Grupos Naturais – Dar ao Badalo / Dar ao Dedo / Dar ao Dente (ou ao Queixo) / Dar ao Demo / Dar ao Gatilho / Dar ao Inventário / Dar ao Manifesto

Março 13, 2017 - Leave a Response

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

 

Dar ao badalo – falar.

Ex.: Tudo isto aconteceu, porque ele deu ao badalo.

 

Dar ao dedo – trabalhar: costurar, fazer malha, etc.

Ex.: A Ana levou a tarde a dar ao dedo.

 

Dar ao dente (ou ao queixo) – mastigar, comer.

Ex.: Durante a festa, a Rita não parou de dar ao dente.
O Zeca deu ao queixo a noite inteira.

 

Dar ao demo (diabo) – amaldiçoar, mandar par o inferno.

Ex.: Ela deu ao demo os mexericos das colegas.

 

Dar ao gatilho – disparar a arma.

Ex.: Em tempo de guerra, os soldados dão ao gatilho.

 

Dar ao inventário – fazer a descrição completa de…

Ex.: Após o falecimento do pai, ela teve de dar ao inventário todos os bens.

 

Dar ao manifesto – declarar pormenorizadamente.

Ex.: O contrabandista foi obrigado a dar ao manifesto toda a mercadoria que transportava.

(continua)

Maria Assunção Vilhena – Em Sines, “A Banhos” (Continuação)

Março 12, 2017 - Leave a Response

“Iam para a praia ao romper do dia e tomavam logo banho com qualquer peça de roupa interior: as mulheres com a camisa de paninho branco com refegos e bordados, até ao joelho, e os homens com ceroulas de riscado ou de pano cru com nastros atados nos tornozelos e camisola com mangas.

Quando saíam da água, tiritando de frio e com a roupa colada ao corpo, corria logo alguém da família em seu socorro, levando-lhes uma toalha que de nada servia, porque primeiro tinham de os ajudar a despir a roupa encharcada, o que era o cabo dos trabalhos.

Acudiam então mais familiares com mantas com que faziam uma espécie de barraca que encobria a vítima até ao pescoço e dentro da qual ela se debatia contra os trapos molhados a coberto dos olhares indiscretos dos curiosos…

Era então que a toalha tinha utilidade, embora o corpo húmido demorasse a manobra de vestir.

Acabado esse trabalho, ainda batendo o queixo de frio, enrolavam-se nas mantas e toca a subir a encosta a caminha da vila, sem terem sequer apanhado uns raiozinhos de sol…

Havia outros que, certamente por causa do reumatismo, tomavam banhos quentes no edifício próprio* e, bem agasalhados com capotes ou mantas alentejanas, engrossavam a procissão de banhistas, que era uma espectáculo digno de ser visto…”

(…)**

E foi porque meu pai continuou a ter trabalho no transporte do peixe durante alguns Verões que continuámos a ir a banhos.

Ocupávamos sempre a mesma casa e tínhamos sempre os mesmos vizinhos; até os banhistas eram os mesmos e assim fizémos grandes amizades.

De ano para ano, no entanto, notavam-se algumas diferenças – as crianças cresciam, os pais e avós envelheciam e, na praia, tudo se foi modificando: as barracas e toldos, mais banhistas que se conservavam mais tempo na praia e tomavam novos hábitos.

Era sobretudo ao domingo que ia mais gente. Os do monte levavam grandes farnéis que estendiam sobre toalhas brancas muito esticadas na areia e passavam lá o dia, à sombra dos toldos.

Geralmente aparecia um fotógrafo com uma máquina de fole sobre um tripé e uma cortina preta onde metia várias vezes a cabeça, o que muito nos intrigava. Talvez por isso, nas fotografias que a minha mãe nos mandava tirar ficávamos sempre com cara de ponto de interrogação…”

 * Imagem legendada publicada em 2008/08/07 com o título: “Sines, Banhos Quentes”

**  Pode ler-se: “Sines, o Banho de 29” publicado em 2009/08/29

VILHENA, M. Assunção, Gente do Monte

Maria Assunção Vilhena (Santiago de Cacém)
Concluiu o Curso de Professora do Ensino Primário em 1948, posteriormente licenciou-se em Filologia Românica e lecionou Francês na sua terra natal.
Dedicou-se ao estudo da Etnologia da Beira-Baixa e editou obras neste âmbito.

 

 

Manuel Alegre – E Alegre se Fez Triste

Março 12, 2017 - Leave a Response

Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno agosto.

Ela só viu meus dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.

A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.

E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer-me adeus: essa palavra
que fez tão triste a clara madrugada.

 

Manuel Alegre (Águeda, 12/5/1936)
Poeta, prosador e político português.

Carlos Queirós – Pastoral

Março 12, 2017 - Uma resposta

Por ser tão leve o teu passar
Na estrada, à tarde, quando vens
De pôr o gado que não tens,
A pastar…

Por ser tão brando o teu sorrir,
Tão cheio de feliz regresso
Do longo prado, onde apeteço
Contigo ir…

Por ser tão breve o teu querer
Alguém que perto de ti passe
E, porque a tarde cai, te abrace.
Sem nada te dizer…

Por ser tão calmo o teu sonhar
Que já é tempo de não ter
Esse rebanho de pascer,
Mas outro de amamentar…

É que eu me perco no caminho
Do grande sonho sem janelas,
De estar contigo no moinho,
Sem o moleiro nem as velas.

 

Carlos Queirós (Lisboa, 5/4/1907 – Paris, 27/10/1949)
Poeta modernista, um dos grandes vultos da Revista Presença.

Alice Rosa Branco – Hora de Ponta

Março 12, 2017 - Leave a Response

 
Apanhar um lugar a esta hora é uma sorte, poder olhar
pela janela e fingir que tenho imunidade diplomática,
que estou de lá do vidro com o hálito das folhas, o sabor
a hortelã e um ar fresco interrompido pela velha senhora
a quem cedo o assento e um sorriso enquanto me agradece
de nada, de ir agora em pé empurrada, de cá do vidro
a apanhar uma overdose de realidade com o bafo quente
do homem gordo na minha orelha, com a mão livre
apertada contra o peito, contra o visco da hora apinhada
na minha pele pública, na minha pele de todos.
No banco em frente uma mulher afaga a neta com o sorriso
doce e cansado, os olhos brilhantes, a candura intacta
toma-me toda como se eu fosse um anjo
descendo à terra com um corpo real para que a minha pele
receba a dádiva da tua, aceite os cheiros de um dia de trabalho,
o calor excessivo, a proximidade insustentável e leia no teu rosto
cada mandamento nos solavancos que nos atiram uns para
os outros. No teu rosto ã hora de ponta aprendo a compaixão
até sair na próxima paragem com um suspiro de alívio.

 

Rosa Alice Branco (Aveiro, 1950)
Poetisa, mestre em Filosofia do Conhecimento.

Ana Marques Gastão – Intuições d´ Uva

Março 10, 2017 - Leave a Response

Das uvas o cacho, os braços,
do vinho os rios, ínfimos caudais;
do livro, a citação; do amor
a renúncia ou quase nada querer;
da pele o xisto, do corpo o mel
em texto de boca, do lápis
a rosa-louca, imóvel de se mover
em ponto fixo, pois quando
nasce, único, o fruto, deixa a flor
de ser perplexa em seus espinhos.

Ana Marques Gastão (Lisboa, 1962)
Poetisa, crítica literária, colaboradora de diversas pubçicações, licenciada em Direito .

Dificuldades da Língua Portuguesa – A “Vez”, as “Vezes” e a Vírgula

Março 10, 2017 - Leave a Response

As locuções abaixo indicadas, porque, em regra, iniciam orações novas , devem ser precedidas por vírgula:

Uma vez quelocução conjuncional subordinada condicional.

Ex.: A minha tia disse que voltaria para Portugal, uma vez que estão reunidas as condições.

 

Cada vez (em) quelocução conjuncional subordinada temporal.

Ex.: O Júlio fica mal-disposto, cada vez que como cozido.

 

Todas as vezes (em) quelocução conjuncional subordinada temporal.

Ex.: Darei comida aos sem-abrigo, todas as vezes (em) que for à Baixa.

Sophia – O Nascer do Poema

Março 7, 2017 - Leave a Response

“(…) É-me difícil, talvez impossível, distinguir se o poema é feito por mim, em zonas sonâmbulas de mim, ou se é feito em mim por aquilo que em mim se inscreve. Mas sei que o nascer do poema só é possível a partir daquela forma de ser, estar e viver que me torna sensível – como a película de um filme – ao ser e ao aparecer das coisas. E  a partir de uma obstinada paixão por esse ser e aparecer. (…)”

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Obra Poética II

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o Prémio Camões (1999)

Eça de Queirós – Cartão de Aniversário ao Filho

Março 7, 2017 - Leave a Response

“[Lisboa, 6.4.1898]

Mon Bebert cheri
Je t´embrasse bien fort. J espere que tu a etè bien gentil. Il faut tacher de m eccri-
re. Gros baiser tom peti pere

Je.

“Meu querido Bebert

Beijo-te muito eternamente. Espero que te tenhas comportado bem. Procura escrever-me. Grande beijo do teu papá

Je”

Nota: “Eça de Queiroz escreve ao filho mais novo no dia do seu aniversário: Alberto completava então 7 anos.”

QUEIRÓS, Eça, A Arte de Ser Pai

Eça de Queirós (Póvoa do Varzim, 25/11/1845 – Paris, 16/8/1900)
Diplomata e escritor, considerado o melhor escritor realista português do séc. XIX.

Maria Teresa Horta – Península

Março 7, 2017 - Leave a Response

Recolho-te do hálito
o rigor
a temperatura esparsa
numa espécie
de península branca que na chuva
é contraponto espesso
que me aquece

HORTA, Maria Teresa, Antologia Poética

Maria Teresa Horta (Lisboa, 20/5/1937)
Poetisa, colaboradora de diversos jornais e revistas, pertenceu ao grupo Poesia 61 e aos movimentos cineclubista e feminista, co-autora do livro: Novas Cartas Portuguesas (1972) com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, tendo ficado conhecidas internacionalmente por: “As Três Marias”.