Archive for Março, 2019

Maria Amália Vaz de Carvalho – Carta 1 – Educação, Moralização, Excerto
Março 27, 2019

 

” (…) A primeira coisa que a mulher não aprende, e que devia aprender, é a pensar. Dominar o seu destino, julgá-lo, modificá-lo quando seja conveniente, eis uma faculdade que só podem ter as que raciocinam e as que sabem. (…)

O homem e a mulher completam-se um pelo outro; sem serem iguais, são idênticas as funções que têm de exercer para atingirem o fim do seu destino moral. (…) Juntos, são um organismo completo, harmónico, que funciona na ordem natural das coisas; separados, desengrenados, produzem em torno de si a confusão e a anarquia.

(…) A primeira coisa que eu desejaria é que a mulher se compenetrasse dos seus deveres para os cumprir religiosamente, e dos seus direitos para os fazer rigorosamente respeitar. (…)”

 

CARVALHO, Maria Amália Vaz, Cartas a Luísa

 

Maria Amália Vaz de Carvalho (Lisboa, 2/2/1847 – Lisboa, 24/3/1921)
Poetisa, contista, ensaísta, crítica literária, biografista, colaboradora em várias publicações, foi a primeira mulher a ingressar na Academia das Ciências de Lisboa, criou na sua casa o primeiro salão de literatura de Lisboa, frequentado por: Camilo, Eça, Ramalho e Junqueiro, entre outros, esposa do poeta Gonçalves Crespo, com quem escreveu: Contos para os Nossos Filhos.

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Gonçalves Crespo – [Sonhei: de Novo Suspirava o Vento]
Março 27, 2019

 

Sonhei: de novo suspirava o vento

Das tílias sob a cúpula odorante;

E, como outrora, ouvia o juramento

Do teu amor constante.

 

Que protestos de amor nesse momento!

Mas, na febre dos beijos que me deste,

Como para gravar o juramento,

Em meus dedos mordeste!

 

Dona de riso alegre, ó meu tormento!

Dona de olhos azuis, ó minha amada!

Já me basta o doce juramento,

Foi de mais a dentada!

 

Gonçalves Crespo (Rio de Janeiro, 11/3/1846 – Lisboa, 11/6/1883)
Poeta, colaborador em diversas publicações, deputado, licenciado em Direito – Univ. de Coimbra -, marido da escritora Maria Amália Vaz de Carvalho, com quem escreveu: Contos para os Nossos Filhos.

Saúl Dias –Ali
Março 27, 2019

 

Ali sofreste. Ali amaste.

Ali é a pedra do teu lar.

Ali é o teu, bem teu lugar.

Ali a praça onde jogaste

o que o destino te quis dar.

 

Ali ficou tua pegada

impressa, firme, sobre o chão.

Ninguém a vê sob o montão

de cinza fria e poeirada?

Distingue-a, sim, teu coração.

 

Podem talvez o vento, a neve,

roubar a flor que tu criaste?

Ali sofreste. Ali amaste.

Ali sentiste a vida breve.

Ali sorriste. Ali choraste.

 

Saúl Dias (Vila do Conde, 1/11/1902 – Vila do Conde, 1983)
Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira
Irmão de José Régio, poeta, pertenceu ao Movimento da Presença, colaborador em vários jornais, desenhador e pintor – assinava as suas obras com o nome próprio -, engenheiro civil.

José Tolentino de Mendonça – Ardis
Março 27, 2019

 

A incompreendida figura do amor

a céu descoberto sem que se exprima

rodeamo-nos de vinganças, medidas, ardis

e enchemos os livros da ardente ausência

de nós próprios

 

Ao entardecer corremos

ao pontão sobre o mar

e a vida só se parece

com alguma coisa que sabemos

 

José Tolentino Mendonça (Machito, Madeira, 15/12/1965)
Poeta, ensaísta, sacerdote, professor universitário.

Vinicius de Moraes – Soneto de Separação
Março 27, 2019

 

 

De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

 

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama.

 

De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente.

 

Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.

 

Vinicius de Moraes (Rio de Janeiro, 19/10/1913 – Rio de Janeiro, 9/7/1980)
Poeta, jornalista, compositor, diplomata.

Luís de Camões – [O Céu, a Terra, o Vento Sossegado…]
Março 27, 2019

 

O céu, a terra, o vento sossegado…

As ondas, que se estendem pela areia…

Os peixes, que no mar o sono enfreia…

O nocturno silêncio repousado…

 

O pescador Aónio, que, deitado

Onde co vento a água se meneia,

Chorando, o nome amado em vão nomeia,

Que não pode ser mais que nomeado:

 

– Ondas – dezia – antes que Amor me mate,

Tornai-me a minha Ninfa, que tão cedo

Me fizestes à morte estar sujeita.

 

Ninguém lhe fala; o mar de longe bate;

Move-se brandamente o arvoredo;

Leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita.

 

Luís de Camões (1517 e 1524(?) – Lisboa. 10/6/1580)
O maior poeta português de todos os tempos.

Eduardo Pitta – [Agora que as Palavras Secaram…]
Março 27, 2019

 

 

Agora que as palavras secaram

e se fez noite

entre nós dois,

agora que ambos sabemos

da irreversibilidade

do tempo perdido,

resta-nos este poema de amor e solidão.

 

No mais é o recalcitrar dos dias,

perseguindo-nos, impiedosos,

com relógios,

pessoas,

paredes demasiado cinzentas,

todas as coisas inevitavelmente

lógicas.

 

Que a nossa nem sequer foi uma história

diferente.

A originalidade estava toda na pólvora

dos obuses, no circunstanciado

afivelar

dos sorrisos à nossa volta

e no arcaísmo da viela onde fazíamos amor.

 

Eduardo Pitta (Lourenço Marques, atual Maputo, 9/8/1949)
Poeta, romancista, contista, ensaísta, crítico literário, colaborador em publicaçãos literárias.

Nuno Júdice – Plano
Março 27, 2019

 

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor

que se despeja no copo da vida, até meio, como se

o pudéssemos beber de um trago. No fundo,

como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na

boca. Pergunto onde está a transparência do

vidro, a pureza do líquido inicial, a energia

de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta

são estes cacos, que nos cortam as mãos, a mesa

da alma suja de restos, palavras espalhadas

num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira

hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,

esperando que o tempo encha o copo até cima,

para que o possa erguer à luz do teu corpo

e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

 

PEDROSA, Inês, Poemas de Amor, Antologia de Poesia Portuguesa

 

Nuno Júdice (Mexilhoeira Grande, Algarve, 1949)
Escritor, poeta, ensaísta, colaborador em várias publicações, professor catedrático.

Maria do Rosário Pedreira – [Esta Manhã Encontrei o teu Nome…]
Março 27, 2019


 

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos

e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo

doeu-me onde antes os teus dedos foram aves

de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

 

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha

camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração

que era o resto da vida – como um peixe respira

na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

 

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti

é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara

um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo

um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

 

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,

mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota

as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.

 

Maria do Rosário Pedreira (Lisboa, 1959)
Poetisa, romancista, ensaísta, cronista, autora de literatura juvenil, editora, tradutora, professora, licenciada em Línguas e Literaturas Modernas.

Bocage – [Nascemos para Amar…]
Março 27, 2019

 

Nascemos para amar; a humanidade

Vai, tarde ou cedo, aos laços da ternura:

Tu és doce atractivo, ó formosura,

Que encanta, que seduz, que persuade.

 

Enleia-se por gosto a liberdade;

E depois que a paixão n alma se apura,

Alguns então lhe chamam desventura,

Chamam-lhe alguns então felicidade.

 

Qual se abisma nas lôbregas tristezas,

Qual em suaves júbilos discorre,

Com esperanças mil na ideia acesas.

 

Amor ou desfalece, ou pára, ou corre:

E, segundo as diversas naturezas,

Um porfia, este esquece, aquele morre.

 

Manuel Maria Barbosa du Bocage (Setúbal, 15/9/1765 – Lisboa, 21/12/1805)
Poeta.