Archive for Maio, 2017

Eugénio de Castro A Laís
Maio 31, 2017

 

À ciprina Laís, de quem sou tributário.
A Laís, que possui compridas tranças pretas,
P’lo meu escravo mandei, no seu aniversário,
Um cacho moscatel num cabaz de violetas.

Os amantes, que dão às suas namoradas
Fulgurantes anéis de riqueza estupenda,
Luminosos rocais e redes consteladas,
Hão-de sorrir, bem sei, da minha humilde of’renda.

Pensei em dar-lhe, é certo, um precioso colar
E um anel com mais luz do que o incêndio de Tróia,
Mas reconsiderei de pronto, ao atentar
Que ainda ninguém viu dar jóias a uma jóia…

 

Eugénio de Castro (Coimbra, 4/3/1869 – Coimbra, 17/8/1944)
Poeta, marcou o início do Simbolista em Portugal com o livro de poemas Oaristos (1890), colaborou nas revistas Os Insubmissos e Boémia Nova, licenciado em Letras, professor catedrático.

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Augusto Gil – Canção da Mãe
Maio 29, 2017

 

Dorme, dorme, meu menino,
Foi-se o Sol, nasceu a Lua.
Qual será o teu destino?
Que sorte será a tua?…

Riquezas tenhas tão grandes,
E tal bondade também,
Que ao redor donde tu andes
Não fique pobre  ninguém.

Que a todos chegue a ventura;
Toda a boca tenha pão,
Toda a nudez cobertura,
Toda a dor consolação…

Mas, se o oiro é mau caminho,
– Antes tu venhas a ser
O pobre mais pobrezinho
De quantos pobres houver.

Iremos por esses montes
Altos e azuis como os céus…
Que onde há frutos e onde há fontes
– Está a mesa de Deus!

E quando a neve cair
E as seivas adormecerem,
Iremos então pedir…
(Aceitar o que nos derem).

Andaremos à mercê
Dos génios bons e dos falsos,
Léguas e léguas a pé,
Rotinhos, magros, descalços…

E onde houver urzes e tojos,
Pedras que rasgam a pele,
Porei o corpo de rojos,
– Passsarás por cima dele!

 

Augusto Gil (Lordelo do Ouro, 31/7/1873 – Guarda, 26/11/1929)
Poeta, colaborador de jornais, advogado, director-geral das Belas-Artes.

Adolfo Portela – A Procissão
Maio 29, 2017

Nas ruas da nossa aldeia
Vai passando a procissão:
Tamborileiros à frente,
E logo atrás o pendão.

Mordomos da confraria
Levam os anjos p´la mão;
Muito grave, o juiz da festa
Dá ordens ao sacristão.

Há colchas pelas varandas,
Alfazema pelo chão.
Lá vêm agora os andores,
Ricos andores que são!

O pálio é todo de seda;
Mete latim e sermão.
Parabéns, senhor Vigário,
A Festa faz um vistão.

 

Adolfo Rodrigues da Costa Portela (Águeda, 16/08/1866 – Fundão, 17/11/ 1923)
Poeta, contista, dramaturgo, ensaísta, crítico literário, tradutor, jornalista, músico, compositor, advogado, tesoureiro e administrador de concelhos.

António Correia de Oliveira – Canção da Candeia Acesa
Maio 29, 2017

Humilde candeia acesa
em casa do cavador;
luz da pobreza – bendita!
luz infinita do Amor!

Vem p´la noite negra adiante
um homem que se perdeu…
Vê no escuro uma estrelinha,
lá tão distante…
mas na terra, não no céu…

E diz-lhe a vaga luzinha:
– Olha p´ra mim, e caminha,
Vem até mim, que sou eu…

E ele chega àquela porta,
nela bateu…
Abre-se a porta, e ei-la acesa
-parece o Sol! –
em casa do cavador;
luz da pobreza – bendita!
luz infinita do Amor!

 

António Correia de Oliveira (S. Pedro do Sul, 1878 – Antas, 1960)
Poeta, jornalista, participou no Movimento Integralista Lusitano e nas revistas: Águia, Atlântida, Ave Azul e Seara Nova.

Afonso Lopes Vieira –À Lareira
Maio 29, 2017

Escutando e olhando o longo lume brando,
As Avós vão cismando…
E os netinhos dormindo
sonham, sorrindo,
quanto sonho lindo!
Dormem, muito bem deitados,
Fazendo ó ó, tão descansados!

E o lume canta e rebrilha,
o lume, a fulva maravilha!

O lume que, sob a dourada asa,
protege e aquece o coração da casa.

O lume dos longos serões
das saudades e das recordações…

O lume que refulge e doira
a velha avó, tornando-a loira!
E os netinhos dormindo,
sonham, sorrindo,
quanto sonho lindo!
E olhando e escutando o longo lume brando,
As avós vão cismando…

Afonso Lopes Vieira (Leiria, 1878 –Lisboa,1946)
Poeta, representante do Neogarretismo, ligado à Renascença Portuguesa, licenciado em Direito.

Grupos Naturais – Dar Balanço / Dar Banquetes / Dar… Barato / Dar Batalha (Combate) / Dar (um) Beijo(s) / Dar Berro(s) / Dar Boa Conta de 
Maio 28, 2017

 

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

Dar balanço – verificar despesas e receitas do ano ou período.

Ex.: Ontem a Mariazinha não abriu a loja, porque estava a dar balanço.

 

Dar banquetes – organizar festas.

Ex.: A Lu adora dar banquetes na sua casa.

 

Dar… barato – vender.

Ex.: Encontrei o Alexandre a dar carapaus baratos.

 

Dar batalha (combate) – entrar em combate.

Ex.: As tropas deram batalha ao inimigo ao entardecer.

 

Dar (um) beijo(s) – beijar.

Ex.: Hoje ele nem me deu um beijo quando saiu de casa.

 

Dar berro(s) – gritar.

Ex.: A Belinha deu um berro quando viu o Miguel.

 

Dar boa conta de – inteirar-se de, resolver bem, aperceber-se.

Ex.: A Luísa dá boa conta do negócio.

(continua)

João de Araújo Correia – Nascer Escritor
Maio 28, 2017

 

“(…) Frequentava eu o terceiro ano de Medicina, antes de cumprir os meus vinte anos, quando adoeci gravemente.

Obrigado a interromper o curso, por falta de saúde e mais alguma razão, sobrevinda à convalescença, concluí-o em Outubro de 1927.

Perdi seis anos de frequência escolar. Mas não os perdi de todo…

Passei-os em Canelas sem inacção mental e sem prejuízo do meu tratamento.

Quando me formei, era homem de razoável cultura e muita reflexão, própria de quem foi doente meia dúzia de anos.

Durante a convalescença, publiquei prosa e verso nos jornais da Régua.

Mas, de regresso às aulas e após a formatura, já casado e com dois filhos, interrompi a lide literária para me dedicar ao estudo e prática da Medicina.

Entretanto, sem deixar de querer bem à arte de curar, que nunca abandonei, meteu-se comigo outra vez a vocação literária.

Publiquei, em 1938, o meu primeiro livro, que intitulei Sem Método.

Livro de breves notas, foi elogiado por grandes homens como grande revelação de homem votado à produção literária.

Teve de se cumprir a minha sina – originada em factores ancestrais que mal alcanço.

Apenas sei que meu pai, com estudos oficiais rudimentares, lia e escrevia primorosamente.

De minha mãe, delicado espírito, devo ter herdado uma boa dose de sensibilidade.

Bastarão estes dados para se interpretar a minha alma de artista?

Sei que nasci escritor em casa de lavoura, situada à beira de uma fonte, na antiga vila de Canelas do Douro.”

 

In O Mestre de Nós Todos Antologia de João de Araújo Correia, organizada por José Braga Amaral.

 

João de Araújo Correia (Canelas do Douro, Peso da Régua, 1/1/1899 – Peso da Régua, 3/12/1985)
Contista, novelista, colaborador de jornais e revistas, linguista, médico e professor.

Jacinto do Prado Coelho – Em Pascoaes “A Vida e a Morte Coincidem”
Maio 28, 2017

 

“SEGUNDO Pascoaes, a Morte é que dá sentido e plenitude à Vida; melhor: é a Vida autêntica, só anímica, “alheamento sem fim”, Eternidade. “A criatura ama e sofre, com o fim de criar a sua presença de saudade que a integre definitivamente na Vida e lhe dê um lugar no Reino Espiritual”. (…)

“A lembrança duma criatura é de natureza divina; as cousas que a sugerem são altares, onde a Imagem está presente, mas invisível”.

Pascoaes e o Marão, Pascoaes e a Natureza universal parecem confundidos; o Poeta, como certos deuses e semi-deuses da Antiguidade, parece prolongar-se em ramos, nuvens e estrelas. A sua Báucis é a Poesia; não há exemplo de mais espontânea e permanente fidelidade. (…)”

In Cadernos de Poesia

 

Jacinto Prado Coelho (Lisboa, 1/9/1920 – Lisboa, 19/5/1984)
Escritor, crítico literário, ensaísta, poeta, quando era muito jovem, professor na FLUL, onde se licenciara em Filologia Românica (1941) e doutorara (1947).

 

Teixeira de Pascoaes (Amarante, 8/11/1877 – Gatão, 14/12/1952)
Poeta, prosador, licenciado em Direito.

 

Teixeira de Pascoaes – LXVII
Maio 28, 2017

 

Que saudades eu sinto desta flor,

Que vai murchar!

E desta gota de água e de esplendor,

Um pequenino mundo que é só mar.

E desta imagem que por mim passou

Misteriosamente.

E desta folha pálida e tremente

Que tombou…

Da voz do vento que me deixa mudo,

E deste meu espanto de criança.

Que saudades de tudo eu sinto, porque tudo

É feito de lembrança…

 

Teixeira de Pascoaes (Amarante, 8/11/1877 – Gatão, 14/12/1952)
Poeta, prosador, licenciado em Direito.

António Sérgio – Um Olhar sobre Pascoaes
Maio 28, 2017

“Um bardo do Setentrião brumoso, que os ventos arrojaram na direcção do Sul, até vir a naufrágio numa praia nossa; não um filho da antiguidade clássica; não um meridional, um mediterrâneo, um homem da Espanha, um luso; foi assim que o vi sempre, que o admirei, que o amei (…) a grandeza cósmica de um Pascoaes (…)”

In Cadernos de Poesia

António Sérgio (Damão, 3/971883 – Lisboa, 24/1/1969)
Intelectual e pensador.

 

Teixeira de Pascoaes (Amarante, 8/11/1877 – Gatão, 14/12/1952)
Poeta, prosador, licenciado em Direito.