João de Melo – “Reescrever” um Livro

Maio 16, 2017 - Leave a Response

 

Caros visitantes,
Vamos ver o que nos diz o João de Melo, no JL de 29 de março a 11 de abril de 2017, sobre o que é “rescrever” um livro?

 

“(…) É trazê-lo de volta naquilo em que nós justifica o sentido de uma reafirmação por escrito.

Sempre me pretendi um “criador da linguagem”.

Houve tempo em que forcei a minha preocupação de mostrar um “estilo”. Escrevi em redondo, no balanço das hipérboles e metáforas de mau gosto. Como no enjoo marítimo.

O estilo é certamente uma doença infantil moderna.  Nem sempre resistimos à tentação de armarmos ao pingarelho, como se escrevêssemos à luz dos mestres e dos clássicos barrocos.

Por outro laso, lidando eu com a tropa e com a guerra, convenci-me de que o romance devia encher-se de palavrões, do calão militar. Erro crasso. A literatura do palavrão não chega nunca a ser arte.

A prosa literária, ao invés, exige uma disciplina superior da linguagem. Foi o que tentei devolver à Autópsia nesta sua 9.ª (ou 10.ª…) edição. Uma narrativa mais fluída, menos palavrosa. (…)”

 

João de Melo (Achadinha, Açores, 04/02/1949)
Contista, romancista, ensaísta, cronista, poeta, galardoado com vários prémios literários, professor – ensino secundário e superior –, Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Madrid (2001-2010), licenciado em Filologia Românica.

 

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Jorge Barbosa – Prelúdio

Maio 16, 2017 - Leave a Response

Quando o descobridor chegou à primeira ilha
nem homens nus
nem mulheres nuas
espreitando
inocentes e medrosos
detrás da vegetação.

Nem setas venenosas vindas do ar
nem gritos de alarme e de guerra
ecoando pelos montes.

Havia somente
as aves de rapina
de garras afiadas
as aves marítimas
de vôo largo
as aves canoras
assobiando inéditas melodias.

E a vegetação
cujas sementes vieram presas
nas asas dos pássaros
ao serem arrastados para cá
pelas fúrias dos temporais.

Quando o descobridor chegou
e saltou da proa do escaler varado na praia
enterrando
o pé direito na areia molhada

e se persignou
receoso ainda e surpreso
pensa n´El-Rei
nessa hora então
nessa hora inicial
começou a cumprir-se
este destino ainda de todos nós.

Jorge Barbosa (Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde, 25/5/1902 -Cova da Piedade, 6/1/1971)
Poeta, colaborador em revistas e jornais, um dos fundadores da Revista Literária Claridade, pioneiro da poesia cabo-verdiana.

José Cardoso Pires – O Crescimento de um Livro

Maio 16, 2017 - Leave a Response

“(…) um livro cresce com o escritor, com a experiência e a depuração íntima de um escritor.

E por isso é sempre susceptível de ser melhorado.”

(Entrevista a  João Alves das Neves, O Estado de São Paulo, 23/4/1972)

In PEDROSA, Inês, José Cardoso Pires Fotobiografia

 

José Cardoso Pires (São João do Peso, 2/10/1925 – Lisboa, 26/10/1998)
Romancista, contista, novelista, cronista, ensaísta, dramaturgo.

Baptistas Bastos – Escrever

Maio 15, 2017 - Leave a Response

“Escrever é um acto de humildade, publicar um acto de coragem.” *

“Escrever é um trabalho muito duro porque exige um grande dispêndio de energias e faz emergir conflitos latentes.

Mas sou, nesse aspecto, um homem feliz: trabalho no que gosto.

É sabido que tenho uma grande paixão pelas palavras. Isso, até os meus inimigos mais tenazes reconhecem. Gosto de ratear as palavras, de as selecionar para um jogo musical, de as escolher com severidade.

Creio que todas as palavras possuem ou refletem sentimentos. Porém, nem todas as palavras têm uma peculiar radiação, um esplendor muito especial. (…)”

In JL, 30/11/87

Baptista-Bastos (Lisboa, 27/2/1934 – 09/05/2017)
Jornalista, ensaísta, romancista.

 * In JL s/ data

Florbela Espanca – Às Mães de Portugal

Maio 7, 2017 - Leave a Response

Ó mães doloridas, celestiais,
Misericordiosas,
Ó mães d’olhos benditos, liriais,
Ó mães piedosas!

Calai as vossas mágoas, vossas dores;
Longe na crua guerra,
Vossos filhos defendem, vencedores,
A nossa linda terra!

E se eles defendem a bandeira
Da terra que adorais,
Onde viram um dia a luz primeira
Ó mães, porque chorais?!

Uma lágrima triste, agora é
Cobardia, fraqueza!
Nos campos de batalha cai de pé
A Alma Portuguesa!

Pela terra de estrela e tomilhos,
De sol, e luar,
Deixai ir combater os vossos filhos
Ao longe, heróis do mar!

Dum português bendito, sem igual,
Eu sigo o mesmo trilho:
“Por cada pedra deste Portugal
Eu arriscava um filho!”

Por isso, ó mãe doloridas, pelo leito
De morte, onde ajoelhais,
Esmagai vossa dor dentro do peito,
Ó mães não choreis mais!

A Pátria rouba os filhos, mas é mãe,
A mãe de todos nós.
Direito de a trair não tem ninguém
Ó mães, nem sequer vós!

ESPANCA, Florbela, Cartas

 

Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8/12/1894 – Matosinhos, 8/12/1930)
Poetisa, 1.ª mulher a frequentar o curso de Direito na Universidade
de Lisboa, percursora do movimento feminista em Portugal.

Lopes Morgado – Mãe

Maio 7, 2017 - Uma resposta

 

VII

Mãe?

Definir Mãe
É perdê-la.

Amá-la
É mantê-la viva.

Minha Mãe!

 

MORGADO, Lopes, MULHER MÃE

 

Lopes Morgado (Areias de Vilar, Barcelos, 23/4/1938)
Sacerdote – Frei da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos – , professor, escritor, poeta, jornalista.

José Régio – Colegial

Maio 7, 2017 - Leave a Response

Em cima da minha mesa,
Da minha mesa de estudo,
Mesa da minha tristeza
Em que, de noite e de dia,
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo…)
E me estudo,
A mim,
Também,
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!

À cabeceira do leito,
Dentro dum lindo caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora…
Ai minha Nossa Senhora
Que se parece contigo,
E que tem, ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que tenho,
De menino pequenino…!

No fundo da minha sala,
Mesmo lá no fundo, a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Que as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós…)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa…
Três maços – e nada leves! –
Atados com um retrós…
Se não fora eu ter-te assim
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(Sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta…)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta!

RÉGIO, José, Encruzilhadas de Deus

José Régio (Vila do Conde, 17/09/1901 – Vila do Conde, 22/12/1969)
Pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira
Poeta, dramaturgo, romancista, contista, ensaísta, crítico, desenhador, coleccionador, licenciado em Filologia Românica.

Ary dos Santos – “Minha Mãe que não Tenho”

Maio 7, 2017 - Leave a Response

Minha mãe que não tenho    meu lençol
de linho    de carinho    de distância
água memória viva do retrato
que às vezes mata a sede da infância.

Ai água que não bebo em vez do fel
que a pouco e pouco me atormenta a língua.
Ai fonte que eu não oiço    ai mãe    ai mel
da flor do corpo que me traz à míngua.

De que Egipto vieste?    De que Ganges?
De qual pai tão distante me pariste
minha mãe    minha dívida de sangue
minha razão de ser violento e triste.

Minha mãe que não tenho    minha força
sumo da fúria que fechei por dentro
serás sibila    virgem    buda    corça
ou apenas um mundo em que não entro?

Minha mãe que não tenho    inventa-me primeiro:
constrói a casa    a lenha e o jardim
e deixa que o teu fumo    que o teu cheiro
te façam conceber dentro de mim.

 

SANTOS, Ary dos, Resumo

 

José Carlos Ary dos Santos (Lisboa, 7/12/1937 – Lisboa, 18/1/1984)
Poeta, declamador, autor de poemas para canções, animador político, profissional de publicidade.

Vítor Matos e Sá – Vem Ver a Minha Mãe

Maio 7, 2017 - Leave a Response

 

Ela está junto das coisas que bordaram

com ela os dias que supôs mais belos

e são a fonte de onde lhe começa

o branco tempo dos cabelos.

 

Mal pousa a vida nos seus dedos gastos

do sonho que pousou na minha mão

e no sangue tão frágil que sustenta

tanta ternura e tanta solidão.

 

SÁ, Vítor Matos e, O Silêncio e o Tempo

 

Vítor Matos e Sá (Lourenço Marques, 20/12/1927 – 1975)
Pseudónimo de Vítor Raul da Costa Matos.
Poeta, colaborador em: ÁrvoreTávola Redonda, Cadernos do Meio-Dia e Eros, professor universitário, licenciado e doutorado em Filosofia.

Antónia Vilar – Mulher

Maio 7, 2017 - Leave a Response

Nasci numa noite de luar,

Nasci mulher.

 

Trago no colo o cheiro da planície

E o vício da terra lavrada,

Perfumada.

E em cada poente mais ardente

O desejo cresce no meu ventre

 

De cabelos cor de fogo

E olhos da cor do rio,

Sorrio.

E aperto o peito quando a dor

atormenta

a palavra contida.

 

Sentida.

a vida está nos nossos braços

Para além da canção de embalar.

Amar. Amar.

 

In Nova Antologia de Poetas Alentejanos

 

Antónia de Jesus Vilar Baião (Safara, 1954)
Poetisa, licenciada em Sociologia.