Antero de Quental – Amor Vivo

Janeiro 13, 2019 - Leave a Response

 

Amar! mas dum amor que tenha vida…

Não sejam sempre tímidos harpejos,

Não sejam só delirios e desejos

Duma douda cabeça escandecida…

 

Amor que vive e brilhe! luz fundida

Que penetre o meu ser — e não só beijos

Dados no ar — delírios e desejos —

Mas amor… dos amores que têm vida…

 

Sim, vivo e quente! e já a luz do dia

Não virá dissipá-lo nos meus braços

Como névoa da vaga fantasia…

 

Nem murchará do Sol à chama erguida…

Pois que podem os astros dos espaços

Contra débeis amores… se têm vida?

 

Antero de Quental (Ponta Delgada,18/4/1842 – Ponta Delgada,11/9/1891)
Poeta, filósofo e político. Licenciado em Direito.

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Alexandre O´Neill – A Meu Favor

Janeiro 12, 2019 - Leave a Response

 

A meu favor

Tenho o verde secreto dos teus olhos

Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor

O tapete que vai partir para o infinito

Esta noite ou uma noite qualquer

 

A meu favor

As paredes que insultam devagar

Certo refúgio acima do murmúrio

Que da vida corrente teime em vir

O barco escondido pela folhagem

O jardim onde a aventura recomeça.

 

Alexandre O´Neill (Lisboa, 19/12/1924 – Lisboa, 21/8/1986)
Poeta, cronista e tradutor, fundador do Movimento Surrealista de Lisboa com Mário Cesariny, José Augusto França e António Pedro.

Salette Tavares – Soneto Pateta III

Janeiro 12, 2019 - Leave a Response

 

Let us go, then, you and I

When the evening is spread

[out against the sky

T.S.ELIOT

 

Entrou um serafim

no meu jardim

que cheiro a alecrim…

 

da rosa carmim

para o jasmim

tramp´lim

do arlequim

p´ra mim

 

Salette Tavares (Lourenço Marques, Moçambique, 1922 – Lisboa, 1994)
Poetisa, licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas e dedicou-se aos estudos de: Linguística, Estética, e Teoria da Arte, integrou o grupo da poesia experimental e visual em Portugal.

Rosa Alice Branco – A divisibilidade dos aromas

Janeiro 12, 2019 - Leave a Response

 

Pela janela vem o cheiro da manhã, da relva

e das rosas salpicadas de fresco que se casam com o cheiro

dos lençóis sonolentos. Ao bater a porta já só sinto

o meu perfume, o que pomos por cima das certezas

e das dúvidas, por cima dos segredos que trespassam a pele.

Em breve me confundirei com o cheiro dos outros, daquele homem

vergado pelo saco de batatas, da florista a compor as margaridas,

da peixeira à porta da vizinha mostrando as goelas sangrentas

(talvez porque se tenha levantado cedo e apregoar assim

fere a garganta), das crianças a caminho da escola, de todos

os que hão-de cruzar o meu dia e de ti que hás-de cruzar

também a minha noite. Contar-te-ei todas as horas com a mistura

dos aromas que me compõem e ouvirei na tua pele

a subtil diferença entre os dias. Amanhã fecharemos a porta

e o teu cheiro irá entranhado em mim até uma distância infinita

das rosas que cantam à janela e seguirei pela estrada

estendendo a pele às dádivas do dia.

 

BRANCO, Rosa Alice, “Da Alma e dos Espíritos Animais”, Soletrar o Dia

 

Rosa Alice Branco (Aveiro, 1950)
Poetisa, mestre em Filosofia do Conhecimento.

Jorge de Sousa Braga – [Só Tu]

Janeiro 12, 2019 - Leave a Response

 

Só tu

sabes sorrir

na vertical

 

BRAGA, Jorge de Sousa, Fogo Sobre Fogo

 

Jorge de Sousa Braga (Vila Verde, 23/12/1957)
Poeta, tradutor e médico.

João Luís Barreto Guimarães – Decepção à Regra

Janeiro 11, 2019 - Leave a Response

 

Sentar-me e

ver os outros passar é o

meu exercício favorito. Entretém.

Não esgota.

É gratuito. Neste meu jogo-do-não

são os outros que passam

(é aos outros que reservo a tarefa

de passar). Lavo daí os pés.

Escrevo de dentro da vida.

Pode até parecer que assim não

chego a lugar algum mas também quem

é que quer ir

ao sítio dos outros?

 

João Luís Barreto Guimarães (Porto, 3/6/1967)
Poeta e cirurgião plástico.

Francisco José Viegas – As Areias das Praias

Janeiro 11, 2019 - Leave a Response

 

Desenha, sobre um mapa onde as ilhas possam flutuar

e as brancas peninsulas se abandonem às aves,

a incerteza do maior amor ou a tranquila

 

oscilação dos barcos nas enseadas onde o Inverno

pode adormecer. Na solidão, na noite, não demores

o tempo entre os anéis, os dedos tocam sempre

esses despojos de antigas navegações.

 

Por isso, nas horas mais tranquilas, entre as falésias,

dedico-me a essa ocupação de recolher o que as marés

trazem às praias, como se fosse ao coração.

 

VIEGAS, Francisco José, “Segredos”, Metade da Vida

 

Francisco José Viegas (Vila nova de Foz Côa, 14/3/1962)
Poeta, romancista, contista, dramaturgo, relator de viagens, cronista com o heterónimo António Sousa Homem, jornalista, licenciado em Estudos Portugueses.

Helga Moreira – [De Tanto Tentar Ver…]

Janeiro 11, 2019 - Leave a Response

 

De tanto tentar ver os lados eu fico tonta

e com o coração a milhas não devia falar.

Devia só no tempo de sombra e madrugar

sair de casa, cortar a eito os dias cinzentos.

 

MOREIRA, Helga, Desrazões

 

Helga Moreira (Quadrazais, Guarda, 29 /04/1950)
Poetisa, licenciada em Física.

Maria Teresa Horta – [Os Anjos Alados]

Janeiro 4, 2019 - Leave a Response

 

Oa anjos alados

da memória

 

com as suas asas

de pérgula

e medronho

 

a voarem noite dentro,

pelo sonho

 

HORTA, Maria Teresa, Antologia Poética

 

Maria Teresa Horta (Lisboa, 20/5/1937)
Poetisa, colaboradora de diversos jornais e revistas, pertenceu ao grupo Poesia 61 e aos movimentos cineclubista e feminista, co-autora do livro: Novas Cartas Portuguesas (1972) com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, tendo ficado conhecidas internacionalmente por: “As Três Marias”.

Ruy Belo – As Velas da Memória

Janeiro 4, 2019 - Leave a Response

 

Há nos silvos que as manhãs me trazem

chaminés que se desmoronam:

são a infância e a praia os sonhos de partida

 

Abrir esse portão junto ao vento que a vida

aquém ou além desta me abre?

Em que outro mundo ouvi o rouxinol

tão leve que o voo lhe aumentava as asas?

Onde adiava ele a morte contra os dias

essa primeira morte?

Vinham núpcias sem conto na inconcebível voz

Que plenitude aquela: cantar

como quem não tivesse nenhum pensamento.

 

Quem me deixou de novo aqui sentado à sombra

deste mês de junho? Como te chamas tu

que me enfunas as velas da memória ventilando: “aquela

[vez…”?

 

Quando aonde foi em que país?

Que vento faz quebrar nas costas destes dias

as ondas de uma antiga música que ouvida

obriga a recuar a noite prometida

em círculos quebrados para além das dunas

fazendo regressar rebanhos de alegrias

abrindo em plena tarde um espaço ao amor?

Que morte vem matar a lábil curva da dor?

Que dor me faz doer de não ter mais que morrer?

 

E ouve-se o silêncio descer pelas vertentes da tarde

chegar à boca da noite e responder

 

BELO, Ruy, Antologia Poética

 

Ruy Belo (S. João da Ribeira, Rio Maior, 27/2/1933 – Queluz, 8/8/1978)
Poeta, ensaísta, crítico literário, tradutor, professor, leitor de Português, licenciado em Direito e Filologia Românica, doutorado em Direito Canónico.