António Lobo Antunes – A Praia das Maçãs – Primeiro Excerto

Agosto 17, 2019 - Leave a Response

 

“Então, no princípio de Agosto, íamos para a Praia das Maçãs. Tudo começava como a partida, em sobressalto de fuga, de aristocratas russos a seguir à Revolução de dezassete:  tiravam-se os reposteiros e as cortinas, enrolavam-se os tapetes, cobriam-se os sofás de lençóis brancos, desprendiam-se os quadros das paredes (…), embrulhavam-se os castiçais, os talheres, os bules e as salvas de prata em jornais, a casa aumentava de tamanho e os sons ganhavam a amplitude de explosão de passos em garagem à noite, vinha uma camioneta carregar frigorífico, bagagem e criadas, que seguiam logo de amanhã, antes de nós, para o exílio das férias, e à tarde os meus pais embarcavam as crias que lutavam no banco de trás por um lugar à janela, entre lágrimas, pontapés e queixinhas, excepto meu irmão mais novo, que de pé no assento, com o babete ao pescoço e um Pluto de borracha apertado ao peito, ia acenando adeuses, de Benfica a Sintra, aos automóveis que nos seguiam. (…)”

(continua)

ANTUNES,  António Lobo, “A PRAIA DAS MAÇÃS”, in Crónicas

 

António Lobo Antunes (Lisboa, 1/9/1942)
Romancista e cronista, distinguido com o Prémio Camões em 2007, médico especializado em Psiquiatria.

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António Ladeira – Mendigos Invadem a Casa

Agosto 17, 2019 - Leave a Response

Mendigos invadem a casa.

Já não cabem nas ruas,

foram escorraçados das praças e dos parques das cidades.

Caminharam quilómetros.

Transportam outros mendigos às costas.

Entram, ruidosos, por portas que alguém, ou alguma coisa,

abriu de par em par.

Não pedem dinheiro nem comida, pedem livros.

Alguns estão na biblioteca

e exigem que se lhe dê a ler os poemas que escolheram.

Sentam-se nas cadeiras ao acaso, deitam-se desordenadamente no chão,

distribuem-se, pensativos e sóbrios, pelas mesas que transbordam de comida.

Rezam antes de comer, pedem perdão pelas coisas que fizeram,

pelos crimes que cometeram

e pelos que voltarão a cometer.

De olhos fechados, quase imperceptivelmente, rezam movendo os lábios.

Abrem e fecham as mãos, onde brilham estrelas tatuadas.

Estão agora calmos; alguns velam, protegem os que adormeceram.

Um deles boceja, vencido pelo sono.

Outro levanta a cabeça por entre o mar de corpos enroscados

como um cão que interroga com o faro uma casa vazia, desde há muito [fechada.

Como água correndo,

ouve-se o murmúrio inteligente de uma pessoa que chora em voz baixa.

Ninguém tem frio

No meio da imensa noite, alguém sorri.

 

LADEIRA, António, Eu Vi Jardins no Inferno

 

António Ladeira (Almada, 1969)
Poeta, contista, ensaísta, tradutor, colaborador em diversas publicações, letrista de jazz, licenciado em Estudos Portugueses, doutorado em Línguas e Literaturas Hispânicas, professor catedrático.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Angola – António Jacinto, Declaração

Agosto 16, 2019 - Leave a Response

 

As aves, como voam livremente

num voar de desafio!

Eu te escrevo, meu amor,

num escrever de libertção.

 

Tantas, tantas coisas comigo

adentro do coração

que só escrevendo as liberto

destas grades sem limitação.

Que não se frustre o sentimento

de o guardar em segredo

como liones, correm as águas do rio!

corram límpidos amores sem medo.

 

Ei-lo que to apresento

puro e simples – o amor

que vive e cresce ao momento

em que fecunda cada flor.

 

O meu escrever-te é

realização de cada instante

germine a semente, e rompa o fruto

da Mãe-Terra fertilizante.

 

António Jacinto (do Amaral Martins) (Luanda, 28/9/1924 – Lisboa, 23/6/1991)
Poeta e contista, que neste contexto usava o pseudónimo de Orlando Távora, recebeu o prémio Nacional de Literatura em 1985.

António Franco Alexandre – [Fico Aguardando Telegramas…]

Agosto 16, 2019 - Leave a Response

 

fico aguardando telegramas, os azuis

recados.

os poderes da manhã já pouco duram.

à superfície o som move na boca

 

um pouco sopro.

não julgues que me importam as roldanas

do tempo no teu corpo

 

são certos os abismos de cartão

e falsa a neve que nos cobre os passos.

de graça a terra nos dispõe na foto

e a idade inventa nomes que a dissipem

 

descobre-me impacientes os recados

o envelope da urgência o intervalo

 

ALEXANDRE, António Franco, A Pequena Face

 

António Franco Alexandre (Viseu, 17/7/1944)
Poeta, galardoado com o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores em 2000, professor universitário, doutorado em Matemática e Filosofia.

António Francisco Da Costa e SilvaSou como um Rio Misterioso…

Agosto 16, 2019 - Leave a Response

 

Sou como um rio que, de tanto

Refletir sombras, se tornou sombrio…

Rio de dor, rio de pranto,

Ninguém sabe o mistério deste rio.

 

Rio de dor, rio de mágoas,

Ocultando as imagens que refletes,

Rolam em meu ser as tuas águas,

Sob a treva e o silêncio, como o Letes…

 

António Francisco Da Costa e Silva (Amarante, 29/11/1885 – Rio de Janeiro, 29/6/1950)
Poeta, licenciado em Direito, pai do escritor e diplomata Alberto da Costa e Silva.

António Ferreira – [Livro, se Luz Desejas…]

Agosto 16, 2019 - Leave a Response

 

Livro, se luz desejas, mal te enganas.

Quanto melhor será dentro em teu muro

Quieto, e humilde estar, inda que escuro,

Onde ninguém t’impece, a ninguém danas!

 

Sujeitas sempre ao tempo obras humanas

Coa novidade aprazem; logo em duro

Ódio e desprezo ficam: ama o seguro

Silêncio, fuge o povo, e mãos profanas.

 

Ah! não te posso ter! deixa ir comprindo

Primeiro tua idade; quem te move

Te defenda do tempo, e de seus danos.

 

Dirás que a pesar meu fostes fugindo,

Reinando Sebastião, Rei de quatro anos:

Ano cinquenta e sete: eu vinte e nove.

 

FERREIRA, António, Poemas Lusitanos

 

António Ferreira (Lisboa, 1528 – Lisboa, 29/11/1569)
Poeta, dramtaurgo e humanista, considerado o Horácio português, doutorado em Cânones.

António Feliciano de Castilho – Os Sonhos

Agosto 16, 2019 - Leave a Response

 

Recordas-te, ingrata,

Quando eu te dizia,

Que em sonhos Armia

Cedia aos meus ais?

Sorrias, coravas,

Fugias, juravas

Que nunca os meus sonhos

Seriam leais.

 

Armia, esta noite,

Segundo o costume,

Tomei co meu nume,

Tomei a sonhar.

 

Qual és, eras rosa,

Gentil, espinhosa,

Sem par nos rigores,

Nas graças sem par.

 

Dou graças ao fado,

Já sonho esquivança;

Já luz esperança

No meu coração.

Tu juras que em sonhos

Só há falsidades,

E nunca deidades

Juraram em vão.

 

CASTILHO, António,  Escavações Poéticas

 

António Feliciano de Castilho (Lisboa, 28/1/1800 – Lisboa, 18/6/1875)
Escritor romântico, pedagogo.

António Feijó – Hino à Solidão

Agosto 16, 2019 - Leave a Response

 

Diz-se que a solidão torna a vida um deserto;

Mas quem sabe viver com a sua alma nunca

Se encontra só; a Alma é um mundo, um mundo

[aberto

Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca.

 

Mundo vasto que mil existências povoam:

Imagens, concepções, formas do sentimento,

— Sonhos puros que nele em beleza revoam

E ficam a brilhar, sóis do seu firmamento.

 

Dia a dia, hora a hora, o Pensamento lavra

Esse fecundo chão onde se esconde e medra

A semente que vai germinar na Palavra,

Cantar no Som, flores na Cor, sorrir na Pedra!

 

Basta que certa luz de seus raios aqueça

A semente que jaz na sua leiva escondida,

Para que ela, a sorrir, desabroche e floresça,

De perfumes enchendo as estradas da Vida.

 

Sei que embora essa luz nem para todos tenha

O mesmo brilho, o mesmo impulso criador,

Da Glória, sempre vã, todo o asceta desdenha,

Vivendo como um deus no seu mundo interior.

 

E que mundo sublime, esse em que ele se agita!

Mundo que de si mesmo e em si mesmo criou,

E em cuja criação o seu sangue palpita,

Que não há deus estranho aos orbes que formou.

 

Nem lutas, nem paixões: ideais serenidades

Em que o Tempo se esvai sob o encanto da Hora…

O passado e o porvir são ânsias e saudades:

Só no instante que passa a plenitude mora.

 

Sombra crepuscular, que a Noite não atinge,

Nem a Aurora desfaz: rosicler e luar,

Meia tinta em que a Alma abre os lábios de Esfinge,

E o seu mistério ensina a quem sabe escutar.

 

Mas então, inundando essa penumbra doce,

De não sei que sublime esplendor sideral,

Como se a emanação dum ser divino fosse,

Deixa no nosso olhar um reflexo imortal.

 

Na vertigem que a vida exalta e desvaria,

Pára alguém para ouvir um coração que bate

No seio mais formoso, o olhar que se extasia

Vê o mundo que nele em ânsias se debate?

 

É só na solidão que a alma se revela,

Como uma flor nocturna as pétalas abrindo,

A uma luz, que é talvez o clarão duma estrela,

Talvez o olhar de Deus, de astro em astro caindo…

 

E dessa luz, a flor sem forma, há pouco obscura,

Recebe o seu quinhão de graça e de pureza,

Como das mãos do artista, animando a escultura,

O mármore recebe a sua alma — a Beleza.

 

Se sofrer é pensar, na paz do isolamento,

Como dum cálix cheio o líquido extravasa,

A Dor, que a Alma empolgou, transborda em

[pensamento,

E a pouco e pouco extingue o fogo em que se

[abrasa.

 

Como a montanha de oiro, a Alma, em seu

[mistério,

À superfície nunca o seu teor revela;

Só depois de sondado e fundido o minério

Se conhece a riqueza acumulada nela.

 

Corações que a Existência em tumulto arrebata!

Esse oiro só se extrai do minério candente,

No silêncio, na paz, na quietação abstracta,

Das estrelas do céu sob o olhar indulgente…

 

FEIJÓ, António, Sol de Inverno

 

António Feijó (Ponte de Lima, 1/6/1859 – Estocolmo, 20/6/1917)
Poeta e diplomata, fundador da Revista Científica e Literária com Luís de Magalhães – 1880, Coimbra -, colaborador nas revistas: Arte, A Ilustração Portuguesa, O Instituto, Novidades, Museu Ilustrado, licenciado em Direito.

Ana Hatherly – O Círculo

Agosto 16, 2019 - Leave a Response

 

O círculo é a forma eleita

É ovo, é zero.

É ciclo, é ciência.

Nele se inclui todo o mistério

E toda a sapiência.

É o que está feito,

Perfeito e determinado,

É o que principia

No que está acabado.

A viagem que o meu ser empreende

Começa em mim,

E fora de mim,

Ainda a mim se prende.

A senda mais perigosa.

Em nós se consumando,

Passando a existência

Mil círculos concêntricos

Desenhando.

 

Ana Hatherly (Porto, 08/05/1929 – Lisboa, 05/08/2015)
Poetisa, ensaísta, romancista, investigadora, tradutora, artista plástica, professora universitária, licenciada em Filologia Germânica e doutorada em Estudos Hispânicos, diplomada em cinema, foi uma das fundadoras do PEN Clube Português, que presidiu, membro da Direção da Associação Portuguesa de Escritores e fundou as revistas Escuro-Claro e Incidências.

Américo Durão – Aquela Moça de Aldeia

Agosto 16, 2019 - Leave a Response

 

Aquela moça de aldeia

Que eu conduzir ao altar,

Há-de trazer-me à ideia

Desejos de lhe rezar.

 

Amei-te só de me olhares,

O coração adivinha:

– Deus faz as almas aos pares,

Fez a tua e fez a minha.

 

Américo Durão (Coruche, 28/10/1893 – Lisboa, 7/3/1969)
Poeta e dramaturgo, licenciado em Direito.