Archive for the ‘Heras e Eras’ Category

Fiama Hasse Pais Brandão – Canto marítimo da ria
Março 21, 2017

De manhã o mar estende-se ao rés do Sol
banhamo-nos para cegar de luz
nadamos através do halo de calor.
Poder sentir a luz a escorrer junto à boca
dá-nos a humildade e a pacificação.
Um sopro mergulha no fluido da luz
de onde talvez brotou ao ser nascido
e é a minha alma que flutua
feita de moléculas de água.
Tudo em esplendor cintila, e imagino
que quando a alma de Heitor o abandonou
foi numa manhã ao rés do mar de Tróia
Tal como o Mediterrâneo este é um mar
parado sem o movimento, que é a onda
e o som, cingido entre os anéis da terra.
Tocou-me a água nos olhos extasiados,
seria esse o baptismo que ungiu
o meu dom das visões reais e irreais.
O mar é uma acha em brasa
que lacera uma das minhas faces,
por isso ofereci ao vento
a outra nas manhãs sombrias.
E dei o meu corpo à superfície lisa
que unia os quatro elementos,
ou seja a terra, o mar, o ar, o fogo
tal como quando os Gregos os pensavam.
Vendo as garças a voarem lentas
sobre os pequenos lagos ígneos
sei que se fossem comburentes
não voltariam ao solo brancas e quedas,
como quando ostentam o colo
entre os juncos das margens similares,
e de súbito intuo que a Natureza
trouxe as garças para os altos juncos
e me levou a mim ao raso mar
onde o meu corpo bóia incandescente
jazendo quando dorme, ou morre, ou nasce.
A minha juventude amou a manhã
sabendo que ambas as idades são iguais,
mas o corpo arde plano na água do fogo
enquanto o Sol se queima entre a terra e o ar,
e somente os filósofos metereologistas
souberam separar os elementos juntos
na Natureza visível e invisível.
Volto a banhar-me na Ria, no silêncio,
no ardor, no sonho, na volúpia
e termino o poema com o mesmo
fogo interior sorvido pela boca
do verso inicial no pleno mar.
Não só nesta praia a saudade de Heitor
me é trazida pelo fulgor do mar
como a de um jovem morto outrora
por Valéry, pelo Sol e por Fauré.
Tantos mil anos-luz da imagem
de Heitor estão depois do seu vulto
quantos do vulto do jovem morto
mais me separa a saudade da imagem.

Fiama Hasse Pais Brandão (Lisboa, 15/8/1938 – Lisboa, 19/1/2007)
Poetisa, romancista, dramaturga, ensaísta, tradutora
(Esposa de Gastão Cruz).

José Jorge Letria – O deserto nominável
Março 21, 2017

O deserto é um silêncio depois do mar,
É o êxtase da luz sobre o coração da areia.
Vai-se e volta-se e nada se esquece.
Tudo se oculta para depois se dar a ver
No ponto em que os ventos se cruzam
E as almas gritam no fundo dos poços.
Os cestos sobem e descem prometendo água,
Uma frescura que derrete a febre.
Não são as tâmaras que adoçam a boca,
É a beleza das mulheres dissimulando
O desejo como um pecado sob a escuridão dos véus.
As serpentes assobiam ou cantam
Conforme o veneno que lhes molda o sangue.
Enroscam-se sobre as pedras
como fragmentos de lua à espera da manhã.
E a sombra alonga-se nas dunas
Ondulando rente às palmeiras
Como a última cobra do medo das crianças.
Não há ruído maior que este silêncio
Que se serve com tâmaras e com chá
Na mesa rasteira, sobre a terra molhada.
É no que não se nomeia que está o infinito.

José Jorge Letria (Cascais, 08/06/1951)
Poeta, romancista, contista, dramaturgo, autor de literatura infanto-juvenil, coautorde antologias de poesia, jornalista.

Manuel da Fonseca – Tejo que Levas as Águas
Março 21, 2017

Tejo que levas as águas
Correndo de par em par
Lava a cidade de mágoas
Leva as mágoas para o mar

Lava-a de crimes espantos
De roubos fomes terror
Lava a cidade de quantos
Do ódio fingem amor

Lava bancos e empresas
Dos comedores de dinheiro
Que dos salários de tristeza
Arrecadam lucro inteiro

Lava palácios vivendas
Casebres bairros da lata
Leva negócios e rendas
Que a uns farta e a outros mata

Leva nas águas as grades
De aço e silêncio forjadas
Deixa soltar-se a verdade
Das bocas amordaçadas

Lava avenidas de vícios
Vielas de amores venais
Lava albergues e hospícios
Cadeias e hospitais

Afoga empenhos favores
Vãs glórias, ocas palmas
Leva o poder dos senhores
Que compram corpos e almas

Das camas de amor comprado
Desata abraços de lodo
Rostos corpos destroçados
Lava-os com sal e iodo

Tejo que levas as águas
Correndo de par em par
Lava a cidade de mágoas
Leva as mágoas para o mar.

Manuel da Fonseca (Santiago de Cacém, 15/10/1911-11/3/1993)
Poeta, romancista, contista e cronista, membro do Grupo Novo Cancioneiro, presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores.

Ruy Belo – Sexta-feira sol dourado
Março 21, 2017

Sexta-feira sol dourado
esperança de solução de todos os problemas
não por à sexta-feira ter morrido cristo
que o poeta aliás comemora a comer bacalhau
ou outro peixe trocado pelos pescadores
que morreram ou morrerão no mar
esse peixe que antes nos chegava directamente
e agora passa pelas mãos do almirante
[Henrique Tenreiro]

sexta-feira sol dourado
não por à sexta-feira ter morrido cristo
mas por se dispor da semana americana
Agora é que vamos ser felizes
A sexta-feira chega enche-se o peito de ar
a eternidade é não haver papéis
a vida muda vamos contestar
talvez assim se consiga aumentar
a duração média da vida humana
Sexta-feira sol dourado
que alegria ser poeta português
Portugal fica em frente

 

Ruy Belo (S. João da Ribeira, Rio Maior, 27/2/1933 – Queluz, 8/8/1978)
Poeta, ensaísta, crítico literário, tradutor, professor, leitor de Português, licenciado em Direito e Filologia Românica, doutorado em Direito Canónico.

Ary dos Santos – O Turismo
Março 21, 2017

Visitar este país
até à última gota:
O porco e o Porto
A bola e a bolota
O que é como quem diz
itinerar a derrota

Tudo tem lugar no mapa
Paris, Washington, Moscovo
Em Itália vê-se o Papa
Em Lisboa vê-se o povo.

Welcome, Bienvenus,
Salud, Willkommen, Viva
A sífilis saúda-vos
saúda-vos a estiva
desta carga de heróis
em carne viva
nociva mas barata
vindes matar a sede com uva
beber o sumo de ócio
que nos mata

Desemborcais nos cais
Desembolsais de mais
mas não sabeis
as coisas viscerais
as coisas principais
deste país azul
com mais hotéis do que hospitais
talvez por ser ao sol
talvez por ser ao sul.

Aqui ao pé do mar
bordamos a tristeza
as toalhas de mão
as toalhas de mesa
que levais para casa
Souvenir
deste povo sem pão
que se cose a sorrir.

Aqui ao pé do rio
gememos a saudade
nosso fado submisso
nossa água a correr.
Canção de mal devir
Souvenir Souvenir
deste povo de trégua
que se canta a morrer.

Aqui ao pé do vento
forjamos o lamento
dum país que se vende
a peso nos prospectos
tanto de sol ardente
tanto de cal fervente
e uma nódoa de céu
nos xailes pretos.

Aqui ao pé do fel
gritamos o segredo
do que parece fácil
neste país de luz:
é apenas a fome.
É apenas o medo.
É apenas o sangue.
É apenas o pus.

José Carlos Ary dos Santos (Lisboa, 7/12/1937 – Lisboa, 18/1/1984)
Poeta, declamador, autor de poemas para canções, animador político, profissional de publicidade.

Teresa Guedes – Educadores-Leitores
Março 18, 2017

” (…) todos os educadores deveriam ser leitores, porque a leitura (como a imaginação e a poesia) é contagiosa. (…)”

GUEDESS, Teresa, Ensinar a Poesia

Teresa Guedes (1957 – 25/9/2007)
Poetisa, contista, cronista, orientadora de acções de formação para professores e alunos sobre escrita criativa, responsável pelo Clube de Poesia para alunos, professora, licenciada em Filologia Germânica.

Vasco Graça Moura – Glosa para a D. Cleonice
Março 14, 2017

se a camões se consentisse
ter uma vida segunda
diria da mais profunda
gratidão a cleonice

ao poeta em língua lusa
há sempre alguém que interpreta
a má letra, a voz secreta
desconcerta então a musa
mas conserta-se o poeta
e se acaso houvesse jeito
de sabermos o que disse
por conceito or preconceito
era o cânone perfeito

(se a camões se consentisse…)

é sabido que o pessoa
já ceifado pela parca
se vingou: deixou na arca
resmas de papéis à toa
que eram carga a mais na barca.
tinha a certeza certeira
de que na atroz barafunda
havia de haver maneira
de em condições de primeira
ter uma vida segunda.

foi ao dois o mundo acerbo
mas procuraram saída
na medida e desmedida
da vida a fazer-se verbo,
do verbo a fazer-se vida,
quando a luz intensa presa
dentro do poema a inunda.
dessa liberdade acesa
uma língua, a portuguesa,
diria da mais profunda.

dona cleo que os entendeu,
nos quis doá-los e trouxe
seu sabor como se fosse
o afecto com que os leu
num sorriso luso e doce
mas brasileiro de gema,
fez que assim camões se unisse
ao pessoa num poema
pra dizer da nossa extrema
gratidão a cleonice!

(Poema lido pelo autor por ocasião do Colóquio “Figuras da Lusofonia – Cleonice Berardinelli”, promovido pelo Instituto Camões)

In JL de 31 de agosto a 13 de setembro de 2016

 

Vasco Graça Moura (Porto, 3/1/1942 – Lisboa, 27/04/2014)
Poeta, ficcionista, cronista, tradutor, licenciado em Direito.

 

Cleonice Seroa da Mota Berardinelli (Rio de Janeiro, 28 /08/1916)
Professora universitária de Literatura Portuguesa, investigadora e ensaísta, especialista em Luís de Camões, Gil Vicente e Fernando Pessoa, autora de antologias poéticas e de vastos trabalhos sobre escritores portugueses e outras personalidades.
Comendadora da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal (1966) e da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1987) e distinguida com a Grã-Cruz da mesma Ordem de Portugal (2006).
Ocupa a cadeira número 8 na Academia Brasileira de Letras desde 16 de dezembro de 2009.

Almada Negreiros – Apelidos de Família
Março 14, 2017

“Por sorte, a vaca não tem apelidos de família para lhe complicarem a existência.”

NEGREIROS, Almada, Nome de Guerra

Almada Negreiros (Trindade, S. Tomé, 7/4/1893 – Lisboa, 15/6/1970)
Artista multifacetado, desenhador e pintor, ensaísta, dramaturgo, romancista e poeta, colaborador da Revista Orpheu com Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro e fundador de alguns jornais.

António Lobo Antunes – Uma Mensagem das 10 conversas com Celso Filipe
Março 14, 2017

“A minha vida não interessa, só interessam os livros. As pessoas [os leitores] têm direito aos livros, não têm direito a mim.”

In  FILIPE, Celso, O Que Faria Eu se Estivesse no Meu Lugar? 10 Conversas de vida com António Lobo Antunes, pp 105-106.

 

António Lobo Antunes (Lisboa, 1/9/1942)
Romancista e cronista, distinguido com o Prémio Camões em 2007, médico especializado em Psiquiatria.

Maria Assunção Vilhena – Em Sines, “A Banhos” (Continuação)
Março 12, 2017

“Iam para a praia ao romper do dia e tomavam logo banho com qualquer peça de roupa interior: as mulheres com a camisa de paninho branco com refegos e bordados, até ao joelho, e os homens com ceroulas de riscado ou de pano cru com nastros atados nos tornozelos e camisola com mangas.

Quando saíam da água, tiritando de frio e com a roupa colada ao corpo, corria logo alguém da família em seu socorro, levando-lhes uma toalha que de nada servia, porque primeiro tinham de os ajudar a despir a roupa encharcada, o que era o cabo dos trabalhos.

Acudiam então mais familiares com mantas com que faziam uma espécie de barraca que encobria a vítima até ao pescoço e dentro da qual ela se debatia contra os trapos molhados a coberto dos olhares indiscretos dos curiosos…

Era então que a toalha tinha utilidade, embora o corpo húmido demorasse a manobra de vestir.

Acabado esse trabalho, ainda batendo o queixo de frio, enrolavam-se nas mantas e toca a subir a encosta a caminha da vila, sem terem sequer apanhado uns raiozinhos de sol…

Havia outros que, certamente por causa do reumatismo, tomavam banhos quentes no edifício próprio* e, bem agasalhados com capotes ou mantas alentejanas, engrossavam a procissão de banhistas, que era uma espectáculo digno de ser visto…”

(…)**

E foi porque meu pai continuou a ter trabalho no transporte do peixe durante alguns Verões que continuámos a ir a banhos.

Ocupávamos sempre a mesma casa e tínhamos sempre os mesmos vizinhos; até os banhistas eram os mesmos e assim fizémos grandes amizades.

De ano para ano, no entanto, notavam-se algumas diferenças – as crianças cresciam, os pais e avós envelheciam e, na praia, tudo se foi modificando: as barracas e toldos, mais banhistas que se conservavam mais tempo na praia e tomavam novos hábitos.

Era sobretudo ao domingo que ia mais gente. Os do monte levavam grandes farnéis que estendiam sobre toalhas brancas muito esticadas na areia e passavam lá o dia, à sombra dos toldos.

Geralmente aparecia um fotógrafo com uma máquina de fole sobre um tripé e uma cortina preta onde metia várias vezes a cabeça, o que muito nos intrigava. Talvez por isso, nas fotografias que a minha mãe nos mandava tirar ficávamos sempre com cara de ponto de interrogação…”

 * Imagem legendada publicada em 2008/08/07 com o título: “Sines, Banhos Quentes”

**  Pode ler-se: “Sines, o Banho de 29” publicado em 2009/08/29

VILHENA, M. Assunção, Gente do Monte

Maria Assunção Vilhena (Santiago de Cacém)
Concluiu o Curso de Professora do Ensino Primário em 1948, posteriormente licenciou-se em Filologia Românica e lecionou Francês na sua terra natal.
Dedicou-se ao estudo da Etnologia da Beira-Baixa e editou obras neste âmbito.