Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – *Baltazar Lopes (da Silva) – A Serenata

Outubro 15, 2017 - Leave a Response

           

Vestida de gemidos de bordão,

lancinâncias de violino,

na noite parada

vem descendo a seresta.

 

Sumiu-se a cidade barulhenta

inimiga das crianças e dos poetas.

Uma voz canta sentimentalmente um samba.

Aquele aperto de mão
não foi adeus!

Os cavaquinhos desmaiam de puro sentimento,
a cidade morreu lá longe,
e a lua vem surgindo cor de prata.

Nessa história de amor todos são iguais,
até o rei volta sua palavra atrás…

O meio tom brasileiro deixa interrogativamente a sua nostalgia.

É hora que os poetas escolheram
para a procura dos seus mundos perdidos…

Amanhã a cidade virá novamente
inimiga dos poetas.
Mas agora ela dorme,
ela não sabe que os poetas falam com Nossenhor,
com a lua e as estrelas,
nesta hora tão lírica…

Menina romântica, irmã
das crianças e dos poetas…
A tua janela, florida de esperanças,
é um mistério que a cidade não entende.

Passa a serenata.
Mas no coração dos que temem a primeira luz do dia que vai chegar
ficam os gemidos do violão e do cavaquinho,
vozes crioulas neste noturno brasileiro
de Cabo Verde.

 

Baltazar Lopes (Caleijão, S. Nicolau, Cabo Verde, 23/4/1907 – Lisboa, 26/5/1989)
Poeta, que utilizou o *pseudónimo de Osvaldo Alcântara, romancista, poeta, novelista, ensaísta e linguista, fundador da revista Claridade com: Manuel Lopes e Jorge Barbosa; escreveu em português e em crioulo.

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Augusto Abelaira – Escrever

Outubro 15, 2017 - Leave a Response

 

” (…) o meu objectivo, começo a adivinhá-lo, adivinha-se afinal simples: fazer de mim através da escrita um ser uno, não este caótico, contraditório indivíduo que sempre fui. Afinal escrever, mesmo descontinuamente, é fixar no papel uma continuidade e essa continuidade sou eu”.

ABELAIRA, Augusto, Nem Só Mas Também

 

Augusto Abelaira (Ança, Cantanhede, 18/3/1926 – Lisboa, 04/07/2003)
Romancista, dramaturgo, contista, jornalista, tradutor, professor, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas.

Ascenso Ferreira – Catimbo

Outubro 15, 2017 - Leave a Response

 

Mestre Carlos, rei dos mestres,

aprendeu sem se ensinar…

— Ele reina no fogo!

— Ele reina na água!

— Ele reina no ar!

Por isto, em minha amada acendera a paixão que consome!

Umedecera sempre, em sua lembrança, o meu nome!

Levar-lhe-á os perfumes do incenso que lhe vivo a queimar.

 

E ela ha de me amar…

Há de me amar…

Há de me amar…

— Como a coruja ama a treva e o bacurau ama o luar!

 

À luz do setestrelo nos havemos de casar!

E há de ser bem perto.

Ha de ser tão certo

como que este mundo tem de se acabar…

Foi a jurema de sua beleza que embriagou os meus sentidos!

E eu vivo tão triste como os ventos perdidos

que passam gritando na noite enorme…

 

Porque quero gozar o viço que no seu lábio estua!

Quero sentir sua carícia branda como um raio da lua!

Quero acordar a volúpia que no seu seio dorme…

 

E hei de tê-la,

hei de vencê-la contra seu querer…

 

— Porque de Mestre Carlos é grande o poder!

Pelas três marias… Pelos três reis magos… Pelo setestrelo

 

Eu firmo esta intenção,

bem no fundo do coração,

e o signo de Salomão

ponho como selo…

E ela há de me amar…

Há de me amar…

Há de me amar…

 

— Como a coruja ama a treva e o bacurau ama o luar!

Porque Mestre Carlos, rei dos mestres,

reina no fogo… Reina na água… Reina no ar…

 

— Ele aprendeu sem se ensinar…

 

Ascenso Ferreira (Palmares, 9/5/1895 – Recife, 5/5/1965)
Poeta.

Arquimedes da Silva Santos – A Educação do Ser

Outubro 15, 2017 - 2 Respostas

 

“Eu tinha a formação de pedopsiquiatra e vi que a melhor maneira, do ponto de vista educativo, de agir na vida das crianças com dificuldades era através das expressões artísticas, quer seja da música, das artes plásticas, da psicomotricidade, da dança, do drama, etc. …

Fui um professor amador que, de algum modo, se profissionalizou. … como livre pensador e como franco atirador pude fazer aquilo que achava que devia ser. …

Dava liberdade aos meus alunos para podermos fazer as coisas de maneira a enriquecermo-nos, a encontrarmo-nos, a sermos.

A minha linha de acção era essa. Não era o saber, o ter, era exactamente o ser”.

 

Entrevista à revista Noesis – n.º 55, Julho/Setembro 2000

 

Arquimedes da Silva Santos (Póvoa de Santa iria, 18/6/ 1921)
Poeta, colaborador de publicações, professor,  licenciado em Medicina e especializado em psicopedagogia, estudou Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa e Psicologia na Sorbonne.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Arnaldo França – [ SONETO ]

Outubro 15, 2017 - Leave a Response

 

Ouviu-te a voz longínqua sobre os mares
A quilha da ameaça que os cortava
E os homens que te ergueram seus olhares
Descem a mão que a arma empunhava.

Sobre os campos da terra e sobre os rios,
Sobre o verde das ervas, sobre as fontes
Pairam sinistras luas e sombrios
Sóis projetam a sombra sobre os montes.

Mas no horizonte lívido do dia
Recuam quando passa a nuvem fria
Os pássaros metálicos da morte.

E na amplidão da luz que resplandece
É de ti que surgiu a mão que tece
A esperança nova à humana sorte.

 

Arnaldo Carlos de Vasconcelos França (Praia, Cabo Verde, 1925 – 18/08/2015)
Poeta, ensaísta, professor e político, licenciado em Ciências Sociais e Políticas.

Aquilino Ribeiro – Seminário de Beja

Outubro 15, 2017 - Uma resposta

 

A “disciplina era branda e não se esfolava os joelhos a rezar”.

“Foi-se efetuando em mim o degelo da neve pura que era ao tempo em matéria de fé”.

Mas que andas tu aqui a fazer? – perguntava dentro de mim D. Quixote; E para onde hás-de ir?, contrapunha Sancho”.

 

RIBEIRO, Aquilino, Um Escritor Confessa-se

 

Aquilino Ribeiro (Tabosa do Carregal, 13/9/1885 – Lisboa, 27/5/1963)
Romancista, folhetinista, contista, novelista, professor, director da Seara Nova (1921), fundador e presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores (1956).

Antunes da Silva – Mãezinha, Quantos Anos Tem o Sol?

Outubro 15, 2017 - Leave a Response

 

“(…) – Mãezinha, quantos anos tem o Sol?

– O Sol tem talvez mais de um trilião de anos, Toni…

– Ih! tantos…

A mãe aconchegou-se ao filho, puxou-lhe a gorra de lã mais para as orelhas e retomou o trabalho do crochet (…)

– Mãezinha! Quantos anos tem o Sol? Onde é que ele nasce? Onde é que ele dorme a esta hora, mãezinha?!

– Não sei, meu filho. Já se sabe onde nascem e desaguam os rios, sabe-se quantas horas tem o dia, sabe-se quantos oceanos rodeiam a Terra. Mas ainda não se sabe a idade do Sol, nem onde ele nasce, nem onde ele dorme a esta hora. Talvez no nosso Alentejo, Toni, talvez na China…

Os homens (…) deviam acabar com as experiências militares, deviam acabar com as desavenças, os ódios e as invejas. Só com o amor, a paz e a amizade, os homens ficarão sabendo bem o que é o Sol, a Lua, o Vento e um dia descobrirão a linguagem das florestas, das montanhas e das planícies.

O Sol talvez nasça no Alentejo, filho. (…) Não vês o Sol agora tão loiro, tão loiro, como uma seara de trigo no mês de Julho? É aqui, sim, é talvez aqui que nasce o Sol, Toni!”

SILVA; Antunes da, Alentejo É Sangue

Antunes da Silva (Évora, 31/7/1921 –  Évora, 31/12/1997)
Poeta, contista, cronista, participou em várias publicações, escreveu dois diários.

Menotti del Piccahia – As Máscaras

Setembro 28, 2017 - Leave a Response

 

O teu beijo é tão doce, Arlequim…
O teu sonho é tão manso, Pierrô…

Pudesse eu repartir-me
encontrar minha calma
dando a Arlequim meu corpo…
e a Pierrô, minha alma!

Quando tenho Arlequim,
quero Pierrô tristonho,
pois um dá-me prazer,
o outro dá-me o sonho!

Nessa duplicidade o amor todo se encerra:
Um me fala do céu…outro fala da terra!

Eu amo, porque amar é variar
e , em verdade, toda razão do amor
está na variedade…

Penso que morreria o desejo da gente
se Arlequim e Pierrô fossem um ser somente.

Porque a história do amor
só pode se escrever assim:
Um sonho de Pierrô
E um beijo de Arlequim!

 

(Paulo) Menotti dei Piccahia (São Paulo, 20/3/1892 – São Paulo, 23/8/1988)
Poeta, romancista, cronista, ensaísta, jornalista, tabelião, advogado e pintor.

Martim Codax – Bailia ou Bailada

Setembro 28, 2017 - Leave a Response

 

Eno sagrado, em Vigo,

bailava corpo velido:

Amor ei!

 

Em Vigo, no sagrado,

bailava corpo delgado:

Amor ei!

 

Bailava corpo velido.

que nunca ouver´amigo:

Amor ei!

 

Bailava corpo delgado,

que nunca ouver´ amado:

Amor ei!

 

Que nunca ouver´ amigo.

ergas no sagrado’, em Vigo:

Amor ei!

 

Que nunca ouver´ amado,

ergas em Vigo no saqrado:

Amor ei!

 

Martim Codax (meados do séc. XIII – início de XIV)
Jogral galego.

Antônio Torres – A Estreia na Literatura

Setembro 26, 2017 - Leave a Response

“Estreei na literatura com uma epígrafe captada do final de Palmeiras selvagens, de William Faulkner: “Entre a dor e o nada, escolho a dor”.

Sim, tenho tentado me plasmar nos dramas humanos que descrevo, que, nos meus romances, levam à loucura, ao suicídio etc.

Doeu descrever, por exemplo, o sentimento de um velho pai, no final de Essa Terra. O encontro do protagonista de O Cachorro e o Lobo com uma tia esmoler.

Viver também não dói?”

 

Antônio Torres (Brasil, Sátiro Dias, 13/9/1940)
Romancista, cronista, autor de literatura infantil e juvenil, foi jornalista e publicitário no seu país e em Portugal.