Archive for the ‘Heras e Eras’ Category

Luís Miguel Nava – Paixão
Abril 20, 2019

 

Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos

situar num mesmo poema o coração e a pele quase podíamos

abrir entre eles uma parede e abrir

depois caminho à água

 

Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia

de súbito em profundas minas, a memória

das suas mais longínquas galerias

extrai aquilo de que é feito o coração.

 

Ficávamos no quarto, onde por vezes

o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior

paixão que pelo coração se chega à pele.

Não há então entre eles nenhum desnível.

 

Luís Miguel Nava (Viseu, 29/9/1957 – Bruxelas, 10/5/1995)
Poeta, galardoado com o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores em 1978, ensaísta, antologista, leitor de português, tradutor, licenciado em Filologia Românica.

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Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Aguinaldo Fonseca, Círculo
Abril 20, 2019

 

Nascemos, morremos,

Tornamos a nascer em cada sonho, cada ideia, cada gesto.

Cada dia que chega é flor que se abre ao sol

Com novo cheiro, nova cor, nova beleza.

Nossos desejos são asas que se elevam

Cruzando o céu da vida em voo largo

Mas nunca chega, nunca páram

Enquanto corre o sangue e a vida cresce e rola.

O fim de um sonho é o começo de outro

Cada horizonte outro horizonte aponta,

E uma esperança morta outra esperança aquece.

Há magoas, alegrias, desesperos

E a gente insatisfeita

Enquanto ri ou chora

Ou canta ou fica triste

Vai nascendo, morrendo e renascendo

Cada dia, cada hora, cada instante

Noutra vida, noutro sonho, noutra esperança

 

Aguinaldo Fonseca (Cabo Verde, Mindelo, 22/9/1922 – Lisboa, 24/01/2014)
Poeta.

 

 

Jorge Reis-Sá – [Escrevo como quem Quer Ser Escrito]
Abril 20, 2019

 

escrevo como quem quer ser escrito

 

uma árvore ou uma pena no centro da frase

um espelho branco onde observo a palavra

 

e dos seus troncos brotam folhas, letras

inundações de verde no lago azul do céu

que caem, voando, asas de papel

 

como tu, também eu sussurro

lentas sílabas à leve melancolia que nos abraça

 

REIS-SÁ, Jorge, A Palavra no Cimo das Águas

 

Jorge Reis-Sá (Vila Nova de Famalicão, 1977)
Poeta, romancista, contista e autor de antologias.

Alexandre O´Neill – Portugal
Abril 16, 2019

 

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,

linda vista para o mar,

Minho verde, Algarve de cal,

jerico rapando o espinhaço da terra,

surdo e miudinho,

moinho a braços com um vento

testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,

se fosses só o sal, o sol, o sul,

o ladino pardal,

o manso boi coloquial,

a rechinante sardinha,

a desancada varina,

o plumitivo ladrilhado de lindos adjetivos,

a muda queixa amendoada

duns olhos pestanítidos,

se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,

o ferrugento cão asmático das praias,

o grilo engaiolado, a grila no lábio,

o calendário na parede, o emblema na lapela,

ó Portugal, se fosses só três sílabas

de plástico, que era mais barato!

 

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,

rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,

não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,

galo que cante a cores na minha prateleira,

alvura arrendada para o meu devaneio,

bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,

golpe até ao osso, fome sem entretém,

perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,

rocim engraxado,

feira cabisbaixa,

meu remorso,

meu remorso de todos nós…

 

Alexandre O´Neill (Lisboa, 19/12/1924 – Lisboa, 21/8/1986)
Poeta, cronista e tradutor, fundador do Movimento Surrealista de Lisboa com Mário Cesariny, José Augusto França e António Pedro.

Carlos de Oliveira – [Mais um Dia]
Abril 16, 2019

 

Mais um dia

a uma hora de crepúsculo qualquer,

quanto mais sós nos encontrámos,

raiou de súbito nas praias

um fulgor de fogo.

 

E debruçados sobre os mares

dissemos

que foram feitos

não para o abandono

mas para neles florir

a grande e turva flor

desse fogo ainda por abrir.

 

Carlos de Oliveira (Belém do Pará, Brasil, 10/8/1921 – Lisboa, 1/7/1981)
Poeta, romancista, cronista, coautor de Contos Tradicionais Portuguesescom José Gomes Ferreira, 1953, colaborador nas revistas: Altitude,  Seara Nova e Vértice, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas.

Almada Negreiros – Ode a Fernando Pessoa
Abril 16, 2019

 

Tu que tiveste o sonho de ser a voz de Portugal

tu foste de verdade a voz de Portugal

e não foste tu!

Foste de verdade, não de feito, a voz de Portugal.

De verdade, e de feito só não foste tu.

A Portugal, a voz vem-lhe sempre

depois da idade

e tu quiseste acertar-lhe a voz com a idade

e aqui erraste tu,

não a tua voz de Portugal

não a idade que já era de hoje.

Tu foste apenas o teu sonho de ser a voz

de Portugal

o teu sonho de ti

o teu sonho dos portugueses

só sonhado por ti.

Tu sonhaste a continuação do sonho português

somados todos os séculos de Portugal

somados todos os vários sonhos portugueses

tu sonhaste a decifração final

do sonho de Portugal

e a vida que desperta depois do sonho

a vida que o sonho predisse.

Tu tiveste o sonho de ser a voz de Portugal

tu foste de verdade a voz de Portugal

e não foste tu!

Tu ficaste para depois

E Portugal também.

Tu levaste empunhada no teu sonho

a bandeira de Portugal

vertical

sem pender pra nenhum lado

o que não é dado pra portugueses.

Ninguém viu em ti, Fernando,

senão a pessoa que leva uma bandeira

e sem a justificação de ter havido festa.

Nesta nossa querida terra onde ninguém

a ninguém admira

e todos a determinados idolatram.

Foi substituído Portugal pelo nacionalismo

que é maneira de acabar com partidos

e de ficar talvez o partido de Portugal

mas não ainda talvez Portugal!

 

Portugal fica para depois

e os portugueses também

como tu.

 

Almada Negreiros (Trindade, S. Tomé, 7/4/1893 – Lisboa, 15/6/1970)
Artista multifacetado, desenhador e pintor, ensaísta, dramaturgo, romancista e poeta, colaborador da Revista Orpheu com Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro e fundador de alguns jornais.

Ruy Cinatti – Teus Olhos
Abril 16, 2019

 

Teus olhos, Honorine, cruzaram oceanos,

longamente tristes, sequiosos,

como flor aberta nas sombras em busca do sol.

Vieram com o vento e com as ondas

através dos campos e bosques da beira-mar.

Vieram até mim, estudante triste,

dum país do Sul.

 

Ruy Cinatti (Londres, 8/3/1915 – Lisboa, 12/10/1986)
Poeta, agrónomo, antropólogo, cofundador de Cadernos de Poesia.

Miguel Torga – Santo e Senha
Abril 16, 2019

 

Deixem passar quem vai na sua estrada.

Deixem passar

Quem vai cheio de noite e de luar.

Deixem passar e não lhe digam nada.

 

Deixem, que vai apenas

Beber água de Sonho a qualquer fonte;

Ou colher açucenas

A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

 

Vem da terra de todos, onde mora

E onde volta depois de amanhecer.

Deixem-no pois passar, agora

 

Que vai cheio de noite e solidão.

Que vai ser

Uma estrela no chão.

 

Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX,  galardoado com o Prémio Camões em 1989, médico.

Gil Vicente – Serranilha
Abril 16, 2019

 

A serra é alta, fria e nevosa;

vi venir serrana, gentil, graciosa.

Vi venir serrana gentil graciosa

cheguei-me per´ela com gran cortezia,

Cheguei-me per´ela com gran cortezia,

disse-lhe: “Senhora, quereis companhia?”

Disse-me: “Escudeiro segui vossa via.”

 

Gil Vicente (1465-1536)
Dramaturgo, poeta, músico, actor e encenador, considerado o pai do teatro português.

Sidónio Muralha – Boa Noite
Abril 16, 2019

 

A zebra quis

ir passear

mas a infeliz

foi para a cama

 

– teve de se deitar

porque estava de pijama.

 

Sidónio Muralha (Lisboa, 28/7/1920 – Curitiba, Paraná, Brasil, 8/12/1982)
Poeta preocupado com as injustiças sociais, escritor de literatura para crianças, integrou o Movimento Neo-Realista e o Novo Cancioneiro.