Ana Mafalda Leite – Corpos Lúcidos e Opacos

Agosto 29, 2014 - Leave a Response

Ana Mafalda Leite

o amor é

um corpo lúcido centro de imensas esferas de luz que se propagam em todas as direcções

quando a luz encontra um corpo opaco é por ele reflectida nos nossos olhos e excita em nós a ideia desse corpo formando-nos a sua pintura na retina

a imagem do amor

os corpos lúcidos não tem sombra alguma de si mesmos
são centros absolutos de luz própria que deles parte

o amor é fogo que arde

os corpos opacos são centros parciais de uma luz precária
reflectem só uma parte da sua massa
proporcional à incidência dos raios

ficando a outra parte obscurecida na sua sombra

que arde sem se ver

 

Ana Mafalda Leite (Lisboa, década de cinquenta)

Poetisa luso-moçambicana, ensaísta, tradutora, investigadora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, professora catedrática – brilhante, posso afirmar!

Fernando Lemos – Quanto Mais

Agosto 29, 2014 - Leave a Response

Fernando Lemos

quanto mais desejo

quanto mais desejo
mais invento o que vejo

quanto mais vejo
mais invento o que desejo

quanto mais invento
mais desejo o que vejo

quanto mais escrevo
mais invento o que penso
quanto mais penso
mais invento o que escrevo

quanto mais invento
mais escrevo o que penso

 

Fernando Lemos (Lisboa, 1926)
Fotógrafo, poeta, jornalista, pintor, publicitário e desenhador .

Daniel Filipe – Morna

Agosto 29, 2014 - Leave a Response

Daniel Filipe

É já saudade a vela, além.
Serena, a música esvoaça
na tarde calma, plúmbea, baça,
onde a tristeza se contém.

Os pares deslizam embrulhados
de sonhos em dobras inefáveis.
(Ó deuses lúbricos, ousáveis
erguer, então, na tarde morta
a eterna ronda de pecados
que ia bater de porta em porta!)

E ao ritmo túmido do canto
na solidão rubra da messe,
deixo correr o sal e o pranto
— subtil e magoado encanto
que o rosto núbil me envelhece.

 Daniel Filipe (Cabo-Verde, 01/02/1925 – Cabo Verde, 06/04/1964)

Poeta, jornalista colaborador nas revista Seara Nova e Távora Redonda, co-director dos Cadernos do Bloqueio.

Alexei Bueno – A Hora

Agosto 29, 2014 - Leave a Response

Alexei Bueno

Quando as palavras detêm-se,

Hirtas, perante a visão,

E se entreolham em vão,

Ínscias do que lhes pertence,

 

Quando a vida é muito vasta

Para o seu ordeiro lar,

Canoa em pleno alto mar,

Florinha que a enchente arrasta,

 

Ela ergue a chave, a poesia,

E adentra. Ela que é, não diz.

Que é o palco, a platéia e a atriz,

A hora nem noite nem dia.

 

Alexei Bueno (Rio de Janeiro, 26/4/1963)

Poeta, ensaísta, editor, antologista, tradutor.

Rosa Lobato Faria – E de Novo a Armadilha dos Abraços

Agosto 29, 2014 - Leave a Response

Rosa Lobato Faria

E de novo a armadilha dos abraços.

E de novo o enredo das delícias.

O rouco da garganta, os pés descalços

a pele alucinada de carícias.

As preces, os segredos, as risadas

no altar esplendoroso das ofertas.

De novo beijo a beijo as madrugadas

de novo seio a seio as descobertas.

Alcandorada no teu corpo imenso

teço um colar de gritos e silêncios

a ecoar no som dos precipícios.

E tudo o que me dás eu te devolvo.

E fazemos de novo, sempre novo

o amor total dos deuses e dos bichos.

 

Rosa Lobato Faria (Lisboa, 20/4/1932 – Lisboa, 2/2/2010)

Poetisa, guionista, compositora, declamadora e atriz.

Maria do Rosário Pedreira – Acordo com o Teu Nome

Agosto 29, 2014 - Leave a Response

Maria do Rosário Pedreira

Acordo com o teu nome nos

meus lábios — amargo beijo

 

esse que o tempo dá sem

aviso a quem não esquece.

 

Maria do Rosário Pedreira (Lisboa, 1959)

Poetisa, romancista, ensaísta, cronista, autora de literatura juvenil, editora, tradutora, professora, licenciada em Línguas e Literaturas Modernas.

Lídia Jorge – Momento

Agosto 29, 2014 - Leave a Response

Lídia Jorge

 

Cai a chuva no portal, está caindo

entre nós e o mundo, essa cortina

Não a corras, não a rasgues, está caindo

Fina chuva no portal da nossa vida.

Gotas caem separando-se do mundo

Para vivermos em paz a nossa vida.

 

Cai a chuva no portal, está caindo

Entre nós e o mundo, essa toalha

Ela nos cobre, não a rasgues, está caindo

Chuva fina no portal da nossa casa.

Por um diatodos longe e nós dormindo

Lado a lado, como páginas dum livro.

 

Lídia Jorge (Boliqueime, Algarve, 18 de Junho de 1946)

Romancista, autora de antologias poéticas e de uma peça de teatro, colaboradora de diversas revistas e jornais, professora, licenciada em Filologia Românica.

 

Júlio Dinis – Trigueira

Agosto 29, 2014 - Leave a Response

Júlio Dinis

 

Trigueira! que tem? Mais feia

Com essa cor te imaginas?

Feia! tu, que assim fascinas

Com um só olhar dos teus!

Que ciúmes tens da alvura

Desses semelhantes de neve!

Ai, pobre cabeça, leve!

Que te não castigue Deus.

 

Trigueira! se tu soubesses

O que é ser assim trigueira!

Dessa ardilosa maneira

Porque tu o sabes ser;

Não virias lamentar-te,

Toda sentida e chorosa,

Tendo inveja à cor da rosa,

Sem motivos para a ter.

 

Trigueira! Porque és trigueira

É que eu assim te quis tanto.

Daí provém todo o encanto

Em que me traz este amor.

E suspiras e murmuras;

Que mais desejavas inda?

Pois serias tu mais linda,

Se tivesses outra cor?

 

Trigueira! onde mais realça

O brilhar duns olhos pretos,

Sempre húmidos, sempre inquietos,

Do que numa cor assim?

Onde o correr duma lágrima

Mais encantos apresenta?

E um sorriso, um só, nos tenta,

Como me tentou a mim?

 

Trigueira! E choras por isso!

Choras, quando outras te invejam

Essa cor, e em vão forcejam

Por, como tu, fascinar?

Ó louca, nunca mais digas,

Nunca mais, que és desditosa.

Invejar a cor da rosa,

Em ti, é quase pecar.

 

Trigueira! Vamos, esconde-me

Esse choro de criança.

Ai, que falta de confiança!

Que graciosa timidez!

Enxuga os bonitos olhos,

Então, não chores trigueira,

E nunca dessa maneira

Te lamentes outra vez.

(Abril de 1864)

 

Júlio Dinis (Porto, 14/11/1838 – Porto, 12/9/1871)

Pseudónimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho.
Romancista, poeta, dramaturgo, médico e professor universitário.

Agripina Costa Marques -Tão Perto de Morrer de Tanta Vida

Agosto 29, 2014 - Leave a Response

Agripina Costa Marques

Tão perto de morrer de tanta vida

que em meu ser acordava

e nem conter podia tanta vida

que viva me tomava

e nem extravasar de tanta vida

a vida comtemplava

e não cabendo em mim tão extrema vida

por arma a desamava

virando-se contra a vida.

 

Tão perto de morrer e não morri

de vida tanta que em vida contagiavas

por toque de alma e depois completavas

no que total o ser em ser se achava.

 

Agripina Costa Marques (n. 1929)

Poetisa, esposa de António Ramos Rosa.

José Tolentino Mendonça – Os Amigos

Agosto 29, 2014 - Leave a Response

José Tolentino Mendonça

Esses estranhos que nós amamos

e nos amam

olhamos para eles e são sempre

adolescentes, assustados e sós

sem nenhum sentido prático

sem grande noção da ameaça ou da renúncia

que sobre a luz incide

descuidados e intensos no seu exagero

de temporalidade pura

 

Um dia acordamos tristes da sua tristeza

pois o fortuito significado dos campos

explica por outras palavras

aquilo que tornava os olhos incomparáveis

 

Mas a impressão maior é a da alegria

de uma maneira que nem se consegue

e por isso ténue, misteriosa:

talvez seja assim todo o amor

 

José Tolentino Mendonça (Machito, Madeira, 15/12/1965)

Poeta, ensaísta, sacerdote, professor universitário.

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