Archive for the ‘Heras e Eras’ Category

Fernando Guimarães – Metamorfose
Agosto 13, 2017

 

Ao longe viste os ramos do que somos
tocados pelo vento.  Os mesmos lábios
disseram o que em ti se espalha como
a areia, estas dunas, o prenúncio

da substância extrema que se amolda
a tudo.  E unidos ficam por mais tempos
até que sejam a dispersa forma
de se perderem num mais firme gesto

que dissipe as sementes junto aos sulcos
há muito entreabertos para serem
o lugar de repouso.  Este era o súbito

vislumbre das suspeitas que nos trazem
o impulso com que possas receber
apenas outro dom, a identidade.

 

Fernando Guimarães (Porto, 3/2/1928)
Poeta, ensaísta, tradutor, antologista, professor e investigador, licenciado em Histórico-Filosóficas.

António Feliciano de Castilho – A Solidão
Agosto 13, 2017

 

“Tem a solidão isto de comum com o silêncio e a escuridade: espanta; e aturde quem nela cai; mas, logoque o ouvido, desadormentado dos sons fortes, aprende a conversar com a mudez; tanto que os olhos,desofuscados dos luzeiros intensos, se exercitam em caçar espectros de raios. fosforescências indecisas, que são como que os infusórios das trevas, descerrou-se o negrume em brilhantismo, a calada aviventou-se de diálogos, a solidão, que parecia o nada, é o teatro com o seu drama, é um mundo novo com um sistema completo de existências imprevistas e apropriadas.

Que admira?

A solidão medita, e a meditação cria.

Os sentidos pastam só no que lhes oferecem a natureza, a fortuna, o acaso: a divindade interior, a alma,tem comércios inefáveis com o íntimo e ignorado.

S. João, entre os nevoeiros de Patmos, divisa uma Jerusalém celeste; nas cogitações de Sócrates, aparece o Omnipotente;

nos êxtases de Platão. reflexos daTrindade;

nos cálculos taciturnos de Galileu, firma-se o céu, volteiam as plantas: Colombo faz surgir do fundo dos mares a América;

Leverrier, mais globos no espaço;

Fulton, o hipógrafo, o pégaso do vapor,magia, poesia, potência escrava do homem, e dominadora, primeiro dos oceanos, depois dos continentes e amanhã, talvez, dos ares;

a solidão cismadora dá a Eneida a Virgílio, mostra a Lineu os amores e o sono das plantas, a Dante o Inferno, a Fourier o paraíso terrestre, a Newton e a Laplace o código dos astros, a Daguerre os talentos artísticos do Sol, ao Gama o caminho do Oriente, ao soldado Camões o da imortalidade, põe na mão de Gutembergue a chave do cofre das ciências, na de Vicente de Paulo a da caridade, na de Say a da riqueza pública, na de Pestalozzi e Froebel a da escola séria e fecunda.”

 

CASTILHO, António Feliciano, A Chave do Enigma

 

António Feliciano de Castilho (Lisboa, 28/1/1800 – Lisboa, 18/6/1875)
Escritor romântico, pedagogo.

Amália Rodrigues – Asa de Vento
Agosto 13, 2017

 

Sou charneca sou monte, brisa a correr ligeira
Sou água fresca a correr na fonte
Sou rosa da roseira

Sou o cheiro das flores, fé do meu pensamento
Filha d’amores, irmã das dores
Sou mãe do sofrimento

Tenho no peito um pássaro encarnado
Que anda sem jeito, a mim amarrado

Sou charneca sou monte, sou noite enluarada
Flor de alecrim, ramo de jasmim
Sou papoila encarnada

Sou flor de primavera, sou sonho de verão
Planície aberta, praia deserta
Que espera a tua mão

Coração fruto que é maduro e verde
Meu choro enxuto, dor que se não perde

Sou charneca sou monte, sou manhã perfumada
Planície aberta, praia deserta
Sou ilha abandonada

Sou charneca sou monte, verde fruta colhida
Erva cidreira, mansa oliveira
Sou lágrima perdida

Asa de vento, inimiga da sorte
Roseira brava, não há quem me corte

Amália Rodrigues (Lisboa, 1/7/1920 — Lisboa, 6/10/1999)
Fadista, cantora e actriz, reconhecida como a Rainha do Fado a nível mundial.

João de Deus – Agora!
Agosto 7, 2017

A Luz que dá o teu rosto

É a luz da madrugada,

Mas vi-a quase ao sol-posto

De uma vida amargurada…

tão tarde vi o teu rosto!

 

Oh! Se na manhã da vida

Me raia logo essa aurora,

Quando folha e flor caída

Me embelezara inda agora

O triste arbusto da vida!

 

Mas andei sempre às escuras…

Por onde nem sol se lobriga

Luz de estrelas nas alturas,

Quanto mais em face amiga…

Eu andei sempre às escuras!

 

E agora, vendo a beleza

Dessa luz que me alumia,

Não sei se a minha tristeza

É mais que a minha alegria…

Vendo agora essa beleza!

 

João de Deus (S. Bartolomeu de Messines, 8/3/1830 – Lisboa, 11/1/1896)
Poeta lírico, jornalista, tradutor, pedagogo, autor da Cartilha Maternal, licenciado em Direito.

António Feijó – Rondó
Agosto 7, 2017

(A uma Desconhecida)

 

As tuas cartas vêm tocadas

duma ideal melancolia

não sei quem és, e todavia

beijo essas letras desmaiadas.

Como as violetas perfumadas

que a sombra esconde à luz do dia,

as tuas cartas vêm tocadas

duma ideal melancolia.

Nas minhas horas tresloucadas,

horas de febre e de agonia,

como esperança fugidia,

de mil quimeras iriadas,

as tuas cartas vêm tocadas…

 

António Feijó (Ponte de Lima, 1/6/1859 – Estocolmo, 20/6/1917)
Poeta e diplomata, fundador da Revista Científica e Literária com Luís de Magalhães – 1880, Coimbra -, colaborador nas revistas: Arte, A Ilustração Portuguesa, O Instituto, Novidades, Museu Ilustrado, licenciado em Direito.

Ana Hatherly – A Matéria das Palavras
Agosto 7, 2017

Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.

É a hora do infinito desacerto-acerto.

 

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras

matéria insensível de um poder esquivo.

 

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.

Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

 

Aspiramos à alta liberdade

um bem sempre suspenso que nos crucifica.

 

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos

e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

 

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma perfeição

especialista em fracassos.

 

Estrangeiros sempre

agudamente colhemos os frutos discordantes.

 

Ana Hatherly (Porto, 08/05/1929 – Lisboa, 05/08/2015)
Poetisa, ensaísta, romancista, investigadora, tradutora, artista plástica, professora universitária, licenciada em Filologia Germânica e doutorada em Estudos Hispânicos, diplomada em cinema, foi uma das fundadoras do PEN Clube Português, que presidiu, membro da Direção da Associação Portuguesa de Escritores e fundou as revistas Escuro-Claro e Incidências.

Isabel de Sá – “Eu ela e a escrita…”
Agosto 4, 2017

Eu ela e a escrita existimos desde o princípio.

A escrita forma-se em mim, passa por ela e volta à minha pele  num jogo sensual e íntimo.

É um ser maleável aos gestos que executamos, vive e morre com os nossos impulsos.

Quando se ausenta deixa sinais.

Faz-nos confidências da sua vida errante, elabora sentimentos que não esperávamos que tivesse quando junta ao nosso, o seu instinto criativo.

Assim, utilizo agora palavras que nunca pensei vir a escrever…

Aceito-as porque as sei da espécie da personagem que habita connosco, conivente com os erros que cometemos.

 

Quando adolescente, passava o tempo a ler o dicionário, apercebendo-me da corrosão de algumas palavras, do seu poder destrutivo.

Noutras havia sombra e um peso monstruoso.

E as que ao tempo foram luminosas, irradiavam um brilho que se colou aos meus dedos.

Eu gastava os dias a limpar-me dessa luz até não haver em mim resíduos de leitura.

Descobria o esquecimento, onde o poema veio a ser abismo, outra vida onde o sorriso da morte teve muita importância.

Amei a imperfeição do ser humano.

Revisitei a infância e aquilo que em nós é real.

Não soube prescindir da beleza.

 

Isabel de Sá (Esmoriz, 08/09/1951)
Poetisa, pintora e professora, licenciada em Artes Plásticas.

Joseia Matos Mira – O Primeiro e o Último
Agosto 3, 2017

Aninhemo-nos no silêncio
Onde se revela a liquidez do olhar
O voo da libelinha
A remada dos gansos selvagens
Rasando copas tintas de verde-azul

E

Esquecidos de nós, de carne que é tormento
Sob o sol, sentemo-nos, aqui
No desabafo do monte que é o vale
Junto ao sopé onde goteja a fonte
E a inocência permanece.

 

MIRA, Joseia Matos, Trans-Lúcido, 2006

 

Joseia Matos Mira (Baleizão, Beja)
Romancista, contista e poetisa.
Professora do ensino secundário e superior, licenciada em Filologia Românica, doutorada em Literatura Francesa.

Deodato Guerreiro – Balada para uma Ceifeira
Agosto 3, 2017

 

Ceifeira do Alentejo
Há quanto tempo não vejo
Teu corpo ceifando o trigo.
Teu rosto moreno ao sol,
Minha eira, meu farol
Meu deserto e meu amigo.

Ceifeira do Vale do Sado
Diz esta sina este fado
Hás-de ser noiva em Agosto.
Que o pastor que ao longe canta
Transporta o sol na garganta
Para o trigo do teu rosto.

Ceifeira do Alentejo,
Tua voz dá cor ao brejo
Da charneca és a princesa.
Rosa brava junto à sebe,
Água fresca em minha sede,
És ganhã, mas tens nobreza.

Ceifeira da minha terra,
Vou pedir àquela serra
Que te alpendre junto aos céus.
Que as santas são destinadas
A acordar as madrugadas
Na mão direita de deus.

Ceifeira do Alentejo,
Ai, que saudades do trigo,
Que lembranças do poejo.
Saudades de quando eu era
mais alto que a primavera,
Tamanho do Alentejo.

In Para Alvalade, Com Amor

Augusto Deodato Guerreiro (Alvalade Sado, 17/01/1949)
Poeta, autor de vários livros e outras publicações .
Licenciado em História, especializado em Ciências da Comunicação, Doutor em Ciências Documentais, Professor universitário.

Alves Redol – “Recomendação” a Baptista Bastos
Agosto 1, 2017

 

“Vocês, os mais novos, vão ter belas coisas para fazer. Nessa altura, se o merecer, lembrem-se de mim.” – entrevista a BB para o República, por ocasião dos vinte anos de publicação de “Fanga”.

 

Baptista Bastos, Revista Seara Nova, N.º 1717 Outono 2011, publicado em “Cultura”

 

Alves Redol (Vila Franca de Xira, 29/12/1911 – Lisboa, 29/11/1969)
Romancista, dramaturgo, cronista, contista, introdutor do neo-realismo em Portugal com a obra Gaibéus (1939).