Casimiro de Brito – A Poesia
Vergílio Ferreira – A Língua
Herberto Hélder – Carta para Eugénio de Andrade (excertos) – continuação
“(…) Algo que alguns chamariam “monotonia” e que para mim é garantia da existência de um universo pessoal impositivo é uma impressão global, mas á lago que a literatura minuciosa revela depois de subtilmente organizado com materiais renovados e de modos sempre diferentes.
A música – e vê-se logo que a grande música se meteu nas suas palavras – mais límpida percorre toda a sua obra, mas essa música, às vezes aparentemente fácil e captável, é sinuosa, complexa, rica, e acaba por desembocar , sobretudo a partir de “Rente ao Dizer”, num admirável, de quando em quando deliciosamente difícil – áspera ou rouca voz – feixe de linhas sincopadas: a melodia que se quebra, a harmonia que se precipita. É quando, muito sabiamente, você recorre ao “enjambement”.
Porque será que, dos poetas que amo e citei – Você, Cesariny, Sophia, Carlos de Oliveira, Luiza Neto Jorge e Assis Pacheco – é sem nehuma dúvida Você, a sua poesia, que me dá a ideia de “nobreza” ou “dignidade”? Isto deve ter um significado.
(…)
A sua poesia, Eugénio, constitui uma nobilíssima visão do mundo. Por isso lhe agradeço, a si, ter-me proporcionado agora, d euma assentada, apartilha dessa visão.
(…)
Um abraço de muito grande admiração
Do seu amigo Herberto.”
Fernando Assis Pacheco – Afonso Praça
Estes são os amigos verdadeiros
o que numa casa há de mais simples
cântaro de água para matar a sede
brasa viva ardendo na camilha
muito antes de nos conhecermos
já faziam parte da família
somente não davam era connosco
por morarem noutras geografias
como o rancho que entra no pátio
depois de um dia de vindima
chegam cantando a batendo palmas
com o fundo ingénuo de concertina
brindo ao dilecto e bom Afonso
pelo muito que repartiu comigo
o seu calor em horas frias
a sua paciência de moringa
(Lisboa 31.V.94)
Fernando Assis Pacheco (Coimbra, 1/2/1937 – Lisboa, 30/11/1995)
Poeta, romancista, novelista, jornalista, crítico e tradutor.
Luiza Neto Jorge – Nas Cidades do Sul
Nas cidades do sul
há violência e há excesso,
de semente.
estalam os rios e foge a água.
O corpo, encortiçado, racha.
lendas vêm de há séculos assoreando\as margens.
E quando à boca de um poço vamos
provar o nosso eco,
águas puras irrompem,
noutra língua.
Luiza Neto Jorge
(Lisboa, 1939 – Lisboa,1989)
Poetisa e tradutora, escreveu para o teatro e para o cinema, é considerada a personalidade poética mais importante da Poesia 61.
Carlos de Oliveira – Tarde
A tarde trabalhava
sem rumor
no âmbito feliz das suas nuvens,
conjugava
cintilações e frémitos,
rimava
as ténues vibrações
do mundo,
quando vi
o poema organizado nas alturas
reflectir-se aqui,
em rimos, desenhos, estruturas
duma sintaxe que produz
coisas aéreas como o vento e a luz.
Carlos de Oliveira
(Belém do Pará, Brasil, 10/8/1921 – Lisboa, 1/7/1981)
Poeta, romancista, cronista, co-autor de Contos Tradicionais Portugueses com José Gomes Ferreira, 1953, colaborador nas revistas Seara Nova e Vértice, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas.
Vitorino Nemésio – Poema da Cioca-Cola
“Eu não quero coca-cola!”
- Cantei, velho, na Bahia. -
E agora já quero cola,
Mais velho, que me sentia…
Co o tempo o bom senso rola.
Que alto mistério do gosto
Me coca, cocando a cola,
Tão velho, às portas de Agosto?
Será que cola sem coca
Ao velhote amarga menos?
Ou sou alérgico à coca
Como David o é aos fenos?
Em todo o caso, é suspeito
(Digo-o sem graça nem ódio):
Não tem juízo nem jeito
Este meu câmbio serôdio.
Bem dizia Moura a Ortega,
Ambos já em cinza ou “cenra”
(Filtra o velho, a ver de pega…);
“A burro velho, erva tenra”.
Nota: Este poema foi escrito no ano lectivo de 1960-61, numa sessão de provas orais da cadeira de Teoria de Literatura, da qual Vitorino Nemésio era presidente do júri – e David Mourão-Ferreira seu assistente -, inspirado no bar, no momento de pausa.
Vitorino Nemésio
(Açores, Praia da Vitória, 19/12/1901 – Lisboa, 20/2/1978)
Poeta, romancista, cronista, ensaísta, biógrafo, historiador de literatura e cultura, jornalista, investigador, epistológrafo, filólogo, comunicador televisivo, professor universitário.
Eugénio de Andrade – Cavatina
Obstruído o caminho da transparência
só me resta reunir os fragmentos do sol
nos espelhos
e com eles junto ao coração
atravessar indiferente a desordem matinal
dos mastros.
Quanto mais envelheço mais pueril é a luz
mas essa vai comigo.
Eugénio de Andrade
(Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários.
Sophia – Porque
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm, medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
e tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de mello Breyner Andresen
(Porto, 6/11/1919 – Lisboa, 2/7/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999).









