Archive for Maio, 2017

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Noémia de Sousa – Aforismo
Maio 21, 2017

 

 Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.

Estávamos iguais
com duas diferenças:

Não  era interrogada
e por descuido podiam pisá-la.

Mas aos dois intencionalmente
podiam pôr-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos.

Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares (Catembe, Moçambique, 20/09/1926 – Cascais, 04/12/2002)
Poetisa, jornalista, tradutora, militante política, é considerada a “Mãe dos poetas moçambicanos”.

João Guimarães Rosa – Luar
Maio 20, 2017

De brejo em brejo,
os sapos avisam:
– A lua surgiu!…

No alto da noite as estrelinhas piscam,
puxando fios,
e dançam nos fios
cachos de poetas.

A lua madura
Rola, desprendida,
por entre os musgos
das nuvens brancas…
Quem a colheu,
quem a arrancou
do caule longo
da via-láctea?…

Desliza solta…

Se lhe estenderes
tuas mãos brancas,
ela cairá…

ROSA, João Guimarães, Magma

João Guimarães Rosa (Cordisburgo, 27/6/1908 – Rio de Janeiro, 19/11/1967)
Contista, romancista , novelista, colaborador em vários jornais e revistas, médico e diplomata.

João Gaspar Simões – A Poesia de Mário de Mário de Sá-Carneiro
Maio 20, 2017

“(…) Sá-Carneiro vencia a estética do simbolismo (e a de decadentismo) descrevendo, quási sem querer, o seu drama de condenado a um ideal poético que já não se coadunava com a sua personalidade.

A poesia moderna é êste mesmo traduzir da alma humana  em vôos amputados; o poeta que se exprime, hoje exprime-se duplo; vê-se ser sensível e vê como é sensível.

Sá-Carneiro também: mas ainda a mêdo, descaindo a cada passo na expressão do que já não era para a sua poesia.

Daqui o duplo aspecto que ela hoje tem para nós: por um lado presa ainda à estética do século passado; por outro ligada já à estética dos nossos dias, cheia de duplicidade e de mergulhos de olhos abertos no mar tumultuoso e sem fim do inconsciente humano.”

SIMÕES, João Gaspar,  “A Propósito da “Dispersão”, de Mário de Sá-Carneiro”, in Cadernos de Poesia

João Gaspar Simões (Figueira da Foz, 25/2/1903 – Lisboa, 6/1/1987)
Romancista, dramaturgo, ensaísta, crítico literário, biógrafo, co-fundador das Revistas Tríptico e Presença, licenciado em Direito.

António Cândido Franco – “Arrumar os Pensamentos”
Maio 19, 2017

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Esforço-me por arrumar os pensamentos.

Antes não havia pássaros.
Era eu o pássaro.
Cantava
mas sem o saber.

Agora há pássaros.
Um pássaro sacudiu o corpo.
Acabei de o ver.
E acabei de por duas vezes
o ouvir cantar.
ainda o vejo e escuto
mas ele
prisioneiro do sia e da luz
não me vê.

Esse pássaro
está dentro da sua manhã de Primavera.
É um pássaro
tão alegre para mim
como tão triste é para ele.
Está tão livre e tão preso
como outrora eu estive
na minha infância
antes de nascer
quando cantava e não me ouvia
quando era mas não me via.

E foi preciso perder a minha infância
afastar-me tanto de casa
para que houvesse um pássaro à minha volta.

Quem é mais
ele ou eu?
Aquele que para nascer deixou de ser
ou aquele que continuou a ser para não ser?
Aquele que nem ser sabe
ou aquele que canta sem saber?

Quem devo escolher
aquele que alegria dá mais triste
ou o que tristeza dando conhece a alegria?

O que houve no haver sem ter havido
foi o que foi só feliz ou o que foi triste?

FRANCO, António Cândido, Estâncias Reunidas 

 

António Cândido Franco (Lisboa, 13/7/1956)
Ensaísta, poeta, romancista, dramaturgo, conferencista, professor universitário, licenciado em Literatura Românica, mestre e doutorado.

Álvaro Feijó – Varina
Maio 19, 2017

 

Eu mudei de pincel e de paleta

— embora seja a mesma a tinta com que escrevo —

mas mudei, que, de repente,

surgiste diante de mim.

Não é que me perturbes, mas eu sinto

que alguma coisa me comove ao ver-te.

Não é que te examine, porque sei

que me é quase impossível,

que me é mesmo impossível descrever-te.

A tua história, sim? A história que se repete

e é sempre nova porque há sempre gente

que nunca a ouviu

ou que não a quis ouvir.

O cais viu-te nascer!

Corrias, loucamente, pelas retas

intermináveis dos paredões

de cimento e granito,

e em caixotes com cheiro de sardinha

fazias tabogan das lingüetas

— o tabogan dos parques infantis

que não pudeste ver.

Assim, faminta e seminua

mas livre como os peixes

fizeste-te mulher!

Depois foi o correr das ruas da cidade,

enrouquecendo a gritar:

— “Quem merca os camarões” …

Depois um que voltou da Terra Nova

e te olhou como fera sequiosa

de carne,

quando o lugre, ao chegar, entrou na doca.

Depois o inevitável!

O luar…

A Senhora dAgonia…

A quentura de Agosto…

E, então,

não era só o peso da canastra,

era o peso dum filho

e a fome de dois para matar,

até que o lugre voltasse

e se esquecesse

o calvário da luta…

Um dia no intervalo da campanha

o sexo falou mais alto

e o coração calou.

Foste dum outro homem e, depois,

de dois,

de três.

Quando ele voltou

encontrou-te perdida

e tu perdeste-o.

Hoje, num outro porto, ainda gritas

o teu pregão.

Quando um homem te encontra fora de horas,

para ele foi sempre um bom encontro…

e. . . “até mais ver” …

Vês! Eu sei a tua história…

(Há tantos que a não sabem!)

E, no entanto,

Dum homem só ou de cem,

num porto do meu país ou num porto de Islândia

Tu surgiste aos meus olhos

como a mesma mulher.

Álvaro de Castro e Sousa Correia Feijó (Viana do Castelo, 5/7/1916 – Coimbra, 9/3/1941)
Poeta.

Ruy Duarte de Carvalho – Ciclo do Fogo
Maio 16, 2017

 

Há coisas que se choram muito anteriormente.

Sabe-se então que a história vai mudar.

 

Ruy Duarte de Carvalho (Santarém,1941- cresceu em Angola onde se naturalizou em 1983 -, Swakopmund, Namíbia, 12/08/2010)
Poeta, ficcionista, ensaísta, cineasta e antropólogo, professor universitário.

Raul de Carvalho – Perdão
Maio 16, 2017

I

Regresso à minha terra; andei perdido…
Chamem-me réprobo, ignaro, o que quiserem…
Sou como o pássaro que, depois de ferido,
Que Deus lhe dê a campa que lhe derem…

Não olho altares, não rezo, não ajoelho,
Mas em minha alma a comoção dorida
De quem volta de longe, de bem longe…,
E encontra à sua espera toda a sua vida…

Ouço as primeiras falas que empreguei,
Vejo as primeiras luzes que enxerguei,
Amo as primeiras coisas que dei
O amor que Deus pôs em quanto amei…

E trago tudo junto, aqui, no peito
Neste albergue de vozes, gentes, passos,
Lúgubre às vezes, soalhento às vezes,
E tanto, tanto meu, que lhe criei o gosto

Verdadeiro de quem ama e já não chora
Porque o chorar passou… a despedida
Melhor que um poeta pode dar à Vida
É despedir-se dela num sorriso:

Talvez num beijo… Talvez numa criança
Que o mundo, ao largo mundo vem mandada
Por seus pais que a criaram, sua terra que a viu
Quando ela foi por Deus nada e criada…

Agora temos tempo de fartura
(Quer faça sol ou vento, ou entristeça
A minha mente, e a minha voz se esqueça…)
De ir cantando de novo, à aventura…

À aventura dos limos e das seivas,
Das secas e dos montes, dos moinhos,
Dos pais que não se fartam de sentir
A dor sublime de ver crescer os filhos…

Terra de alqueives, ou monda, ou de pousio,
Terra de largos trigueirais ao sol,
— Quem vos mandou contaminar-me,
E para sempre, do vosso resplendor?…

Poalha luminosa, mas agreste;
Folha de zinco em brasa; imensidão;
A toda a volta — Tanto em vós como em mim —
Implantou Deus a solidão.

Solidão! de hastes curvas no silêncio
Que dá a volta inteira à terra inteira,
Solidão que eu invoco como se
Vos conhecesse pela primeira vez!…

Subo os degraus a medo; páro e ouço…
O que ouço eu? a voz dos sinos? minha mãe?
É com palavras simples e em segredo
Que eu beijo a terra onde nasci também,

Bernardim, Florbela, meu louco e bom Fialho,
Meus irmãos de pobreza, e solidão, e amor preso,
Aqui vos trago o que hoje tenho: Um coração
Sofredor como o vosso, e como o vosso ileso!

Ó planície de alma! ó vento sem ser vento!
Ó ásperas vertentes ao nascente;
Ó fontes que estais secas, ó passeios
Da minha mágoa adolescente…

Como eu vos quero ainda! como eu sinto
Que tudo o mais é tédio e é traição…
Pode-se amar tudo na Vida, mas
Nunca se pode trair o coração.

Dele nos vem, mais tarde a confiança.
Do coração nos sobe, um certo dia,
Uma satisfação que já não pode
Sequer chamar-se-lhe alegria.

E todavia tanta… A de sabermos
Que ainda em nós se ergue e não distrai
A casa da esquina onde nascemos…
A torre que dá horas e não cai…

II

Peço perdão a Deus de ter voltado
Mais pobre e mais feliz: mais perdoado!

III

Voltei à minha terra; aqui faz sol!

 

Raul de Carvalho (Alvito, 4/9/1920 – Porto, 3/9/1984)
Poeta, colaborar em diversas publicações, nomeadamente: Távola Redonda, Cadernos de Poesia e Árvore, de que foi co-director, pintor e fotógrafo.

Raul Brandão – O Passado, o Presente e o Futuro
Maio 16, 2017

 

” A vida antiga tinha raízes, talvez  a vida futura as venha a ter.

A nossa época é horrível porque já não cremos – e não cremos ainda.

O passado desapareceu, de futuro nem alicerces existem.

E aqui estamos nós sem teto, entre ruínas à espera…” (Setembro de 1910).

 

BRANDÃO,  Raul, Memórias, “Prefácio”, Vol. I, 1919

 

Raul Brandão (Foz do Ouro, 12/3/1867 – Lisboa, 5/12/1930)
Escritor, jornalista e militar.

Affonso Romano de Sant´Anna – Encontro com o Poetão Drummond
Maio 16, 2017

“1983 – 14 de Março

Encontro, saindo da minha análise, o poetão Drummond.

Eu vinha pensando que aquela era a região de sua casa. Vejo, cruzo a rua e começamos a conversar sobre os percalços amorosos. Me conta: tenho duas mulheres há 31 anos. E conta de outras paixões que lhe vieram quando era mais jovem.

Vi-o descendo do carro e batemos um descansado papo.

Ele está rijo e forte aos 80 anos. Falou de Mário de Andrade lembrando os dois anos que passou no Rio, tomava porres com Lúcio Rangel.

Contou-me ainda o poeta que tem em sua casa uma pasta com uma série de processos conduzidos por Machado de Assis.”

 

SANT´ANNA, Affonso Romano de, “Quase Diário”, JL, 29 de março a 11 de abril de 2017.

 

Affonso Romano de Sant´Anna (Belo Horizonte, 27 de Março de 1937)
Poeta, cronista, ensaísta, esposo da poetisa Marina Colasanti.

 

Grupos Naturais – Dar Audiência / Dar a Vida por / Dar Azar / Dar Azo / Dar Badaladas / Dar Bailes / Dar Baixa ao Hospital
Maio 16, 2017

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

 

Dar audiência – receber oficialmente.

 Ex.: A Dr.ª Filipa deu uma audiência aos imigrantes.

 

Dar a vida por – gostar muito; sacrificar-se por.

  Ex.:   A Lúcia dá a vida por uma boa passagem de modelos.

Há pais que dão a vida pelos filhos.

 

Dar azar – tirar a sorte.

 Ex.: Ela acredita que entrar com o pé esquerdo dá azar.

 

Dar azo a – proporcionar motivo.

 Ex.: A condescendência da directora poderá dar azo a abusos.

 

Dar badaladas – dar horas.

Ex.: Ao ouvir dar as doze badaladas, a Cinderela saiu do baile a correr.

 

Dar bailes – realizar, organizar bailes.

Ex.: A D. Albertina dá bailes nas festas da cidade.

 

Dar baixa ao hospital – ser internado.

 Ex.: Coitada da D. Maria! Foi atropelada e deu baixa ao hospital.

(continua)