Luísa Costa Gomes – “Clausura e Disciplina”

Junho 9, 2018 - Leave a Response

 

“(…) Estive num colégio interno, mas não de freiras. Passei cinco anos no Instituto de Odivelas, que é para filhas de militares. A cena do crisma, por exemplo, de que já não me lembrava, foi uma amiga da época, hoje uma grande médica fisiatra no Hospital de S. José, que me contou.

Acho que fui eu mesma que fui a coxear, a imitar o bispo. Mas não tenho a certeza.

O livro* não é, no entanto, “autobiográfico”. Quem me dera que fosse. Para isso era preciso eu ter boa memória… Mas tem alguns ecos da experiência de clausura.

(…) Tinha dez anos quando entrei. Foi sobretudo a experiência de disciplina, que odiei, como todos os adolescentes, mas que me marcou para o resto da vida.

(…) Tornou-me trabalhadora e disciplinada. Se não tivesse tido, com a minha tendência natural para o devaneio, talvez nunca tivesse conseguido acabar nada.

Trabalhávamos das sete e meia da manhã às oito da noite, aulas todo o dia e mais três horas de estudo.

(…) Mas consegui, nos últimos anos, negociar meia hora para escrever no final do estudo. (…) Precisava absolutamente de o fazer e de ter aquele tempo para mim e para as minhas histórias. (…)

Quando saí de lá, aos 15 anos, para o liceu de Oeiras, acho que nem estudei mais… (…)”

 

In JL, “Elogio do humano”, 11 a 24 de abril de 2018

 

* Florinhas de Soror Nada – A Vida de uma Não-Santa (romance), Dom Quixote, Abril de 2018

 

Luísa Costa Gomes (Lisboa, 18/6/1954)
Contista, romancista, dramaturga, encenadora, tradutora, colaboradora em várias publicações, jornais e revistas, e programas de rádio e televisão, professora do ensino secundário, licenciada em Filosofia.

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Ana Hatherly – Poesia e Pintura

Junho 8, 2018 - Leave a Response

 

“Quando poesia e pintura se completam (…) surgem como a dupla face da capacidade humana da fantasia.”

 

Ana Hatherly (Porto, 08/05/1929 – Lisboa, 05/08/2015)
Poetisa, ensaísta, romancista, investigadora, tradutora, artista plástica, professora universitária, licenciada em Filologia Germânica e doutorada em Estudos Hispânicos, diplomada em cinema, foi uma das fundadoras do PEN Clube Português, que presidiu, membro da Direção da Associação Portuguesa de Escritores e fundou as revistas Escuro-Claro e Incidências.

Fernando Pessoa – [O mito…]

Junho 8, 2018 - Leave a Response

 

“O mito é o nada que é tudo…”

 

Fernando Pessoa (Lisboa 13/6/1888 – Lisboa, 30/11/1935 )
Poeta, escritor e tradutor, distinguiu-se pela criação de heterónimos, que o tornaram famoso.

Carlos Drummond Andrade – [Estou Preso à Vida…]

Junho 8, 2018 - Leave a Response

 

Estou preso à vida e olho meus companheiros

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

 

Carlos Drummond Andrade (Itariba, 31/10/1902 – Rio de Janeiro, 17/8/1987)
Poeta, contista e cronista brasileiro, licenciado em Farmácia.

Afonso Cruz – A De Alentejo

Junho 8, 2018 - Leave a Response

 

“O espaço e o tempo têm espessuras diferentes no campo, estão dilatados.

Se um astronauta for para o espaço, para longe de centros gravitacionais, e regressar, chegará mais velho do que o seu irmão gémeo que ficou em casa, pois o tempo na Terra teria passado mais devagar. No Alentejo também.

Se alguém for para Lisboa, o irmão gémeo quando o outro voltar à terra (e não à Terra).

– Estás velho – dirá ele para o irmão que foi para a capital, enquanto come azeitonas debaixo de um sobreiro.”

 

In JL, ” A Viagem da escrita e do pensamento”, 28 de março a 10 de abril de 2018

 

Afonso Cruz (Figueira da Foz, 1971)
Romancista, contista, realizador de filmes de animação, ilustrador e músico.

Alberto de Lacerda – [Esta Língua que Eu Amo]

Junho 8, 2018 - Leave a Response

 

Esta língua que eu amo

Com seu bárbaro lanho

Seu Mel

Seu helénico sal

E azeitona

Esta limpidez

Que se nimba

De surda

Quanta vez

Esta maravilha

Assassinadíssima

Por quase todos que a falam

Este requebro

Esta ânfora

Cantante

Esta máscula espada

Graciosíssima

Capaz de brandir os caminhos todos

De todos os ares

De todas as danças

Esta voz

Esta língua

Soberba

Capaz de todas as cores

Todos os riscos

De expressão

(E ganha sempre a partida)

Esta língua portuguesa

Capaz de tudo

Como uma mulher realmente

Apaixonada

Esta língua

É minha Índia constante

Minha núpcias ininterrupta

Meu Amor para sempre

Minha libertinagem

Minha eterna

Virgindade.

 

LACERDA, Alberto de, Exílio

 

Alberto de Lacerda (Ilha de Moçambique, 20/9/1928 – Londres, 26/8/2007)
Poeta, fundador da revista Távola Redonda com Ruy Cinatti, António Manuel Couto Viana e David Mourão-Ferreira, pintor, locutor e jornalista da BBC,  professor catedrático nos EUA, colecionador, detentor de vasta cultura.
Grande amigo de Luís Amorim de Sousa, a quem legou o seu  acervo artístico e literário.

Maria Gabriela Llansol – [Sou um cosmo…]

Junho 8, 2018 - Leave a Response

 

“Sou um cosmos de meditar.”

“Vivo os meus meses numa móvel amplitude.”

“Sim – digo-te, pousando as mãos nos teus joelhos – desejo encontrar alguém que me ame com bondade, e saiba ler. (…)

Alguém que deixe espaços entre as palavras para evitar que a última se agarre à próxima que vou escrever.

Alguém que admita que a cartografia dos animais e da pontuação não está ainda estabelecida.

Alguém que eu possa ler diferentemente depois de me ler.

Alguém que dirá aos animais e às plantas que nem sempre serão servos .

Alguém que ao nos amarmos se reconheça de material estelar.”

 

Maria Gabriela Llansol (Lisboa, 24/11/1931 – Sintra, 3/3/2008)
Contista, novelista, romancista, poetisa, autora de diários, tradutora, licenciada em Direito e Ciências Pedagógicas.

Lindley Cintra – Dialectos Portugueses

Junho 5, 2018 - Leave a Response

 

“(…) A oposição entre um Portugal permanentemente povoado, ocupado por uma população que, na sua maior parte, tem raízes muito antigas na terra que habita, população fundamentalmente avessa a inovações, e um Portugal repovoado nos séculos XII e XIII – o Portugal de colonização – ocupado nessa época relativamente tardia por uma população de várias proveniências que nele se misturou em localidades fundadas de novo ou totalmente reorganizadas, população propensa a criar ou a admitir formas de viver e de falar novas ou modificadas, tem sem dúvida consequências da maior importância. É ela que me parece estar na base de um dos traços essenciais – talvez o mais significativo – na estruturação lexical do território português.”

(…)

“Ora, o reconhecimento da existência de dialectos portugueses setentrionais, por oposição a dialectos portugueses centro-meridionais ou meridionais, ou, esse preferir, de um grupo de dialectos do Norte e de um grupo de dialectos do Sul, e o isolamento, em relação a uns e outros, do galego, vem da existência de certo número de traços fonéticos, fortemente caracterizadores e como tais sentidos pela maioria dos falantes. (…)

Quais os traços que, sem hesitação ou quase sem ela, um português do Sul (ou um falante da língua-padrão que nestes casos acompanha os dialectos centro-meridionais) reconhecerá como características de um português do Norte? (…)”

CINTRA, Luís Filipe Lindley, Três Estudos de Dialectologia Portuguesa

(continua)

Luís Filipe Lindley Cintra (Lisboa, 05/03/1925 — Sesimbra, 18/08/1991)
Filólogo, linguista, investigador, diretor do Boletim de Filologia e da Revista Lusitana (nova série), criador do Departamento de Linguística Geral e Românica da FLUL, coautor da Nova Gramática do Português Contemporâneo com Celso Cunha, professor catedrático.

Maria de Lourdes Belchior – Palavra

Junho 4, 2018 - Leave a Response

 

Onde as palavras lisas e límpidas

capazes de transportar

esta quotidiana inquietação

ração diária de gozo e dor?

Onde as palavras purificadas

do lastro do uso das nosas falas mortais?

Não mais na linha do horizonte a Palavra?

Enraízadas no terrunho; carregadas de sonoridade

sujas, enfarinhadas, as palavras senha do nosso falar

comum

fabricam o pão alimento, suporte do diálogo impossível.

Só palavras genesíacas, lustrais, abissais,

hão-de revelar e decifrar o verdadeiro nome das coisas?

Que linguagem, miragem do ser e do estar

há-de dizer homem, mundo, amor?

Na linha do horizonte impossível?

a Palavra?

Só no fim dos tempos decifrada?

 

BELCHIOR – Maria de Lourdes, Gramática do Mundo

 

Maria de Lourdes Belchior (1923 – 04/06/1988)
Ensaísta, investigadora, poetisa, professora catedrática, figura de renome na cultura portuguesa.

Jacinto do Prado Coelho – “Os escritores portugueses na encruzilhada”, excertos

Junho 4, 2018 - Leave a Response

 

“Há sobejos motivos para os Portugueses se orgulharem dos seus escritores. Durante cinquenta anos de repressão. ergueram estes uma literatura que, pela qualidade, pela riqueza, pela sintonização com o ritmo europeu, coloca o nosso país ao nível dos mais cultos.

Durante cinquenta anos sombrios, constituíram uma força inquebrantável na defesa da liberdade criadora e crítica – essa liberdade em que a ditadura via um dos seus piores inimigos.

Entretanto, a brusca viragem do 25 de Abril trouxe a muitos de nós, escritores, apreensão e perplexidade. (…)

Durante o I Congresso dos Escritores Portugueses, realizado em Maio de 1975, ainda na fase idealista da Revolução, desenharam-se duas correntes: uns, inquietos, reivindicaram a liberdade que, privilégio do escritor, lhe permitirá continuar a escrever como lhe der na real gana (pois não é a escrita o prazer da aventura e o itinerário barthiano do prazer?); outros, austeros, generosos, pensando não apenas na sua liberdade mas na liberdade alheia, liberdade pelo socialismo, apontaram como dever político do escritor comungar, lutar e escrever com o povo, na polissemia que a preposição faculta. (…)

Que os escritores obedeçam a si próprios, egocêntricos se são egocêntricos, niilistas se são niilistas. Isso, porém, não é só com eles, é connosco, falantes da mesma língua, membros da mesma comunidade. (…)”

COELHO, Jacinto do Prado, Ao Contrário de Penélope

 

Jacinto Prado Coelho (Lisboa, 1/9/1920 – Lisboa, 19/5/1984)
Escritor, crítico literário, ensaísta, poeta, quando era muito jovem, professor na FLUL, onde se licenciara em Filologia Românica (1941) e doutorara (1947).