Archive for the ‘Heras e Eras’ Category

Luiza Neto Jorge – [PORQUE FICOU…]
Janeiro 21, 2019

 

PORQUE FICOU oceânico

o escasso momento de nós?

 

Escorríamos pelas mãos

insatisfeitas e límpidas

nascentes

no ar um tempo frustre

a sequência dos sons

perdido nos degraus

 

Simples é a dor

e nós nascidos

 

Luiza Neto Jorge (Lisboa, 1939 – Lisboa,1989)
Poetisa e tradutora, escreveu para o teatro e para o cinema, é considerada a personalidade poética mais importante da Poesia 61.

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Teixeira de Pascoaes – Canção Humilde
Janeiro 21, 2019

 

Brisa de abril

Toda perfume.

Etéreo Nume

Contigo vai!

 

Pedrinha humilde

No chão perdida,

Do sol ferida

És uma estrela.

 

Negra ramagem,

O céu tocando,

Vai-se pintando

De azul celeste.

 

Gota de orvalho

Tremeluzindo,

Tens o sol rindo,

Dentro de ti!

 

Humildes cousas

Que ninguém olha:

Raminho ou folha

Ou grão de areia,

 

Tendes o encanto

Mais que divino

Que Deus menino

Achou na Terra…

 

Teixeira de Pascoaes (Amarante, 8/11/1877- Gatão, 14/12/1952)
Poeta, prosador, licenciado em Direito.

Carlos de Oliveira – Casa
Janeiro 21, 2019

 

A luz de carbureto

que ferve no gasómetro do pátio

e envolve este soneto

num cheiro de laranjas com sulfato

(as asas pantanosas dos insectos

reflectidas nos olhos, no olfacto,

a febre a consumir o meu retrato,

a ameaçar os tectos

da casa que também adoecia

ao contágio da lama

e enfim morria numa cama)

a pedregosa luz da poesia

que reconstrói a casa, chama a chama.

 

OLIVEIRA, Carlos de,  Trabalho Poético

 

Carlos de Oliveira (Belém do Pará, Brasil, 10/8/1921 – Lisboa, 1/7/1981)
Poeta, romancista, cronista, coautor de Contos Tradicionais Portuguesescom José Gomes Ferreira, 1953, colaborador nas revistas: Altitude,  Seara Nova e Vértice, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas.

Carlos Nejar – Davi, O Rei
Janeiro 18, 2019

 

 

Um dia desterrado, chorei

rosto no chão. Fui

perseguindo

os sulcos pela rocha,

palmilhei

os rastros todos,

para os refazer

na vontade maior.

 

E preferi cair

na mão de Deus,

que às mãos dos homens.

Nele guardei o coração

como semente.

 

Que pode

a velha morte

sobre mim?

 

Carlos Nejar (Brasil, Porto Alegre, 11/1/1939)
Poeta, ficcionista, tradutor, crítico, membro da Academia Brasileira de Literatura, conhecido por “poeta do pampa brasileiro”.

 

 

Manuel Bandeira – Ingénuo Enleio
Janeiro 15, 2019

 

Ingénuo enleio de surpresa

Subtil afago em meus sentidos,

Foi para mim tua beleza,

A tua voz nos meus ouvidos.

 

Ao pé de ti, do mal antigo

Meu triste ser convalesceu.

Então me fiz teu grande amigo,

E teu afecto se me deu.

 

Mas o teu corpo tinha a graça

Das aves… Musical adejo…

Vela no mar que freme e passa…

E assim nasceu o meu desejo.

 

Depois, momento por momento,

Eu conheci teu coração.

E se mudou meu sentimento

Em doce e grave adoração.

 

Manuel Bandeira (Recife, Brasil, 19/4/1886 – Rio de Janeiro, 13/10/1968)
Poeta, crítico literário e de arte, tradutor, professor.

 

Olavo Bilac – [Invejo o Ourives…]
Janeiro 13, 2019

 

Invejo o ourives quando escrevo:

Imito o amor

Com que ele, em ouro, o alto-relevo

Faz de uma flor.

 

Imito-o. E, pois, nem de Carrara

A pedra firo:

O alvo cristal, a pedra rara,

O ónix prefiro.

 

Olavo Bilac (Rio de Janeiro, 16/12/1865 – Rio de Janeiro, 28/12/1918)
Jornalista e poeta, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, autor da letra do Hino à Bandeira.

Antero de Quental – Amor Vivo
Janeiro 13, 2019

 

Amar! mas dum amor que tenha vida…

Não sejam sempre tímidos harpejos,

Não sejam só delirios e desejos

Duma douda cabeça escandecida…

 

Amor que vive e brilhe! luz fundida

Que penetre o meu ser — e não só beijos

Dados no ar — delírios e desejos —

Mas amor… dos amores que têm vida…

 

Sim, vivo e quente! e já a luz do dia

Não virá dissipá-lo nos meus braços

Como névoa da vaga fantasia…

 

Nem murchará do Sol à chama erguida…

Pois que podem os astros dos espaços

Contra débeis amores… se têm vida?

 

Antero de Quental (Ponta Delgada,18/4/1842 – Ponta Delgada,11/9/1891)
Poeta, filósofo e político. Licenciado em Direito.

Alexandre O´Neill – A Meu Favor
Janeiro 12, 2019

 

A meu favor

Tenho o verde secreto dos teus olhos

Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor

O tapete que vai partir para o infinito

Esta noite ou uma noite qualquer

 

A meu favor

As paredes que insultam devagar

Certo refúgio acima do murmúrio

Que da vida corrente teime em vir

O barco escondido pela folhagem

O jardim onde a aventura recomeça.

 

Alexandre O´Neill (Lisboa, 19/12/1924 – Lisboa, 21/8/1986)
Poeta, cronista e tradutor, fundador do Movimento Surrealista de Lisboa com Mário Cesariny, José Augusto França e António Pedro.

Salette Tavares – Soneto Pateta III
Janeiro 12, 2019

 

Let us go, then, you and I

When the evening is spread

[out against the sky

T.S.ELIOT

 

Entrou um serafim

no meu jardim

que cheiro a alecrim…

 

da rosa carmim

para o jasmim

tramp´lim

do arlequim

p´ra mim

 

Salette Tavares (Lourenço Marques, Moçambique, 1922 – Lisboa, 1994)
Poetisa, licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas e dedicou-se aos estudos de: Linguística, Estética, e Teoria da Arte, integrou o grupo da poesia experimental e visual em Portugal.

Rosa Alice Branco – A divisibilidade dos aromas
Janeiro 12, 2019

 

Pela janela vem o cheiro da manhã, da relva

e das rosas salpicadas de fresco que se casam com o cheiro

dos lençóis sonolentos. Ao bater a porta já só sinto

o meu perfume, o que pomos por cima das certezas

e das dúvidas, por cima dos segredos que trespassam a pele.

Em breve me confundirei com o cheiro dos outros, daquele homem

vergado pelo saco de batatas, da florista a compor as margaridas,

da peixeira à porta da vizinha mostrando as goelas sangrentas

(talvez porque se tenha levantado cedo e apregoar assim

fere a garganta), das crianças a caminho da escola, de todos

os que hão-de cruzar o meu dia e de ti que hás-de cruzar

também a minha noite. Contar-te-ei todas as horas com a mistura

dos aromas que me compõem e ouvirei na tua pele

a subtil diferença entre os dias. Amanhã fecharemos a porta

e o teu cheiro irá entranhado em mim até uma distância infinita

das rosas que cantam à janela e seguirei pela estrada

estendendo a pele às dádivas do dia.

 

BRANCO, Rosa Alice, “Da Alma e dos Espíritos Animais”, Soletrar o Dia

 

Rosa Alice Branco (Aveiro, 1950)
Poetisa, mestre em Filosofia do Conhecimento.