Fiama Hasse Pais Brandão – Aforismo das Duas Bocas Poéticas

Janeiro 11, 2018 - Leave a Response

 

Aquela boca queria beber para ter sede sempre,

esta para se afogar bebendo.

 

Fiama Hasse Pais Brandão (Lisboa, 15/8/1938 – Lisboa, 19/1/2007)
Poetisa, romancista, dramaturga, ensaísta, tradutora
(Esposa de Gastão Cruz).

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Ruy Belo – Orla Marítima

Janeiro 11, 2018 - Leave a Response

 

O tempo das suaves raparigas

é junto ao mar ao longo da avenida

ao sol dos solitários dias de dezembro

Tudo ali pára como nas fotografias

É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto

alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar

És tu surges de branco pela rua antigamente

noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher

(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)

«Mudança possui tudo»? Nada muda

nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados

levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas

Deus anda à beira de água calça arregaçada

como um homem se deita como um homem se levanta

Somos crianças feitas para grandes férias

pássaros pedradas de calor

atiradas ao frio em redor

pássaros compêndios da vida

e morte resumida agasalhada em asas

Ali fica o retrato destes dias

gestos e pensamentos tudo fixo

Manhã dos outros não nossa manhã

pagão solar de uma alegria calma

De terra vem a água e da água a alma

o tempo é a maré que leva e traz

o mar às praias onde eternamente somos

Sabemos agora em que medida merecemos a vida

 

Ruy Belo (S. João da Ribeira, Rio Maior, 27/2/1933 – Queluz, 8/8/1978)
Poeta, ensaísta, crítico literário, tradutor, professor, leitor de Português, licenciado em Direito e Filologia Românica, doutorado em Direito Canónico.

Vitorino Nemésio – Aqui e Agora

Janeiro 9, 2018 - Leave a Response

 

Passei, transi ou fui? Transfui que trans?

Cis quê  ? Prefixo a que destino imoto?

Movido de que prós ou forças vãs,

Para que inércia ou paz de quid ignoto?

 

Eunte a que vindoiro alvo remoto?

Essente quê?  nihil no adverso mas

Que oponho ao ser, se o espírito derroto

(Meu, que o divino é altas barbacãs).

 

Tudo é cá tempo em espaço pervertido:

Ontem que abre amanhã no instante ardente

E se fecha no nunca humano havido

 

Para sempre ficar como jamais

Agora e aqui eu mesmo, – ermos sinais

De que Deus me povoa e me consente.

 

Vitorino Nemésio (Açores, Praia da Vitória, 19/12/1901 – Lisboa, 20/2/1978)
Poeta, romancista, cronista, ensaísta, biógrafo, historiador de literatura e cultura, jornalista, investigador, epistológrafo, filólogo, comunicador televisivo, professor universitário.

Luís Filipe Castro Mendes – Glosa a uns Versos de Nemésio

Janeiro 9, 2018 - Leave a Response

 

Se com quase quarenta anos mal começa,

ovo de tanta coisa, o coração,

que direi hoje, com quase sessenta anos?

Que névoa fria cerca agora o coração

e que voz de dentro resiste a essa névoa,

pois o amor não pára enquanto continuar

o mundo?

Abre os olhos, meu amor:

o mundo é vasto e diverso e brilha

por entre a névoa mais densa.

 

Luís Filipe Castro Mendes (Idanha-a-Nova, 1950)
Poeta, ficcionista, diplomata, licenciado em Direito.

Mário Castrim – Lágrimas, Não.

Janeiro 9, 2018 - Leave a Response

 

Lágrimas, não. Lágrimas, não. A sério –

Enfim, não digo que. É natural.

Mas pronto. Adeus, prazer em conhecer-vos .

Filhos, sejamos práticos, sadios.

 

Nada de flores. Rigorosamente.

Nem as velas, está bem? Se as acenderem

Sou homem para me levantar e vir

soprá-las, e cantar os «parabéns».

 

Não falem baixo: é tarde para segredos.

Conversem, mas de modo que eu também

oiça, e melhor a grande noite passe.

 

Peço pouco na hora desprendida:

Fique eu em vós apenas como se

Tudo não fosse mais que um sonho bom.

 

Mário Castrim (Ílhavo, 31/7/1920 – Lisboa, 15/10/2002)
Pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca.
Jornalista, contista, autor de literatura infantil e juvenil, poeta, ensaísta, marido de Alive Vieira e pai da jornalista e escritora Catarina Fonseca.

 

Alice Vieira – Aquele que o Meu Coração Ama

Janeiro 9, 2018 - Leave a Response

 

Aquele que o meu coração ama
não encontra em lado algum
o incenso que de meus olhos rompe
para ensinar a prender o corpo das mulheres
abandonadas fora de horas
às portas da cidade

mas sabe que para todas as distâncias
há uma ave enlouquecendo quem parte
do tempo
e a túnica que dispo entre os seus dedos
é a espada que os reis ungiram
para enfrentar a ameaça das manhãs
em que tudo acorda

 

VIEIRA, Alice, O que Dói às Aves

 

Alice Vieira (Lisboa, 1943)
Jornalista e escritora, licenciada em Filologia Germânica.

Affonso Romano de Sant´Anna – Cena Familiar

Janeiro 9, 2018 - Leave a Response

 

Densa e doce paz na semiluz da sala.

Na poltrona, enroscada e absorta, uma filha

desenha patos e flores.

Sobre o couro, no chão, a outra viaja silenciosa

nas artimanhas do espião.

Ao pé da lareira a mulher se ilumina numa gravura

flamenga, desenhando, bordando pontos de paz.

Da mesa as contemplo e anoto a felicidade

que transborda da moldura do poema.

A sopa fumegante sobre a mesa, vinhos e queijos,

relembranças de viagens e a lareira acesa.

Esta casa na neblina, ancorada entre pinheiros,

é uma nave iluminada.

Um oboé de Mozart torna densa a eternidade

 

Affonso Romano de Sant´Anna (Belo Horizonte, 27 de Março de 1937)
Poeta, cronista, ensaísta, esposo da poetisa Marina Colasanti.

Marina Colasanti – Outras Palavras

Janeiro 9, 2018 - Leave a Response

Para dizer certas coisas
são precisas
palavras outras
novas palavras
nunca ditas antes
ou nunca
antes
postas lado a lado.
São precisas
palavras que inventaram
seu percurso
e cantam sobre a língua.
Para dizer certas coisas
são precisas palavras
que amanhecem.

 

Marina Colasanti (Asmara, 26 /9/1937)
Contista, cronista, poetisa, autora de literatura infantil e infanto-juvenil e jornalista, esposa do poeta e escritor Affonso Romano de Sant´Anna.

Maria Rosa Colaço – Outra Margem

Janeiro 9, 2018 - Leave a Response

E com um búzio nos olhos claros
Vinham do cais, da outra margem
Vinham do campo e da cidade
Qual a canção? Qual a viagem?

Vinham p’rá escola. Que desejavam?
De face suja, iluminada?
Traziam sonhos e pesadelos.
Eram a noite e a madrugada.

Vinham sozinhos com o seu destino.
Ali chegavam. Ali estavam.
Eram já velhos? Eram meninos?
Vinham p’rá escola. O que esperavam?

Vinham de longe. Vinham sozinhos.
Lá da planície. Lá da cidade.
Das casas pobres. Dos bairros tristes.
Vinham p’rá escola: a novidade.

E com uma estrela na mão direita
E os olhos grandes e voz macia
Ali chegaram para aprender
O sonho a vida a poesia.

Maria Rosa Colaço (Torrão, Alcácer do Sal, 19/9/1935 – Lisboa, 13/10/2004)
Contista, poetisa, dramaturga, autora de literatura infantil, jornalista, professora e enfermeira.

Maria Ondina Braga – Natal Chinês

Janeiro 9, 2018 - Leave a Response

 

Menino Jesus vestido
De quimono de brocado,
No Velho Império nascido,
Como pareces cansado…

Eu, sim, que venho da calma
E das neves dos caminhos;
Dei a volta ao mundo: a alma
Trago-a coroada de espinhos…

Mas tu, de olhinhos estreitos,
Jesus Menino dos chins,
Tu que recebes respeitos
De culis e mandarins.

Tu que derrubas os budas
Dos seus tronos levantados,
Tu tão triste? – É do Judas
Que te trai em meus pecados.

Nessa face de marfim
Quanta fadiga se encerra!
– Será da morte de mim
Ou da morte desta terra?

Vestes de preto encarnado,

Bodas de amor anuncias,
Porém o gesto magoado
Não diz senão agonias…

Emprestou-te o escultor
Sua própria e amarga sina.
Menino Jesus de dor,
Tu és a alma da China.

 

Maria Ondina Braga (Braga, 13/1/1932 – Braga, 14/3/2003)
Contista, romancista, tradutora, autora de diversas publicações, professora – Goa, Angola, Macau e Pequim.