“Bristol, 21 de Maio de 1886
Meu caro Luís Magalhães: quando você, no ano passado, me leu o esboço de O Brasileiro Soares, o que nele logo me prendeu foi a originalidade, larga e rigorosa, com que estava modelada a figura do seu Joaquim Soares da Boa Sorte.
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Ora em Portugal o homem que mais evidentemente simbolizava a acção aos olhos turvos do romantismo era esse labrego, que, largando a enxada, embarcava para o Brasil num porão de galera, com um par de tamancos e uma caixa de pinho – e anos depois voltava de lá, na Mala Real, com botas novas de verniz, grisalho e jucundo, a edificar um palacete, a dar jantares de leitão ao abade, a tramar eleições e a ser barão…
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E o curioso, meu caro Luís, é que, todos os tipos habituais do nosso romance romântico – só o brasileiro tem origem genuinamente portuguesa, de raiz.
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O brasileiro, porém, era só nosso, deste solo que pisamos, castiço e mais originalmente português que a chalaça e a louça das Caldas. Mais que nacional, era local. Era do Minho, como o vinho verde.
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Aquele que você encontra na Guardeira, o Joaquim da Boa Sorte, era excelente, cândido, casto, trabalhador, verdadeiro, magnânimo, de alma forte e amante.
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O seu livro, caro Luís, tem a realidade bem observada e a observação bem exprimida – as duas qualidades supremas, as que devem procurar antes de tudo na obra de arte, onde outrora se admirava principalmente a imaginação e a eloquência. Mas você faz além disso, com o seu Brasileiro Soares, uma verdadeira reabilitação social.
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Você desbrasileirou o brasileiro, humanizando-o; e como todo aquele que, com um tranquilo desprezo das convenções, faz uma obra de verdade, você elevou-se insensivelmente a esse feito mais raro, e melhor, que se chama uma boa acção.
Eça de Queirós”
Luís de Magalhães (Lisboa, 13/9/1859 – Porto, 14/12/1935)
Poeta, prosador, fundador de revistas, entre elas, a Revista Científica e Literária com António Feijó, e tertúlias, licenciado em Direito, amigo dos grandes nomes da Geração de 70, secretario de Eça, Governador Civil de Aveiro, Ministro dos Negócios Estrangeiros, reunia os intelectuais da época na sua Quinta do Mosteiro da Moreira da Maia.








