Archive for the ‘Heras e Eras’ Category

João Luís Barreto Guimarães – Este Poema
Junho 24, 2017

 

este poema foi escrito ontem hoje não
vou escrever (na face nego sorrisos como
quem fecha janelas) hoje só preciso

de mim (este poema é grátis: não está
incluído no preço do livro). hoje não
tocarei o corpo da Corona Four uma

azerty americana já com uma certa
idade (ainda é das que escreve poesia a
preto e ranco) faz um mês que se

perdeu a tecla da letra « » só por isso não

tenho escrito sobre o rilho dos teus
olhos. o meu copo está vazio (hoje
não é poedia) depois eu mando alguém
uscar as minhas palavras

João Luís Barreto Guimarães (Porto, 3/6/1967)
Poeta e cirurgião plástico.

José Manuel Mendes – “não voltarás”
Junho 17, 2017

 

não voltarás
olhando as ruas
na vidraça nua os zimbros
da terra ocre

moras secreta nestes barros
tua flauta canta nas montanhas
pedras e trepadeiras se enroscam
perto do teu rosto
e são de
água

sabes plantar o odor
dos frutos
tangerina limão
pássaras orvalho
a nervura das manhãs
e o lume dos poemas
quente metalurgia
das palavras

como ontem (tu eras morta)
prolonga-te nestas mãos
no maio das rotas
de abril
tecidas

MENDES, José Manuel, Rosto Descontínuo

José Manuel Mendes (Luanda, Setembro de1948)
Poeta, ficcionista, cronista e ensaísta, licenciado em Direito, professor universitário.

José Miguel Pinheiro de Oliveira – Eu queria de ti um país
Junho 17, 2017

 

Queria de ti um país
como aquele em que viveu Cesariny.
Não fui ainda capaz de te dizer, sabes:
You are Welcome to Elsinore.

Para fazer de ti um país
atravessaria os muros habitados da fronteira
rasgava as cartas de marear culpadas de naufragar
a partia outra vez numa casca de noz rumo ao Oriente.

Eu queria de ti um país
e escutar silêncio na onda do teu sopro
ao meu ouvido encantava apenas ouvir-te respirar
para comprovares a verdade anatómica dos meus músculos
seria marinheiro sem saber nadar
morreria afogado na corrente dos teus olhos
pela luz queme deste a estes versos
com o músculo liso do coração aos tropeços.

Não fui capaz de te dizer que vi em ti o meu país
pequeno
do tamanho do meu quarto.

Nos teus lábios os meus nasceriam certamente
como as flores que nascem em Maio
geograficamente inclinadas para a nascente.

Por isso vem visitar-me
outro dia, outra noite:
You are always welcome to Elsione.

Farei dos versos um país com casas, caminhos, pontes
e de ti uma caixa de ressonância para o meu canto do cisne
Agora.

Porque a morte pode não me querer esperar
e eu quero um país para morrer.

Badajoz 2007

(poema premiado, 2.º lugar, na IX edição do concurso nacional de poesia
Agostinho Gomes – Oliveira de Azeméis 2008)

In Nova Antologia de Poetas Alentejanos

 

José Miguel Pinheiro de Oliveira (Delães, Vila Nova de Famalicão, 26/05/1973)
Escritor, licenciado em Filosofia, professor no Alentejo.

Santo António – Os Vilãos e os Pobres
Junho 15, 2017

“O pálio vermelho (…) representa a substância dos pobres alcançada com o suor e com o sangue, e usurpam-na os cavaleiros, os burgueses, os usurários e os avaros.

Os poderosos e os ricos do século roubam os pobres, a quem chamam os seus vilãos. Mas os verdadeiros vilãos do Diabo são esses que de mil maneiras sugam o sangue e a substância dos pobres.”

 

SARAIVA, António José,  A Cultura em Portugal, Teoria e História, Livro II,  Primeira Época: A Formação

António Osório – Camões
Junho 15, 2017

 

Lia-me Camões meu Pai.

A tristeza de ambos

se juntava, em mim crescia.

E a voz, a inalterável

mergulhia das palavras

procriavam sarmentosos liames.

(Basílico a Mãe depunha no lume,

a carne com alecrim perfumava).

O livro de carneira negra,

as letras juntas em oiro:

morros, alusões, muros

verdentos, o último da vida ouvia.

Amor doía, emaranhava.

Mordaça invisível. Em lágrimas,

minhas, de meu Pai e de Camões, voava.

 

António Osório [de Castro] (Setúbal, 1/8/1933)
Poeta, colaborador das revistas: O Tempo e o Modo, Seara Nova, Vértice e Colóquio/Letras, um dos fundadores da Anteu, 1954,  licenciado em Direito.

José de Alencar – A Poesia
Junho 15, 2017

“A poesia, como todas as coisas divinas, não se define; uma palavra a exprime, porém mil não bastam para explicá-la. (…)”

ALENCAR, José de, Iracema, “Cartas sobre A Confederação dos Tamoios”, Quarta Carta

José de Alencar (Fortaleza, 1/5/1829 – Rio de Janeiro, 12/12/1877)
Romancista, cronista, dramaturgo, crítico, jornalista, orador, polemista, político, advogado.

Joaquim Namorado – Poeta
Junho 15, 2017

A poesia é uma máquina
de produzir entusiasmo
e é preciso que os versos sejam verdadeiros
na vida dos poetas
como a tua mão erguida
sobre os anos futuros
quando o próprio bronze das estátuas se cobrir
do verdete do esquecimento
e das urtigas
entre as ruínas de um passado morto
e as pequenas plaquetes dos sentimentos pobres
dos líricos delírios
das doidas metáforas sem sentido
louvadas pela crítica
só tiverem o arqueológico encanto
de um cabelo de Ofélia…

Então
os teus versos estarão na primeira fila dos pioneiros
cobertos de cicatrizes
porque fizeram todo o caminho do tempo
multiplicados por milhões de vozes
pela alta potência dos alto-falantes
como uma bandeira erguida
sobre os anos futuros.

 

Joaquim Namorado (Alter do Chão, 30/6/1914 – Coimbra, 29/12/1986)
Poeta, ensaísta, um dos iniciadores do Neo-Realismo, colaborador das revistas: Seara Nova e Vértice, bem como de outras publicações, licenciado em Ciências Matemáticas, professor catedrático.

Soror Violante do Céu – Canção
Junho 15, 2017

 

Amante pensamento,
Núncio de amor, correio da vontade,
Emulação do vento,
Lisonja da mais triste soledade,
Ministro da lembrança,
Gosto na posse, alívio na esperança,

Já que de minhas queixas
A causa idolatrada vás seguindo,
Diz-lhe qual me deixas:
Diz-lhe que estou morta, mas sentindo,
Que pode mal tão forte
Fazer que sinta (ai triste!) a mesma morte.

Diz-lhe que é já tanto
O pesar de me ver tão dividida,
Que só me causa espanto
A sombra que me segue de üa vida
Tão morta para o gosto
Como via (ai de mi!) para o desgosto.

Diz-lhe que me mata
Quem, vendo-me morrer sem resistência,
De socorrer-me trata,
Pois para quem padece o mal de ausência
Que é só remédio entendo
Ver o que quer ou fenecer querendo.

Diz-lhe que a memória
Toma por instrumento do meu dano
A já passada glória,
Fazendo o mais suave tão tirano,
Que o bem mais estimado

Diz-lhe que se sabe
O poder de üa ausência rigorosa,
Que a que começa acabe
Antes que ela me acabe poderosa,
Pois de tal modo a sinto,
Que julgo ter por eterno o mais sucinto.

Diz-lhe que se admite
Rogos de um coração que o segue amante,
Que ver-me solicite
Apesar do preciso e do distante,
E que tão cedo seja
Que toda a compaixão se torne inveja.

Diz-lhe que se acorde
De uns efeitos de amor que encarecia,
E que todos recorde,
Mas que seja um minuto cada dia,
Pois eu cada minuto
Infinitas lembranças lhe tributo.

Diz-lhe que até à morte
Assistência contínua lhe ofereces,
E que te invejo a sorte;
E enfim, se de meu mal te compadeces,
Ó pensamento amigo,
Diz-lhe tudo, ou leva-me contigo.

 Soror Violante do Céu (Lisboa, 30/05/1601(ou 1607) – 28/01/1693)
Poetisa e prosadora, autora de uma comédia, aos 16 A, foi conhecida pela Décima Musa e Fénix dos Engenhos Lusitanos, Professou em 1630.

Xanana Gusmão – Oh! Liberdade!
Junho 15, 2017

(Para Sandra Lobo, Lisboa)

Se eu pudesse
pelas frias manhãs
acordar tiritando
fustigado pela ventania
que me abre a cortina do céu
e ver, do cimo dos meus montes,
o quadro roxo,
de um perturbado nascer do sol
a leste de Timor

Se eu pudesse
pelos tórridos sóis
cavalgar embevecido
de encontro a mim mesmo
nas serenas planícies do capim
e sentir o cheiro de animais
bebendo das nascentes
que murmurariam no ar
lendas de Timor

Se eu pudesse
pelas tardes de calma
sentir o cansaço
da natureza sensual
espreguiçando-se no seu suor
e ouvir contar as canseiras
sob os risos
das crianças nuas e descalças
de todo o Timor

Se eu pudesse
ao entardecer das ondas
caminhar pela areia
entregue a mim mesmo
no enlevo molhado da brisa
e tocar a imensidão do mar
num sopro da alma
que permita meditar o futuro
da ilha de Timor

Se eu pudesse
ao cantar dos grilos
falar para a lua
pelas janelas da noite
e contar-lhes romances do povo
a união inviolável dos corpos
para criar filhos
e ensinar-lhes a crescer e a amar
a Pátria Timor!

Cipinang, 8 de Outubro de 1995

 

José Alexandre “Kay Rala XananaGusmão (Timor, Manatuto, 20/6/1946)
Político, primeiro Presidente da República de Timor-Leste.

Vasco Pereira Costa – Pausa
Junho 15, 2017

Ao fundo a ilha de São Jorge azul e ausente.
Bastou uma pouca de chuva para que tudo
ficasse verde e frio de repente.

Sei dos meus negócios com o mundo…
Mas agora deixem que arrede a cortina,
que meus olhos se pintem de verdazul
e que goste o licor de tangerina.

COSTA, Vasco Pereira da,  O Fogo Oculto

Vasco Pereira da Costa (Angra do Heroísmo, 1948)
Contista, novelista, romancista, poeta, galardoado com o 1.º Prémio Miguel Torga, 1984, professor, pintor com o pseudónimo Manuel Policarpo.