Machado de Assis – Última Folha

Outubro 27, 2014 - Leave a Response

Machado de Assis

Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao eco dos sagrados ermos
A última harmonia.

Dos teus cabelos de ouro, que beijavam
Na amena tarde as virações perdidas,
Deixa cair ao chão as alvas rosas
E as alvas margaridas.

Vês? Não é noite, não, este ar sombrio
Que nos esconde o céu. Inda no poente
Não quebra os raios pálidos e frios
O sol resplandecente.

Vês? Lá ao fundo o vale árido e seco
Abre-se, como um leito mortuário;
Espera-te o silêncio da planície
Como um frio sudário.

Desce. Virá um dia em que mais bela,
Mais alegre, mais cheia de harmonias,
Voltes a procurar a voz cadente
Dos teus primeiros dias.

Então coroarás a ingênua fronte
Das flores da manhã, — e ao monte agreste,
Como a noiva fantástica dos ermos,
Irás, musa celeste!

Então, nas horas solenes
Em que o místico himeneu
Une em abraço divino
Verde a terra, azul o céu;

Quando, já finda a tormenta
Que a natureza enlutou,
Bafeja a brisa suave
Cedros que o vento abalou;

E o rio, a árvore e o campo,
A areia, a face do mar,
Parecem, como um concerto,
Palpitar, sorrir, orar;

Então sim, alma de poeta,
Nos teus sonhos cantarás
A glória da natureza,
A ventura, o amor e a paz!

Ah! mas então será mais alto ainda;
Lá onde a alma do vate
Possa escutar os anjos,

E onde não chegue o vão rumor dos homens;

Lá onde, abrindo as asas ambiciosas,
Possa adejar no espaço luminoso,
Viver de luz mais viva e de ar mais puro,
Fartar-se do infinito!

Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao eco dos sagrados ermos
A última harmonia!

Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21/6/1839 – Rio de Janeiro, 29/9/1908)
Poeta, romancista, dramaturgo, contista, tetralogista, jornalista, considerado um dos maiores vultos da literatura brasileira.

António Manuel Couto Viana – Herói Anónimo

Outubro 27, 2014 - Leave a Response

António Manuel Couto Viana

Concerta a rede da faina,
Como quem tece uma vida,
Ora agreste, ora florida,
Se o mar se encrespa ou se amaina.

Homem da minha Ribeira,
Busca o pão , dia após dia,
Ao Sol quente, à noite fria,
A bordo de uma traineira.

Vida rude! Nunca a deixe.
Sem ele, que é dele, o peixe?
Que é de nós? Miséria e fome.

Vendo-o a lidar, sem cansaço,
Louvo-o nos versos que faço.
… E nem sequer sei seu nome!

António Manuel Couto Viana (Viana do Castelo, 24/1/1923 – Lisboa, 8/6/2010)
Poeta, contista, ensaísta, dramaturgo, actor, encenador, tradutor.
Dirigiu os cadernos de poesiaTávola Redonda e as revisits culturais:Graal e Tempo Presente.

António Feijó – Onde Moras?

Outubro 27, 2014 - Leave a Response

António Feijó

Onde moras? Onde moras?
Se adivinhasse onde moras
Em frente da tua porta,
Olhando a tua janela,
Veria passar as horas,
As minhas últimas horas.
Sem ti a vida que importa?
A vida, nem penso nela…
Veria passar as horas,
As minhas últimas horas,
Em frente da tua porta,
Olhando a tua janela…

António Feijó (Ponte de Lima, 1/6/1859 – Estocolmo, 20/6/1917)
Poeta e diplomata, fundador da Revista Científica e Literária com Luís de Magalhães – 1880, Coimbra -, colaborador nas revistas Arte, A Ilustração Portuguesa, O Instituto, Novidades, Museu Ilustrado, licenciado em Direito.

Alexandre Vargas- A Primeira Oração a Cyborg

Outubro 27, 2014 - Leave a Response

Alexandre Vargas

Senhor já vos chamei e novamente
as vossas luzes nas colunas e o povo
que não fala pelas ruas deambula,
com a boca entreaberta, os braços fixos
no trajecto-paraíso sem igual
descreve a longa via engenhosa que percorre o seu caudal.

Mas vós, Cyborg, tão alto estais exposto
aos ventos que a vosso encontro se encaminham
que a cidade agonizante toda une os seus esforços
e canta sibilante a melodia
dos vossos templos de quiosques enfeitados,
entre as cascatas o som puro dos seus passos.

Sim, tu Cyborg, és tudo o que desejo
e estou na treva observando o teu fulgor,
serás apenas a miragem ou o grito
que de noite atormenta o meu furor,
desta loucura agora todo eu me quero entranhar
até em parte alguma jamais de novo poder estar.

Alexandre Vargas (Lisboa, 31/12/1952)
Poeta, tradutor, colaborador em jornais e revistas, licenciado em Filologia Românica,
Filho de José Gomes Ferreira.

Affonso Romano de Sant´Anna – Cai a Tarde

Outubro 27, 2014 - Leave a Response

Affonso Romano de Sant´Anna

Cai a tarde

sobre meus ombros
não apenas
sobre os Dois Irmãos.

Desaba mais um dia.
Para muitos — de esperança.
Para outros — de humilhação.

Sobre mim
desaba a história.
Em algum lugar
disseram que há luz
mas o que vejo
— é a escuridão.

Affonso Romano de Sant´Anna (Belo Horizonte, 27 de Março de 1937)
Poeta, cronista, ensaísta, esposo da poetisa Marina Colassanti.

Almeida Garrett – Os do Porto

Outubro 27, 2014 - Leave a Response

Almeida Garrett

nós os do Porto podemos trocar os bês pelos vês, mas nunca a liberdade pela tirania.”

Almeida Garrett (Porto, 4/2/179 Lisboa, 9/12/1854)
Romancista, poeta, dramaturgo, jornalista, orador, político, deputado, implantou o teatro em Portugal, fundou o Teatro Nacional e o Conservatório.

Ana Santos – O Sabor da Escrita

Outubro 6, 2014 - Leave a Response

Ana Santos

Ana Santos ganhou o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores aos dezasseis anos.

Vejamos o que disse ao JL de 29/12/1999 sobre o que sentiu em relação ao prémio:

- “Uma surpresa e uma grande satisfação.”  (…)  “À partida, passa a haver mais gente que me vai ler… e isso muda tudo…”

E como se refere ao seu gosto pela escrita.

“Comecei a escrever assim que soube juntar as letras.”

” Se pudesse, passava as noites inteiras a escrever…”

 

Ana Santos (Lisboa, 1983)

Escritora

Guilherme D´Oliveira Martins – A Língua Portuguesa (Continuação)

Outubro 6, 2014 - Leave a Response

Guilherme D´Oliveira Martins

” Nas ilhas atlânticas, há um prolongamento dos dialetos centro-meridionais. A colonização do  século  XV partiu dessas regiões. Há exceções em S. Miguel e na Madeira. (…)

E se nos atemos apenas ao continente europeu, podemos distinguir no Brasil duas zonas linguísticas, a Norte e a Sul, separadas por uma fronteira que se estende da foz do rio Mucuri entre os Estados do Espírito Santo e da Bahia até à cidade de Mato Grosso.

Em África, na Ásia e na Oceânia, além do português como língua oficial (com muitas especificidades vocabulares), as variedades crioulas resultam do contacto do sistema da língua portuguesa com os sistemas indígenas.  (…)

Os crioulos são línguas derivadas do português. Baltazar Lopes da Silva, para o crioulo de Cabo Verde, foi, por certo o mais fecundo escritor e estudioso do tema. E a diversidade é fantástica, os crioulos: de Cabo Verde: de Barlavento (Santo Antão, São Vicente, São Nicolau, Sal e Boavista), de Sotavento  (Santiago, Maio, Fogo e Brava); do Golfo da Guiné (S. Tomé, Príncipe e Ano Bom, na Guiné Equatorial); os continentais (Guiné-Bissau e Casamansa); da Ásia (papiar cristan de Malaca, patuá di Macau, Sri-Lanka, Chaul, Korlai, Tellicherry, Cananor e Cochim); de Java (Tugu)).

Perante esta panóplia de extraordinária riqueza, a que temos de somar os vocábulos portugueses incorporados em diversas línguas nacionais (desde o bahasa indonésio ao japonês), percebemos que há potencialidades por aproveitar, numa economia para as pessoas.”

In JL 23 de março a 3 de abril de 2012

 

Guilherme Valdemar Pereira D´Oliveira Martins (Lisboa/23/9/1952)

Jurista, político, professor catedrático.

Cristovão de Aguiar – A Viagem do Escritor

Outubro 6, 2014 - Leave a Response

Cristovão de Aguiar

“Vejo-me viajante de uma narrativa interior, a viagem mais autêntica que o escritor pode empreender.”

In Conversa com Eduardo Brum, 08/09/2012

 

Cristovão de Aguiar (Pico da Pedra, Ilha de S. Miguel, 8/9/1940)
Romancista, poeta, contista e diarista, licenciado em Filologia Germânica.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Cabo Verde, Corsino Fortes na Casa dos Estudantes do Império (Continuação)

Outubro 6, 2014 - Leave a Response

Livros

” A distinção entre o regime e Portugal era decisiva, havia forças com objetivos concretos de libertação do fascismo. (…)

Agora, entendemos bem Amílcar Cabral, líder do PAIGC e fundador das nacionalidades, quando dizia que a luta que se travava não era dirigida contra Portugal, mas contra o regime fascista.

Na minha formação em Direito não tive muitas oportunidades de me manifestar, por acusa do clima de perseguição política em Portugal, estabelecido para controlar os estudantes africanos recém-formados.”

In JL J s/ data

Corsino Fortes (Mindelo, Ilha de São Vicente, Cabo Verde, 4/2/1933)
Poeta, licenciado em Direito.

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