor; e para aqueles que já não são nem crianças, nem jovens, nem amantes, deixou a MEMÓRIA!

Tenho uma deliciosa memória da minha infância na Boa Vista. Ter nascido na Boa Vista, numa zona da vila que servia de fronteira entre o mundo rural e o urbano, permitiu-me crescer numa liberdade quase selvagem. E ter estado a morrer afogado no mar por volta dos setes anos. Todas essas memórias fazem de mim o homem que sou.”

 

In JL de 6 a 19 de junho de 2018

(continua)

 

Germano d´ Almeida (Boa Vista, Cabo Verde, 1945)
Contista e romancista, Prémio Camões (2018), advogado.

José Viale Moutinho – “Aulas Práticas de Literatura”
Abril 4, 2019

 

“(…) Menino e moço, eu vivia em Espinho, e às segundas tinha de atravessar a grande feira semanal, a caminho do colégio onde fiz o secundário. Então perdia-me com os cegos que cantavam o que constava nos folhetos, que tinham pendurados na roupa ou em cordéis, os protagonistas de banha da cobra, os vendedores de colchas e mantas – que falavam ininterruptamente – e os robertos. Eram aulas práticas de literatura popular numa universidade entre couves, batatas e ferramentas, porcos e galináceos à mistura.

Comecei a colecionar as folhas dos versos do grande e horrible crime, passei aos folhetos mais antigos, alguns publicados pela desaparecida Livraria Barateira – como o Bertoldo, a tal Princesa Magalina, etc. Ainda tenho alguma coisa desse tempo. (…)

Havia um – às vezes – mais cego que cantava crimes recentes em verso, parecia um noticiário comentado. Tudo em versos com letra de pé quebrado. (…)”

In JL, “Letras / Entrevista”, 30 de agosto  a 12 de setembro de 2017

 

José Viale Moutinho (Funchal, 12/6/1945)
Poeta, ficcionista, dramaturgo, autor de livros infanto-juvenis, ensaísta, estudioso de Camilo, jornalista.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Germano d´ Almeida, O Homem e o Escritor de A a Z (H), (I), (J), (L)
Março 13, 2019

 

H DE HISTÓRIA (E ESTÓRIAS?)

A com “H” é a história, a universal, a que aprendemos na escola (…). A com “E” (durante um certo tempo acreditei que a tinha inventado até descobrir que não, antes de mim alguém já o fizera) são aquelas que inventamos a partir de factos ou simplesmente da imaginação.”

 

I DE IRONIA

Terei aprendido a usá-la com o Eça, mas também reconheço que é um dom pessoal (…) acredito que em tudo o que nos acontece pode-se sempre encontrar-se uma ponta boa por onde pegar e nisso me agarro.”

 

J DE JOGGING

(…) vou preferindo o aconchego do meu escritório. Salvo um passeio matinal de hora e meia que me vou esforçando a fazer diariamente.”

 

L DE LÍNGUAS (PORTUGUESA E CRIOULO)

Acho que nunca vou desanimar de continuar a insistir na absoluta necessidade que nós cabo-verdianos temos de dominar a língua portuguesa. E por isso e para isso temos que a estudar e aprender a usá-la com à vontade e apreciar como uma benção termos duas línguas em que nos podemos expressar.”

 

In JL de 6 a 19 de junho de 2018

(continua)

 

Germano d´ Almeida (Boa Vista, Cabo Verde, 1945)
Contista e romancista, Prémio Camões (2018), advogado.

Baptista-Bastos – [Possuo Numerosos Blocos…]
Fevereiro 26, 2019

 

“(…) Possuo numerosos blocos cheios de notas, não sei para que uso, se as escrevo há anos sem proveito aparente.

Certo dia, a Isaura perguntou-me: “Alguma vez irás servir-te dessas garatujas?”

E eu: “Talvez, nunca se sabe.”

A Isaura sorriu e disse: “Eu guardo tudo o que é teu. Apontamentos, rabiscos. Está tudo dentro de uma caixa de cartão. Já está a abarrotar. No fundo, é o teu trabalho: escrever, não é?”

Escrever é difícil; escrever bem, impossível. É uma tentativa repetida vezes sem conta, uma procura de nos aproximar de um rosto, de uma frase, de uma realidade que rapidamente se desvanece, porque toda a realidade é uma mentira muito bem disfarçada para nos enganar. (…)”

 

In Montepio Outubro 2012, ” a minha vida” CRÓNICA

 

Baptista-Bastos (Lisboa, 27/2/1934 – Lisboa, 09/05/2017)
Jornalista, ensaísta, romancista.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Germano d´ Almeida, O Homem e o Escritor de A a Z (G)
Fevereiro 20, 2019

 

G DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

 

Acrescentaria Eça de Queirós e Jorge Amado*. Amo os três, li tudo o que encontrei deles.

Com o Memorial do Convento, Saramago encorajou-me a prosseguir uma experiência de contar estórias que sentia em mim mas não me atrevia a usar. Obrigado à Maria Leonor que me mandou o livro depois de ler o primeiro editorial do Ponto&Vírgula.

Com García Márquez aprendi que não há limites para as loucuras da imaginação, se ele até ganhou o Nobel!

Eça é a incomparável e suprema ironia dos bem-aventurados pobres de léxico que acabam ganhando o reino da glória. ”

 

In JL de 6 a 19 de junho de 2018

(continua)

 

* Permito-me subentender tratar-se de um lapso, uma vez que os três a que o autor se refere, destaca Saramago e não Amado.

 

Germano d´ Almeida (Boa Vista, Cabo Verde, 1945)
Contista e romancista, Prémio Camões (2018), advogado.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Germano d´ Almeida, O Homem e o Escritor de A a Z (E e F)
Janeiro 26, 2019

 

E DE EVA

Sempre gostei da Eva da Bíblia (…) surpreendendo o Criador ao revelar-se uma criatura livre e pensante, uma mulher alegre (…)

Por isso dei o seu nome à minha Eva.”

 

F DE FESTA

Convívio entre as pessoas, gargalhadas, copos, música, alegres ditos de chuva, mas também e muitas vezes o simples prazer de estar com alguém em silêncio.”

 

In JL de 6 a 19 de junho de 2018

(continua)

 

Germano d´ Almeida (Boa Vista, Cabo Verde, 1945)
Contista e romancista, Prémio Camões (2018), advogado.

Vergílio Ferreira na Primeira Pessoa (continuação)
Janeiro 18, 2019

 

“(…) Mas dos centros de irradiação da minha actividade, apenas Évora transbordou de emoção para a lembrança. E como a Coimbra, é de novo a música, agora o coral dos camponeses, que a levanta ao espaço da minha comoção. Ouço-a ainda agora, a esse coro de amargura, raiado à infinitude da planície, cruzado às ruas ermas da cidade, expandindo à eternidade do céu.

Vejo-me atravessando o claustro do liceu, os alunos já saíram da aula, eu suspendo-me ainda um pouco da janela para a planície.

Évora do silêncio com sinos nas manhãs de domingo, estradas abandonadas à vertigem da distância, ó cidade irreal, cidade única, memória perdida de mim. Sou do Alentejo como da serra onde nasci, a mesma voz de uma e outra ressoa em mim a espaço, a angústia e solidão.

E a minha biografia deve ter findado aqui. Lisboa é um sítio onde se está, não um lugar onde se vive. Mesmo que lá se viva há 18 anos como eu. Eu o disse, aliás, a alguém, na iminência de vir: quando for a Lisboa, levo a província comigo e instalo-me nela. E assim fiz. Os livros que aqui escrevi são afinal da província donde sou.

Terrorismo do trânsito, das relações pessoais, da luta em febre pela glória (…), terrorismo das distâncias, das relações humanas ao telefone (…).

Vejo-me numa enfermaria do hospital, acordando estranhamente de não sei que tempo de inconsciência, com vários médicos conversando entre si e sobre mim. Pergunto de que se trata, porque estou ali. “Foste atropelado” – diz-me o meu filho, que é um dos médicos.

Tenho fracturas do crânio, várias contusões pelo corpo. Lisboa selvagem, cidade bonita na claridade dos prédios, no rio das descobertas, no aéreo das colinas, meu veneno e minha sedução. Fui atropelado. Mas é talvez justo que o fosse. Porque eu não sou daqui.”

 

In JL 28 de janeiro de 1986 (dia em que completou 70 anos)

 

Vergílio Ferreira (Melo, Gouveia, 28/1/1916 – Lisboa, 1/3/1996)
Romancista, contista, ensaísta, autor de diários, galardoado com o Prémio Camões em 1992,  professor, licenciado em Filologia Clássica.

Maria Teresa Horta – “Memória” de Maria Judite de Carvalho
Janeiro 16, 2019

 

“Conheci a Maria Judite de Carvalho mal cheguei à escrita com o meu livro de poesia Espelho Inicial. Aliás conheci-a enquanto mulher do escritor Urbano Tavares Rodrigues, pois resguardada em si mesma não só ela ainda não publicara, como nem contara a ninguém que escrevia, no resguardo do silêncio.

E não sendo, também, dada a convívios e reuniões, mantinha-se afastada de quase todos nós, o que acendera a minha curiosidade a seu respeito. Ou seja, sobre ela quase nada se sabia e quase nada se dizia.

No entanto um dia, acabava eu de chegar ao jornal Diário de Lisboa para entregar uma crónica que me tinham pedido, o Urbano, que na altura trabalhava na sua redação, veio ter comigo e disse-me:

– A Maria Judite gostaria muito que a Teresa fosse a nossa casa, para a conhecer pessoalmente.

Aceitei o convite inesperado, mas tímida como era na altura, foi sobressaltada que subi a escada sombria de madeira velha de um prédio antigo da Rua Tomás Ribeiro. E foi a própria Maria Judite que me abriu a porta.

Ainda sem fôlego, deparei-me com o seu olhar inteligente e com um inesperado sorriso contido.

Levou-me até uma pequena sala cheia de livros e papéis, onde estivemos a conversar as duas: da vida e da avidez da escrita, das escritoras e dos escritores de quem gostávamos, do que podíamos ou não esperar de um Portugal sem liberdade, sentindo-a aqui e ali mais reservada; mas, embora sem nos abrirmos muito, dissemos o suficiente para ficarmos a gostar uma da outra.

Já ao fim da tarde, quando me acompanhou de volta à escada empoeirada, lembro-me de ela ter posto, de súbito, a sua mão firme e muito morena no meu ombro, dizendo-me:

– A Teresa tem de aprender depressa a defende-de do mundo…”

 

In JL, 4 a 17 de julho de 2018

 

Maria Teresa Horta (Lisboa, 20/5/1937)
Poetisa, colaboradora de diversos jornais e revistas, pertenceu ao grupo Poesia 61 e aos movimentos cineclubista e feminista, co-autora do livro: Novas Cartas Portuguesas (1972) com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, tendo ficado conhecidas internacionalmente por: “As Três Marias”.

 

Maria Judite de Carvalho (Lisboa, 18/9/1921 – Lisboa, 1998)
Contista, novelista, cronista, romancista, dramaturga, colaboradora em vários jornais e revistas.
Esposa de Urbano Tavares Rodrigues e mãe da escritora Isabel Fraga.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Germano d´ Almeida, O Homem e o Escritor de A a Z (D)
Janeiro 16, 2019

 

” D  DE DEPUTADO

Uma experiência de vida que certamente não será necessário nem desejaria repetir.

Aderi ao MpD na abertura política em 1990, por achar importante contribuir para a instauração do pluripartidarismo no país.

E depois disso afastei-me, não tenho qualquer vocação para aceitar a disciplina partidária, que não achei muito diferente da disciplina militar.”

In JL de 6 a 19 de junho de 2018

(continua)

 

Germano d´ Almeida (Boa Vista, Cabo Verde, 1945)
Contista e romancista, Prémio Camões (2018), advogado.