Branca Gonta Colaço – Páscoa

Abril 23, 2017 - Leave a Response

 

Páscoa…

 

Já volta a Páscoa… E como Abril vem lindo!…

Incenso ao ar subindo

de toda a terra em flor…

Velho ritual a desdobrar-se eterno!…

Eu compreendo: – É necessário o Inverno;

é necessária a dor,

 

para que aos corações, é à natureza,

depois dessa tristeza,

volte um prazer subtil…

Para que ao sol, depois da noite escura,

rebrilhe a formosura…

E torne a ser Abril.

 

Deus, que renova os sonhos e os poetas,

a luz e as borboletas,

eternamente moças tornará

as velhas frases, que ao correr das eras,

em idas primaveras

tantos disseram já:

 

Aleluia, Aleluia!… Hossana, Hossana!…

– Que estranho encanto emana

deste festivo som!… –

Oh meu amor, – o bem que nos queremos!…

Como é bonito o mundo em que vivemos…

– E como Deus é bom!…

 

Branca Eva de Gonta Syder Ribeiro Colaço (Lisboa, 8 de Julho de 1880 — Lisboa, 22 de Março de 1945)
Poetisa, dramaturga, conferencista, recitalista, erudita e poliglota.
Filha  de Tomás Ribeiro.

Tomás Ribeiro – Bençãos

Abril 23, 2017 - Leave a Response

 

Bem hajas, oh luz do sol,
Dos órfãos agasalho e manto,
Imenso, eterno farol
Deste mar largo de pranto!

Bem hajas, água da fonte,
Que não desprezas ninguém!
bem haja a urze do monte,
Que é lenha de quem não tem!

Bem hajam rios e relvas,
Paraíso dos pastores!
Bem hajam aves das selvas,
Música dos lavradores

Bem haja o reino dos céus,
Que aos pobres dá graça e luz!
Bem haja o templo de Deus,
Que tem sacramento e cruz!

Bem haja o cheiro da flor,
Que alegra o lidar campestre;
E o regalo do pastor,
A negra amora silvestre!

Bem haja o repouso à sesta
Do lavrador e da enxada;
E a madressilva modesta,
Que espreita à beira da estrada!

Triste de quem der um ai
Sem achar eco em ninguém!
Felizes os que têm pai,
Mimosos os que têm mãe!

Tomás António Ribeiro Ferreira  (Parada de Gonta, Tondela, 11/07/1831c – Lisboa, 06 02/1901)
Político, poeta e escritor, colaborador de vários jornais e revistas, licenciado em Direito.
Pai da  poetisa Branca de Gonta Colaço e avô do escritor Tomás Ribeiro Colaço.

Tiago Torres da Silva – Um Escritor de Olhos Tristes

Abril 23, 2017 - Leave a Response

 

“Há muito tempo que o observava de longe. Conhecia-lhe as palavras e, por vezes, fugia delas pela angústia, pela tristeza, pelo desespero.

Conhecia a magreza triste do seu corpo, os piercings desalinhados, os olhos de menino abandonado que procura, que procura, que anda à procura…

Ouvi falar dele a muita gente. Que o amava. Ou que não… e observava-o de longe.

Ele é escritor, mas não como eu. Ele é um escritor a sério. Dedicado. Paciente. Interessado. E eu invejava-lhe isso – a paciência, a dedicação. Mas sempre fugi da angústia da escrita. Porquê escrever?, para quê escrever?, são perguntas que nunca se me colocam porque o prazer da escrita suplanta em mim todas as angústias, todas as dúvidas. Escrever faz-me inteiramente feliz e, como, neste terra, só tenho uma vida, sinto-me que a minha primeira obrigação é ser feliz. Ele parecia que não podia ser por causa dos olhos, por causa das palavras… (…)”

(continua)

In JL, “Debate-papo”, 22 Novembro – 5 Dezembro 2006

 

Tiago Torres da Silva (Lisboa, 29/12/1969)
Poeta, ficcionista, cronista, letrista, dramaturgo, encenador, engenheiro zootécnico.

Urbano Tavares Rodrigues – A Arte

Abril 23, 2017 - Leave a Response

 

“(…) Continuo a acreditar (sempre acreditei) que a arte tem de ser plenamente livre e que é, de facto, um meio de conhecimento do homem e do mundo. (…)

A escrita é para mim, ou deve ser, obra de arte. Gostaria de criar uma língua só minha, com uma imagética, uma sintaxe e uma música próprias. Ao mesmo tempo desejo comunicar com os homens do meu tempo, procurar através das palavras o conhecimento, ou seja a minha funda relação comigo e com o mundo. (…)”

In JL, “Confissões de um Escritor”, Terça-feira, 25 de Janeiro de 1994

 

Urbano Tavares Rodrigues (Lisboa, 6/12/1923 -Lisboa, 09/08/2013)
Ficcionista, investigador, ensaísta, crítico literário, jornalista, professor universitário.
Pai da escritora Isabel Fraga, esposo de Maria Judite de Carvalho, falecida em 1998.

Maria José Lascas Fernandes – Desejo

Abril 9, 2017 - Leave a Response

Escreves amor em papel perfumado
o teclado

poesia de açucenas e vulcânicas lavas!

a terra greta a ânsia
sementes germinam a esperança

o corpo sabe a inutilidade das palavras!

 

In plenitude, 2.ª edição, Ed. de autor, Porto, 2006

 

Maria José Lascas Fernandes (Lavre, Montemor-o-Novo, 20/02/1962)
Poetisa, Magistrada do Ministério Público.

José Luís Peixoto – A Mulher Mais Bonita do Mundo

Abril 9, 2017 - Leave a Response

 

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

 

PEIXOTO, José Luís, A Casa, a Escuridão

 

José Luís Peixoto (Galveias, Ponte de Sor, Setembro de 1974)
Poeta, romancista, dramaturgo, colaborador de diversas publicações nacionais e estrangeiras, licenciado em LLM, variante de Inglês Alemão.

Maria Teresa Horta – Carta Última para Maria Isabel Barreno (2.ª Parte)

Abril 9, 2017 - Leave a Response

“Escrevo, Isabel,

carta última,

como as que nós três escrevemos

no final de Novas Cartas Portuguesas,

nosso livro de denúncia, resistência,

levantamento e grito.

Então, perguntando, sublinhando:

” – Minhas irmãs: / Mas o que

pode a literatura? Ou antes: o que

podem as palavras?”

Interrogando também:

– “Sagacidade? Insegurança?

Ambiguidade posta?

(…)”

E ainda:

– ”  Ó terra! Ó Portugal! Ó tanta

largueza! Será possível que me falte o

ar e na realidade esteja presa?”

 

Vozes,

imaginários, interrogações, fic-

ções, testemunhos de cada uma de

nós ao darmos por terminado Novas

Cartas Portuguesas. Mas, então,

quantas dúvidas, quantos textos ina-

casados ou ainda por escrever, quan-

ta insatisfação sem querer abandonar

o nosso escrever comum, o nosso riso

a três diante da vida

“Tentei regressar assim ao meu

princípio?” – indagou pois uma de

nós…

Tornando ao nosso início.

Asa de velejar o mundo,

Isabel,

sem entendermos o real tamanho

da nossa desobediência e do nosso

desafio ao confrontarmos frontal-

mente a sociedade portuguesa fascista

e mais tarde a encarar o mundo,

olhos nos olhos.

 

Escrevo, Isabel,

carta última,

diante da tua súbita partida, que

me fez recordar de novo nós três

quando na escrita, juntas e unas, em

tempo de desmesura frente à vida,

que nessa altura nos exigia tudo.

Quando, hoje sem ti,

sinto-me ficar de súbito, sem es-

teio, nesta súbita e irracional vontade te pedir:

– Não vás já, Isabel

não vás ainda embora. Tu perene-

ces aos tantos sentimentos inacaba-

dos e tão

perdidos

sentidos.

 

Consciente de que nunca mais

nos olharemos as duas, ora na luz dos

poemas, ora nos esconderijos, nas es-

curidades das cisternas, nos labirintos

das escritas

 

Repara, Isabel

quanta memória inacabada! –

Gostaria de te dizer, no tanto que

ainda fica por escrevermos!

As rosas serão de condição

sangrante – sabíamos, olhando pela

fresta da claridade.

Perplexas diante das nossas

vidas…

Tal como então escrevemos:

– ” O que nos resta depois disto?

Mas o que nos restava antes disto?

Penso que bastante menos: muito

menos, mesmo.

E em boa verdade vos digo: que

continuamos sós mas menos desam-

paradas.”

 

Magnificat!

 

Maria Teresa Horta.

Lisboa, 11 de setembro de 2016

 

* A  autoria de cada um dos trechos de Novas

Cartas Portuguesas, transcritos entre aspas, é assumida em conjunto pelas três

autoras.”

 

In JL, 14 a 27 de setembro de 2016

 

Maria Teresa Horta (Lisboa, 20/5/1937)
Poetisa, colaboradora de diversos jornais e revistas, pertenceu ao grupo Poesia 61 e aos movimentos cineclubista e feminista, co-autora do livro: Novas Cartas Portuguesas (1972) com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, tendo ficado conhecidas internacionalmente por: “As Três Marias”.

 

Maria Isabel Barreno (Lisboa, 10/7/1939 – 03/09/2016)
Romancista, novelista, contista, ensaísta, autora de trabalhos sociológicos e de guiões para a televisão e cinema, colaboradora de jornais e revistas, integrou o Movimento Feminista de Portugal com as escritoras: Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, com as quais é co-autora de: Novas Cartas Portuguesas, tendo ficado conhecidas internacionalmente por: “As Três Marias”, licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas.

 

Maria Velho da Costa (Lisboa, 26/6/1938)
Romancista, contista, ensaísta, galardoada com vários prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2002, co-autora do livro: Novas Cartas Portuguesas (1972) com Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta, tendo ficado conhecidas internacionalmente por: “As Três Marias”, licenciada em Filologia Germânica, professora do ensino secundário.

 

 

Francisco José Viegas – Se Regressar

Abril 6, 2017 - Leave a Response

se regressar, será aos teus olhos que regresso.
os acasos ardem nos lábios dos amieiros que na margem do rio
aguardam que regresse. a isso regresso, buscando
coincidências e nomes, razões. afasto-me
provavelmente de ti, embora secretamente.

é por isso estranha a forma como os acasos ardem
para sempre. a outro rio e sob outras sombras
regresso, devagar para não ferir o que antes amei
e por quem morri muitas vezes. agora de novo morro

e por outro rio regresso até ao lugar onde elas, as aves,
nascem para não desaparecerem. e isso é como permanecer.

Francisco José Viegas (Vila nova de Foz Côa, 14/3/1962)
Poeta, romancista, contista, dramaturgo, relator de viagens, cronista com o heterónimo António Sousa Homem, jornalista, licenciado em Estudos Portugueses.

Almada Negreiros – Ser Moderno

Abril 6, 2017 - Leave a Response

” Isto de ser moderno é como ser elegante:
não é uma maneira de vestir mas sim uma maneira de ser.
Ser moderno não é fazer a caligrafia moderna,
é ser o legítimo descobridor da novidade.”

NEGREIROS, Almada, Conferência O Desenho, Madrid, 1927

Almada Negreiros (Trindade, S. Tomé, 7/4/1893 – Lisboa, 15/6/1970)
Artista multifacetado, desenhador e pintor, ensaísta, dramaturgo, romancista e poeta, colaborador da Revista Orpheu com Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro e fundador de alguns jornais.

 

Maria Teresa Horta – Carta Última para Maria Isabel Barreno (1.ª Parte)

Abril 3, 2017 - Leave a Response

“Escrevo, Isabel,
carta última,
tal como fizemos ao terminar
Novas Cartas Portuguesas, num
recolhimento que repito, num
impulso, num sobressalto diante
do fim da tua vida; pois escrever
junto, à nossa maneira a três,
Isabel
é pacto de sangue – corte muito
fino no pulso da escrita – lembro-me
de vos ter dito diante do vosso silêncio
cúmplice. E este é o meu modo de-
sarmado de recusar a tua perda, creio,
sem conseguir aceitar que passes a
ser sobretudo memória, por certo
cada vez mais longínqua, recordação
dia após dia a tornar-se brumosa,
distanciada e difusa.
Saudade a resguardar-se de si
própria.
Tão sozinha, tu no abandono de ti
mesma, em inexistentes horas, sem
outra qualquer forma de existires
senão pelo teu lado de total negrume,
aquele que absurdamente é hoje o teu
nada
mais absoluto.

Escrevo, Isabel,
carta última
a querer recordar como se deu o
exato começo de Novas Cartas, por
entre palavras e ideais, exigência de
liberdade e repúdio dos tantos medos,
modos e meios que o fascismo tinha
de nos censurar a escrita, ideias e
princípios, livros, itinerários, projetos
literários, romances e poesia, textos e
versos no seu próprio reverso de luz;
e igualmente na ensombrada som-
bra, então, dos nossos dias.

Escrevo, Isabel,
carta última
como se ainda fôssemos tateando
devagar a vida, repensando as tantas
diferenças de escrita, a tentarmos
divisar essa outra diversidade,
feminina
tão ancestral quanto castrada,
abafada e discriminada,
Isabel…
E assim foi nessa pressa, nesse
entusiasmo, que ao longo de meses
nos tornámos amigas, quer num so-
bressalto súbito de tropel e inesperada
corrida ao modo do meu alvoroço,
quer da tua quietude, tranquilidade
à flor do sorriso, como se afinal nada
nos estivesse a acontecer,
ilusória maneira de tomarmos voo
de asa enquanto companheiras em
convivência de vida e escrita, por entre
agressões, tentativas de humilhação e
de proibições políticas.
Na realidade falávamos de liber-
dade e de literatura ao longo de tardes
fingidoras de tempo que simulava
deixar-se agarrar, numa mistura de
conversas que sempre se demoravam
em cumplicidades múltiplos, por en-
tre páginas, obras literárias sobretudo
de autoras de quem amávamos a
poesia, a ficção, a filosofia,
conscientes de ser urgente deso-
bedecer, transgredir, aprendendo
a confrontarmos quem nos queria
censurar a vida e a escrita.

Escrevo, Isabel,
carta última
sem tentar iludir certezas e dúvi-
das, em horas de descoberta e rompi-
mentos; enquanto íamos imaginando
e escrevendo,
contos e poemas, ensaios e versos,
cartas…
Tantas cartas, e tantas personagens,
Marias, Mainas e Marianas…
com as quais fizemos uma roda,
juntas na escrita de um livro que em
quase tudo acabaria por mudar para
sempre as nossas vidas. (…)”

In JL, 14 a 27 de setembro de 2016

(continua)

 

Nota: Faz hoje sete mês que Maria Isabel Barreno faleceu.

 

Maria Teresa Horta (Lisboa, 20/5/1937)
Poetisa, colaboradora de diversos jornais e revistas, pertenceu ao grupo Poesia 61 e aos movimentos cineclubista e feminista, co-autora do livro: Novas Cartas Portuguesas (1972) com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, tendo ficado conhecidas internacionalmente por: “As Três Marias”.

 

Maria Isabel Barreno (Lisboa, 10/7/1939 – 03/09/2016)
Romancista, novelista, contista, ensaísta, autora de trabalhos sociológicos e de guiões para a televisão e cinema, colaboradora de jornais e revistas, integrou o Movimento Feminista de Portugal com as escritoras: Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, com as quais é co-autora de: Novas Cartas Portuguesas, tendo ficado conhecidas internacionalmente por: “As Três Marias”, licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas.

 

Maria Velho da Costa (Lisboa, 26/6/1938)
Romancista, contista, ensaísta, galardoada com vários prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2002, co-autora do livro: Novas Cartas Portuguesas (1972) com Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta, tendo ficado conhecidas internacionalmente por: “As Três Marias”, licenciada em Filologia Germânica, professora do ensino secundário.