Joseia Matos Mira – O Primeiro e o Último

Agosto 3, 2017 - Leave a Response

Aninhemo-nos no silêncio
Onde se revela a liquidez do olhar
O voo da libelinha
A remada dos gansos selvagens
Rasando copas tintas de verde-azul

E

Esquecidos de nós, de carne que é tormento
Sob o sol, sentemo-nos, aqui
No desabafo do monte que é o vale
Junto ao sopé onde goteja a fonte
E a inocência permanece.

 

MIRA, Joseia Matos, Trans-Lúcido, 2006

 

Joseia Matos Mira (Baleizão, Beja)
Romancista, contista e poetisa.
Professora do ensino secundário e superior, licenciada em Filologia Românica, doutorada em Literatura Francesa.

Deodato Guerreiro – Balada para uma Ceifeira

Agosto 3, 2017 - Leave a Response

 

Ceifeira do Alentejo
Há quanto tempo não vejo
Teu corpo ceifando o trigo.
Teu rosto moreno ao sol,
Minha eira, meu farol
Meu deserto e meu amigo.

Ceifeira do Vale do Sado
Diz esta sina este fado
Hás-de ser noiva em Agosto.
Que o pastor que ao longe canta
Transporta o sol na garganta
Para o trigo do teu rosto.

Ceifeira do Alentejo,
Tua voz dá cor ao brejo
Da charneca és a princesa.
Rosa brava junto à sebe,
Água fresca em minha sede,
És ganhã, mas tens nobreza.

Ceifeira da minha terra,
Vou pedir àquela serra
Que te alpendre junto aos céus.
Que as santas são destinadas
A acordar as madrugadas
Na mão direita de deus.

Ceifeira do Alentejo,
Ai, que saudades do trigo,
Que lembranças do poejo.
Saudades de quando eu era
mais alto que a primavera,
Tamanho do Alentejo.

In Para Alvalade, Com Amor

Augusto Deodato Guerreiro (Alvalade Sado, 17/01/1949)
Poeta, autor de vários livros e outras publicações .
Licenciado em História, especializado em Ciências da Comunicação, Doutor em Ciências Documentais, Professor universitário.

Alves Redol – “Recomendação” a Baptista Bastos

Agosto 1, 2017 - Leave a Response

 

“Vocês, os mais novos, vão ter belas coisas para fazer. Nessa altura, se o merecer, lembrem-se de mim.” – entrevista a BB para o República, por ocasião dos vinte anos de publicação de “Fanga”.

 

Baptista Bastos, Revista Seara Nova, N.º 1717 Outono 2011, publicado em “Cultura”

 

Alves Redol (Vila Franca de Xira, 29/12/1911 – Lisboa, 29/11/1969)
Romancista, dramaturgo, cronista, contista, introdutor do neo-realismo em Portugal com a obra Gaibéus (1939).

Álvaro Guerra – A Contracapa do Livro: No Jardim das Paixões Extintas

Agosto 1, 2017 - Leave a Response

 

“(…) E espreita-nos no denso bosque de acácias disfarçadas de subúrbio ou de carruagem de metro, fora de horas, de seringa em punho, a pedir contas. Vou pelo jardim das paixões extintas…”

O famoso escritor, autor da  célebre trilogia dos cafés: Café República (1982), Café Central (1984) e Café 25 de Abril (1984), terá ditado para a contracapa do seu último romance, No Jardim das Paixões Extintas,  obra sobre  a guerra civil de Espanha, o texto atrás citado  na véspera da sua morte.

 

Álvaro Guerra (Vila Franca de Xira, 19/10/1936 – Vila Franca de Xira, 18/4/2002)
Pseudónimo de Manuel Soares.
Romancista, poeta, cronista, galardoado com O Grande Prémio de Crónica, ensaísta, jornalista, fundador do jornal A Luta (1975) político, diplomata,  licenciado em Direito.

Almeida Garrett – A Estrela

Agosto 1, 2017 - Leave a Response

 

Há uma estrela no céu
Que ninguém vê senão eu:
Inda bem! — Que a não vê mais ninguém

Como as outras não reluz;
Mas dá tão serena luz.
Que, inda bem! — Não a vê mais ninguém.

No caminho azul do céu
Onde ela está, não digo eu
A ninguém! — Sei-o eu só: inda bem.

 

Almeida Garrett (Porto, 4/2/179 Lisboa, 9/12/1854)
Romancista, poeta, dramaturgo, jornalista, orador, político, deputado, implantou o teatro em Portugal, fundou o Teatro Nacional e o Conservatório. 

Almeida Faria – O Primeiro Livro

Agosto 1, 2017 - Leave a Response

 

“Eu publiquei aos dezenove anos justamente por ser um pouco ingénuo e também concorri a um prémio literário, que acabei ganhando.

O Prémio era publicar o livro.

A obra era um pouco imatura, mas era revolucionária no ponto de vista político e formal.

Rumor Branco, para você ver, o título já era estranho, parecia uma poesia. Depois a estrutura do livro não tinha capítulos, o texto era dividido em fragmentos como os dias da criação do Mundo, a pontuação era muito diferente das regras, nunca havia maiúscula depois do ponto final – o próprio livro começa com minúscula. No entanto, foi uma provocação de um jovem que era contra a ditadura. Vivíamos num longo regime e aquilo era uma maneira simplesmente de manifestar a minha raiva.

Para a minha geração, aquele livro serviu como um manifesto antifascista e, claro, tive muitos problemas.

Meus professores não gostaram nada daquilo que fiz, pois além de ter o prémio tive diversas críticas que coincidiu com uma revolta estudantil generalizada nas principais universidades do pais, Lisboa e Coimbra. Portanto, é um livro ainda mais político do que seu conteúdo real.

Foi um livro que depois eu editei várias vezes e coloquei muita coisa, pois de fato havia a explosão da juventude.

Não era uma obra de grande valor literário e hoje não é considerada tão bom como A Paixão, mas é um livro de um jovem de um período pulsante.

Não sou de dar conselhos aos jovens, eles devem fazer o que querem e, sobretudo, não cederem aos padrões dominantes.”

 

Entrevista (excerto): Equipa Livre Opinião, 04/08/2014

 

Almeida Faria (Montemor-o-Novo, 6/5/1943)
Romancista, contista, dramaturgo, ensaísta, colaborador em diversas publicações, tradutor, detentor de vários prémios literários, docente, licenciado em Filosofia.

Alice Vieira – “Sempre Amei por Palavras…”

Agosto 1, 2017 - Leave a Response

 

Sempre amei por palavras muito mais

do que devia

 

são um perigo

as palavras

 

quando as soltamos já não há

regresso possível

ninguém pode não dizer o que já disse

apenas esquecer e o esquecimento acredita

é a mais lenta das feridas mortais

espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo

e vai cortando a pele como se um barco

nos atravessasse de madrugada

 

e de repente acordamos um dia

desprevenidos e completamente

indefesos

 

um perigo

as palavras

 

mesmo agora

aparentemente tão tranquilas

neste claro momento em que as deixo em desalinho

sacudindo o pó dos velhos dias

sobre a cama em que te espero

 

VIEIRA, Alice, O que Dói às Aves

 

Alice Vieira (Lisboa, 1943)
Jornalista e escritora, licenciada em Filologia Germânica.

Alexandre O´ Neill – Agora Escrevo

Agosto 1, 2017 - Leave a Response

 

Que queriam fazer de mim?

 

Uma palavra, um gemido obsceno,

Uma noite sem nenhuma saída,

Um coração que mal pudesse

Defender-se da morte,

Uma vírgula trémula de medo

Num requerimento azul, azul,

Uma noite passada num bordel

Parecido com a vida, resumindo

Brutalmente a vida!

 

A chave dos sonhos, o segredo

Da felicidade, as mil e uma

Noites de solidão e medo,

A batata cozida do dia a dia,

O muscular fim-de-semana,

As sardinhas dormindo,

Decapitadas, no azeite,

O amor feito e desfeito

Como uma cama

E ao fundo — o mar…

 

Mas defendi-me e agora escrevo

Furiosamente, agora escrevo

Para alguém:

 

Lembras-te, meu amor, dos passeios que demos

Pela cidade? Dos dias que passámos

Nos braços da cidade?

Coleccionámos gente, rostos simples, frases

De nenhum valor para além do mistério

Também simples do nosso amor.

Inventámos destinos, cruzámos vidas

Feitas de compacta vontade,

De dura necessidade, rostos frios

Possuídos por uma ausência atroz,

Corpos extenuados más sem nenhum sono para dormir,

Olhos já sem angústia, sem esperança, sem qualquer

Pobre resto de vida!

Seguimos a alegria das crianças, agressiva

Como o carvão riscando uma parede,

Aprendemos a rir (oh que vergonha!..)

Com a gente «ordinária» e calados

Descemos até ao rio — e ali ficámos

A ver!

 

Alexandre O´Neill (Lisboa, 19/12/1924 – Lisboa, 21/8/1986)
Poeta, cronista e tradutor, fundador do Movimento Surrealista de Lisboa com Mário Cesariny, José Augusto França e António Pedro.

Al Berto – É Preciso Repensar a Vida

Agosto 1, 2017 - Leave a Response

 

“É preciso repensar a nossa vida.

Repensar a cafeteira do café, de que nos servimos de manhã, e repensar uma grande parte do nosso lugar no universo.

Talvez isso tenha a ver com a posição do escritor, que é uma posição universal, no lugar de Deus, acima da condição humana, a nomear as coisas para que elas existam. Para que elas possam existir…

Isto tem a ver com o poeta, sobretudo, que é um demiurgo. Ou tem esse lado. Numa forma simples, essa maneira de redimensionar o mundo passa por um aspecto muito profundo, que não tem nada a ver com aquilo que existe à flor da pele. Tem a ver com uma experiência radical do mundo.

Por exemplo, com aquela que eu faço de vez em quando, que é passar três dias como se fosse cego. Por mais atento que se seja, há sempre coisas que nos escapam e que só podemos conhecer de outra maneira, através dos outros sentidos, que estão menos treinados…

Reconhecer a casa através de outros sentidos, como o tacto, por exemplo. Isso é outra dimensão, dá outra profundidade.

E a casa é sempre o centro e o sentido do mundo. A partir daí, da casa, percebe-se tudo. Tudo. O mundo todo. ”

 

Al Berto, in “Entrevista à Revista Ler” , 1989)

 

Al Berto (Coimbra, 11/1/1948-Lisboa, 13/6/1997)
Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares
Poeta, pintor, editor, animador cultural, um “coimbrense-siniense” único.

Alexandre Pinheiro Torres – A Lâmpada Apaga-se

Agosto 1, 2017 - Leave a Response

 

O combustível do olhar está no zero do indicador de nível,

e a boca ávida de chama sorve as últimas gotas da mecha
mirrada].

A lâmpada do olhar, em breve liquidamente exausta,

deixará de incendiar a secura das coisas.

 

Há um resto de corpo que ainda arde para além da chama

ao abrigo da pequena e isolada gruta do coração,

e dai parte a súbita e alta labareda

que precipita a lâmpada num paraíso de trevas.

 

Alexandre Pinheiro Torres (Amarante, 27/10/1923 – Cardiff, 3/8/1998)
Romancista, poeta, ensaísta, historiador de literatura, crítico literário, tradutor, professor catedrático, co-fundador da revista Serpente, bacharel em Ciências Fí