Sidónio Muralha – Boa Noite

Abril 16, 2019 - Leave a Response

 

A zebra quis

ir passear

mas a infeliz

foi para a cama

 

– teve de se deitar

porque estava de pijama.

 

Sidónio Muralha (Lisboa, 28/7/1920 – Curitiba, Paraná, Brasil, 8/12/1982)
Poeta preocupado com as injustiças sociais, escritor de literatura para crianças, integrou o Movimento Neo-Realista e o Novo Cancioneiro.

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Vanda Sôlho – Até Onde A Vista Alcança

Abril 16, 2019 - Leave a Response

 

Meus sentidos vão rolando sobre o mar,

correm até onde a vista alcança

perdem-se entre vagas de incerteza

e ficam entre espuma, água e céu…

à espera que o mar, na sua dança,

encontre e me devolva essa pureza

que um dia noutras ondas se perdeu.

 

SÔLHO, Vanda, Poemas para Ti

 

Vanda Sôlho (Setúbal, Janeiro de 1949)
Poetisa, fotógrafa, bacharel em Comunicação Social.

Maria Alberta Menéres – [As Leituras e as Escritas…]

Abril 16, 2019 - Leave a Response

 

“(…) As leituras e as escritas que afinal vivem ao nosso lado: tão naturais como a escrita do vento – que escreve nas folhas a abanar a intensidade da sua força. Como as gaivotas – que deixam nas areias das praias as suas claríssimas pegadas, a escrever que estiveram ali. Como o raio – escrevendo por aqui e por além a sua fulminante passagem. Como as águas – que escreveram nos vales e declives, seus leitos de rios e de mares com destino. Como o arado, símbolo primeiro da poesia – escrevendo na terra-mãe que esta haverá de produzir seus frutos. (…)”

 

MENÉRES, Maria Alberta, O Que é Imaginação

 

Maria Alberta Menéres (Vila Nova de Gaia, 25/8/ 1930 – Lisboa, 2019/04/15)
Professora, tradutora, jornalista, poetisa e escritora infanto-juvenil, mãe da cantora Eugénia Melo e Castro.

António Botto – Cinco Réis de Gente

Abril 7, 2019 - Leave a Response

 

Cinco réis de gente

Vai sempre na frente

Dos outros que vão

Cedo para a escola;

Corpinho delgado,

O olhar mariola,

– Belos os cabelos,

Quantos caracóis!

Mas as mangas rotas

Nos dois cotovelos

São de andar no chão

Atrás dos novelos!

Nos olhos dois sóis

Que alumiam tudo!

A mãe tecedeira,

Perdeu o marido

Mas vive encantada

Para o seu miúdo.

 

António Botto (Concavada, Abrantes, 1897 – Rio de Janeiro, 12-3-1959)
Poeta, autor de contos infantis, O Livro das Crianças, amigo de Fernando Pessoa.

Eduardo Prado Coelho – “Nascer sem fim” – Autobiografia

Abril 7, 2019 - Leave a Response

 

“Nasci em 29 de março de 1944. A guerra chegava, eu começava a nascer.

Trata-se de nascer todos os dias, de adiar a morte, de a não ver. Nasci muitas vezes. Um dia fui nascendo ao chegar a Paris, em outubro de 1987. Um dia levantei-me e olhei-me no espelho, passei água pela cara amarfanhada pelo sono: estávamos em Abril de 1974, era a revolução dos cravos, viemos para a rua ver o que se passava, tínhamos começado a nascer para a democracia. Para a liberdade, uns para os outros, livres. A minha mãe entusiasmou-se e, como morava em frente da Penitenciária, vinha para a rua dar de comer aos soldados que procuravam proteger-se do frio.

Em 29 de março de 2004 combinámos ir jantar fora para festejar os meus anos (eram 60 anos, uma mutação na vida de uma pessoa) num restaurante nos arredores de Lisboa, ao que parece. Mas, antes de irmos, passaríamos por casa da Margarida Lages.

Nasci mais uma vez com essa surpresa: esperava na sala, de luzes apagadas, um grupo de amigos próximos, alguns antigos, alguns mais recentes, e um jantar com vários protocolos de aniversário.

Havia textos que os mais dotados para a escrita haviam redigidos: textos no meu estilo, textos de uma amizade às vezes irónica. Reinava a imaginação. A Ana tinha concebido tudo com a cumplicidade da Margarida. Trocaram mails que formavam um dossier de contactos.

Nasce-se quando a vida de repente é mais clara porque vemos o sorriso encantado daqueles a quem chamamos amigos. Com o tempo a amizade começa a ser algo que está cada vez mais dentro de nós. (…)”

In JL de 11/05/2005

(continua)

 

Eduardo Prado Coelho (Lisboa, 29/3/1944 – Lisboa, 25/8/2007)
Escritor, crítico literário, ensaísta, colunista, comentador político, grande difusor da cultura, professor universitário, licenciado em Filologia Românica e doutorado pela FLUL, filho de Jacinto do Prado Coelho e pai da jornalista Alexandra Prado Coelho.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Germano d´Almeida, O Homem e o Escritor de A a Z (M)

Abril 7, 2019 - Leave a Response

 

M DE MEMÓRIA

Faz-me lembrar o testamento de um tal Charles Lounsbury, que decidiu distribuir os seus bens neste mundo entre os homens que viriam depois dele: aos pais e mães, deixou todas as palavras de louvor e todos os apelidos carinhosos, mas para eles usarem generosamente a favor dos filhos pequenos; às crianças deixou as flores do campo e o direito de brincar no meio delas e também as areias douradas e as nuvens brancas que flutuam no céu;  aos amantes deixou o mundo imaginário, as estrelas do firmamento, as rosas vermelhas, os suaves acordes da músicas e tudo o mais que desejarem para a beleza do seu amor; e para aqueles que já não são nem crianças, nem jovens, nem amantes, deixou a MEMÓRIA!

Tenho uma deliciosa memória da minha infância na Boa Vista. Ter nascido na Boa Vista, numa zona da vila que servia de fronteira entre o mundo rural e o urbano, permitiu-me crescer numa liberdade quase selvagem. E ter estado a morrer afogado no mar por volta dos setes anos. Todas essas memórias fazem de mim o homem que sou.”

 

In JL de 6 a 19 de junho de 2018

(continua)

 

Germano d´ Almeida (Boa Vista, Cabo Verde, 1945)
Contista e romancista, Prémio Camões (2018), advogado.

Gentílicos ou Pátrios de Estados e Territórios – Santa Helena; Santa Lúcia; Santa Sé (Estado da Cidade do Vaticano); São Marino; São Tomé e Príncipe; São Vicente e Granadinas; Sara Ocidental

Abril 7, 2019 - Leave a Response

 

Gentílicos ou pátrios – nomes que indicam: nacionalidade, origem ou lugar de nascimento, residência de alguém ou proveniência de alguma coisa.

Eis alguns, de estados e territórios:

Santa Helena ———————————————— de Santa Helena

Santa Lúcia ————————————————– santalucience

Santa Sé (Estado da Cidade do Vaticano)—— da Santa Sé

São Marino ————————————————— são-marinense

São Tomé e Príncipe ———————————— santomense

São Vicente e Granadinas ——————– de São Vicente e Granadinas

Sara Ocidental ——————————————— saraui / sarense

(continua)

Fernando Namora – Apenas uma Laranja, Prólogo

Abril 4, 2019 - Leave a Response

 

Apenas uma Laranja é o título da edição japonesa de Retalhos da Vida de um Médico cujo prólogo foi redigido pelo seu autor.

 

“Um homem é feito de muitos homens. De muitos ritos. De experiências por vezes quase antagónicas e que, ao sedimentarem, se olham, como de longe, com um sentimento de amargurada perplexidade.

O tempo correu, as distâncias acentuaram-se. E assim, ao confrontar-me com os livros que escrevi há alguns anos, sou levado, simultaneamente, a medir-me com o homem que eu fui e que talvez não coincida inteiramente com o homem que hoje sou. (…)

Em Retalhos, o médico, o homem e o escritor fundem-se numa única voz. Porém, nessa fusão apaixonadamente compartilhada participam ainda os heróis e as ambiências que justificaram a obra. Uma obra que nasceu como um grito. O grito de uma vivência experimentada como um mergulho nas águas do sofrimento e do júbilo, do ódio e do amor (…)

A medicina, porque convive com o ser humano desembaraçado de máscaras, pode desvendar os mais secretos abismos da nossa perturbadora complexidade. E, ao desvendá-los, elucida-nos também sobre o contexto social em que se desenrola o teatro das paixões.

De tudo isto, creio, os Retalhos dão sinais. (…) destaca-se uma atmosfera humana por vezes muito singularizada e, a olhos estranhos, vincadamente exótica: o ambiente português, sobretudo quando a atenção do escritor incide sobre o mundo real. (…)

De qualquer modo, toda esta alvoraçada peregrinação do livro por leitores de múltiplas latitudes me faz concluir que, quando o escrevi sem cálculos nem ambições, estava a marcar-lhe o seu verdadeiro destino: o de ele pretender testemunhar uma vivência em que realidade e transfiguração literária se conjugam na mesma veracidade. (…)

Se este livro é um grito, também será um apelo: um apelo à compreensão. Humildemente, ouso instigar, pois, os meus longínquos leitores japoneses a partilharem dessa cadeia humanística. Os portugueses foram dos primeiros a pesquisar terras e gentes do enigmático Oriente. Que este livrinho despretensioso persista simbolicamente nesse encontro fascinado e dele colha as laranjas dos pomares da fraternidade.”

 

In JL s/ data

 

Fernando Namora (Condeixa, 15/4/1919 –Lisboa, 31/1/1989)
Poeta, contista, romancista, novelista, biógrafo, escritor de memórias e narrativas de viagens.
Licenciado em Medicina.

Sophia – A Escrita

Abril 4, 2019 - Leave a Response

 

No Palácio Mocenigo onde viveu sozinho

Lord Byron usava as grandes salas

Para ver a solidão espelho por espelho

E a beleza das portas quando ninguém passava

 

Escutava os rumores marinhos do silêncio

E o eco perdido de passos num corredor longínquo

Amava o liso brilhar do chão polido

E os tectos altos onde se enrolam as sombras

E embora se sentasse numa só cadeira

Gostava de olhar vazias as cadeiras

 

Sem dúvida ninguém precisa de tanto espaço vital

Mas a escrita exige solidões e desertos

E coisas que se vêem como quem vê outra coisa.

 

Pudemos imaginá-lo sentado à sua mesa

Imaginar o alto pescoço espesso

A camisa aberta e branca

O branco do papel as aranhas da escrita

E a luz da vela – como em certos quadros –

Tornando tudo atento

 

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o Prémio Camões (1999)

Alberto da Costa e Silva – Amor aos Sessenta

Abril 4, 2019 - Leave a Response

 

Isto que é o amor (como se o amor não fosse

esperar o relâmpago clarear o degredo):

ir-se por tempo abaixo como grama em colina,

preso a cada torrão de minuto e desejo.

Ser contigo, não sendo como as fases da lua,

como os ciclos de chuva ou a alternância dos

[ ventos,

mas como numa rosa as pétalas fechadas,

como os olhos e as pálpebras ou a sombra dos

[ remos

contra o casco do barco que se vai, sem avanço

e sem pressa de ausência, entre o mito e o beijo.

Ser assim quase eterno como o sonho e a roda

que se fecha no espaço deste sol às estrelas

 

e amar-te, sabendo que a velhice descobre

a mais bela beleza no teu rosto de jovem.

 

Alberto da Costa e Silva (São Paulo, 12/5/1931)
Poeta, ensaísta, memorialista, historiador, diplomata, filho do poeta António Francisco da Costa e Silva. Galardoado com o Prémio Camões em 2014.