Literatura Africana de Expressão Portuguesa – José da Silva Maia Ferreira – Porque Podes Duvidar?

Junho 25, 2017 - Leave a Response

Ingrata porque motivo
Cruel pode duvidar
Desse fogo lento e vivo

que é hoje o meu penar!
Foste tu que mo acendeste
Que desses olhos quiseste
Que eu bebesse o teu fitar! –

Qual mimosa a casta flor
Desfolhada pelo vento –
Assim me roubaste o amor –
Que é hoje o meu tormento.
Neste martírio de dor
Indas queres com rigor
Escaldar meu pensamento!

Queres provas de que te amo?
Desprende dos lábios teus
Um desejo que me inflama
Mostrar nele os votos meus!
Exiges de mim a morte?
Em tuas mãos a minha sorte
Entreguei perante os Céus!

Dize, fala, manda, ordena
Com a tua casta isenção
Aos tormentos me condena
Que nunca direi que não. –
Quer vivendo leda vida
Quer em sorte desabrida
Será teu meu coração!

 

José da Silva Maia Ferreira (Luanda, 7/6/1827 – Rio de Janeiro, 1881)
Poeta, colaborador no <em>Almanach de Lembranças</em>, Lisboa, 1879, foi estudante emLisboa, amanuense na Secretaria do Governo Geral de Angola, tesoureiro da Alfândega eoficial de Secretaria do Governo de Benguela.

Jorge de Sousa Braga – Gerês

Junho 25, 2017 - Leave a Response

 

Quando me levantei
já as minhas sandálias andavam
a passear lá fora na relva

Esta noite
até os atacadores dos sapatos
floriram

 

Jorge de Sousa Braga (Vila Verde, 23/12/1957)
Poeta, tradutor e médico.

João Luís Barreto Guimarães – Este Poema

Junho 24, 2017 - Leave a Response

 

este poema foi escrito ontem hoje não
vou escrever (na face nego sorrisos como
quem fecha janelas) hoje só preciso

de mim (este poema é grátis: não está
incluído no preço do livro). hoje não
tocarei o corpo da Corona Four uma

azerty americana já com uma certa
idade (ainda é das que escreve poesia a
preto e ranco) faz um mês que se

perdeu a tecla da letra « » só por isso não

tenho escrito sobre o rilho dos teus
olhos. o meu copo está vazio (hoje
não é poedia) depois eu mando alguém
uscar as minhas palavras

João Luís Barreto Guimarães (Porto, 3/6/1967)
Poeta e cirurgião plástico.

Grupos Naturais – Dar Carta Branca / Dar Cavaco / Dar Coice / Dar Confiança / Dar Corda / Dar de Caras (ou de ventas, de rosto)

Junho 24, 2017 - Leave a Response

 

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

 

Dar carta branca – inteira liberdade.

Ex.: O chefe deu-lhe carta branca para resolver o assunto.

 

Dar cavaco – não conversar; não aparecer; não ligar importância.

Ex.: O colega é muito estranho, não dá cavaco a ninguém.

 

Dar coice – pagar com ingratidão.

Ex.: Depois de tanta ajuda, deu-lhe um coice.

 

Dar confiança – importância; entrar em intimidades.

Ex.: Não dês confiança a estranhos.

 

Dar corda – estimular a falar.

Ex.: Dá-lhe corda, que ela nunca mais se cala.

 

Dar de caras (ou de ventas, de rosto) – encontrar-se frente a frente .

Ex.: Acabei de dar de caras com a tua amiga.

(continua)

Tiago Torres da Silva – Um Escritor de Olhos Tristes (continuação)

Junho 17, 2017 - Leave a Response

 

“(…) Este poeta já falecido, gostava de beber! Eu gosto de poetas que bebem. Eu gosto de poetas que bebem. Eu gosto de poetas que vivem. Prefiro os que sofrem aos que não sentem. Prefiro os que riem aos que choram. Mas muitas vezes, também eu encontro prazer nas lágrimas, ou não fosse eu tão do fado!

Este escritor que é vivo e bem vivo, de olhos tristes emoldurados por piercings chama-se José Luís. Há quem o trate por Peixoto. Eu ainda não sei como o hei-de tratar. Por isso, trato de agradecer por me ter feito seu contemporâneo, e contento-me por ver o meu nome ao lado do seu em discos, em livros, nas páginas deste jornal… por ler as suas palavras das quais, de vez em quando, tenho absoluta necessidade de me afastar pela angústia, pela tristeza, pelo desespero.

E continuo, timidamente, a observá-lo de longe.”

 

In JL, “Debate-papo”, 22 Novembro – 5 Dezembro 2006

 

Tiago Torres da Silva (Lisboa, 29/12/1969)
Poeta, ficcionista, cronista, letrista, dramaturgo, encenador, engenheiro zootécnico.

José Manuel Mendes – “não voltarás”

Junho 17, 2017 - Leave a Response

 

não voltarás
olhando as ruas
na vidraça nua os zimbros
da terra ocre

moras secreta nestes barros
tua flauta canta nas montanhas
pedras e trepadeiras se enroscam
perto do teu rosto
e são de
água

sabes plantar o odor
dos frutos
tangerina limão
pássaras orvalho
a nervura das manhãs
e o lume dos poemas
quente metalurgia
das palavras

como ontem (tu eras morta)
prolonga-te nestas mãos
no maio das rotas
de abril
tecidas

MENDES, José Manuel, Rosto Descontínuo

José Manuel Mendes (Luanda, Setembro de1948)
Poeta, ficcionista, cronista e ensaísta, licenciado em Direito, professor universitário.

José Miguel Pinheiro de Oliveira – Eu queria de ti um país

Junho 17, 2017 - Leave a Response

 

Queria de ti um país
como aquele em que viveu Cesariny.
Não fui ainda capaz de te dizer, sabes:
You are Welcome to Elsinore.

Para fazer de ti um país
atravessaria os muros habitados da fronteira
rasgava as cartas de marear culpadas de naufragar
a partia outra vez numa casca de noz rumo ao Oriente.

Eu queria de ti um país
e escutar silêncio na onda do teu sopro
ao meu ouvido encantava apenas ouvir-te respirar
para comprovares a verdade anatómica dos meus músculos
seria marinheiro sem saber nadar
morreria afogado na corrente dos teus olhos
pela luz queme deste a estes versos
com o músculo liso do coração aos tropeços.

Não fui capaz de te dizer que vi em ti o meu país
pequeno
do tamanho do meu quarto.

Nos teus lábios os meus nasceriam certamente
como as flores que nascem em Maio
geograficamente inclinadas para a nascente.

Por isso vem visitar-me
outro dia, outra noite:
You are always welcome to Elsione.

Farei dos versos um país com casas, caminhos, pontes
e de ti uma caixa de ressonância para o meu canto do cisne
Agora.

Porque a morte pode não me querer esperar
e eu quero um país para morrer.

Badajoz 2007

(poema premiado, 2.º lugar, na IX edição do concurso nacional de poesia
Agostinho Gomes – Oliveira de Azeméis 2008)

In Nova Antologia de Poetas Alentejanos

 

José Miguel Pinheiro de Oliveira (Delães, Vila Nova de Famalicão, 26/05/1973)
Escritor, licenciado em Filosofia, professor no Alentejo.

Santo António – Os Vilãos e os Pobres

Junho 15, 2017 - Leave a Response

“O pálio vermelho (…) representa a substância dos pobres alcançada com o suor e com o sangue, e usurpam-na os cavaleiros, os burgueses, os usurários e os avaros.

Os poderosos e os ricos do século roubam os pobres, a quem chamam os seus vilãos. Mas os verdadeiros vilãos do Diabo são esses que de mil maneiras sugam o sangue e a substância dos pobres.”

 

SARAIVA, António José,  A Cultura em Portugal, Teoria e História, Livro II,  Primeira Época: A Formação

António Osório – Camões

Junho 15, 2017 - Leave a Response

 

Lia-me Camões meu Pai.

A tristeza de ambos

se juntava, em mim crescia.

E a voz, a inalterável

mergulhia das palavras

procriavam sarmentosos liames.

(Basílico a Mãe depunha no lume,

a carne com alecrim perfumava).

O livro de carneira negra,

as letras juntas em oiro:

morros, alusões, muros

verdentos, o último da vida ouvia.

Amor doía, emaranhava.

Mordaça invisível. Em lágrimas,

minhas, de meu Pai e de Camões, voava.

 

António Osório [de Castro] (Setúbal, 1/8/1933)
Poeta, colaborador das revistas: O Tempo e o Modo, Seara Nova, Vértice e Colóquio/Letras, um dos fundadores da Anteu, 1954,  licenciado em Direito.

José de Alencar – A Poesia

Junho 15, 2017 - Leave a Response

“A poesia, como todas as coisas divinas, não se define; uma palavra a exprime, porém mil não bastam para explicá-la. (…)”

ALENCAR, José de, Iracema, “Cartas sobre A Confederação dos Tamoios”, Quarta Carta

José de Alencar (Fortaleza, 1/5/1829 – Rio de Janeiro, 12/12/1877)
Romancista, cronista, dramaturgo, crítico, jornalista, orador, polemista, político, advogado.