Maria Teresa Rita Lopes – A Língua Portuguesa (Continuação)

Dezembro 20, 2014 - Leave a Response

Maria Teresa Rita Lopes

“(…) Além de nos projectar para lá da tacanhez do nosso rectângulo, o contacto praticado com esses diferentes falares pode ter o salutar efeito de rejuvenescer a nossa língua-mãe, menos maleável por ser mais velha.

Infelizmente esse nosso contacto limita-se ao consumo de novelas brasileiras, através da televisão. É quase nada mas melhor que nada: podemos assim sentir a “gostosura” que a nossa língua pode ter quando falada por brasileiros.

É que o português do Brasil é mais criativo, mais moldável pela afectividade que nos caracteriza, a nós e a eles: pegam numa palavra, por mais invariável que a gramática diga que ela é, e acrescentam-lhe um sufixo que a torna mais saborosa.

Apesar de abusarmos dos diminutivos, nós não dizemos “nunquinha” para tornar “nunca” mais definitivo, nem “unzinho”, bem mais terno que “só um”, para pedir um beijo ou um abraço…

Bem que o Guimarães Rosa soube levar às suas últimas consequências expressivas as potencialidades em que a nossa língua portuguesa é rica. Também outros escritores africanos de língua portuguesa o fazem hoje em dia, e nós deliciamo-nos com o sabor que a nossa língua tem com esses condimentos.

Pouco fazemos para cultivar esses contactos enriquecedores. (…) Teria que haver uma porfiada política cultural para acudir a essa situação.

Quando descobrimos essas terras, éramos poucos para as povoar. Agora estão povoadas, não somos é capaz de praticar a nossa irmandade. Não basta proclamarmos as nações irmãs. (…)”

(continua)

In JL 25 Abril – 8 Maio 2007

Maria Teresa Rita Lopes (Faro, 12/9/1937)
Ensaísta, poetisa e dramaturga, investigadora, uma das maiores especialistas contemporâneas sobre Fernando Pessoa, professora catedrática, licenciada em Filologia Românica – FLUL-, doutorada pela Sorbonne.

António Francisco Da Costa e SilvaSaudade

Dezembro 20, 2014 - Leave a Response

Da Costa e Silva

Saudade! Olhar de minha mãe rezando,
E o pranto lento deslizando em fio …
Saudade! Amor da minha terra … O rio
Cantigas de águas claras soluçando.

Noites de junho … O caburé com frio,
Ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando …
E, ao vento, as folhas lívidas cantando
A saudade imortal de um sol de estio.

Saudade! Asa de dor do Pensamento!
Gemidos vãos de canaviais ao vento…
As mortalhas de névoa sobre a serra…
.
Saudade! O Parnaíba – velho monge
As barbas brancas alongando … E, ao longe,
O mugido dos bois da minha terra …

Antonio Francisco Da Costa e Silva (Amarante, 29/11/1885 – Rio de Janeiro, 29/6/1950)
Poeta, licenciado em Direito, pai do escritor e diplomata Alberto da Costa e Silva.

António Ferreira – Carta a Pêro Andrade de Caminha

Dezembro 20, 2014 - Leave a Response

António Ferreira

Ó quantos quanto mar fama ganharam

Coa boa pena, que outros com a espada!

Quanto mais ricas estátuas cá deixaram!

Quanto foi mais sentida, e mais chorada

A morte do alto Homero, por seu canto,

Que a tua, Aquiles, que ele fez honrada!

Pois com quanta razão m ‘eu mais espanto

Do que em ti vejo, tanto ver perdido

Sinto o que me assi move a mágoa, e espanto,

Mostraste-te tègora tão esquecido,

Meu Andrade, da terra, em que nasceste,

Como se nela não foras nascido.

Esses teus doces versos, com que ergueste

Teu claro nome tanto, e que inda erguer

Mais se verá, a estranha gente os deste.

Porque o com que podias nobrecer

Tua terra e tua língua lho roubaste,

Por, ires outra línqua enriquecer?

Cuida melhor que, quanto mais honraste

E em mais tiveste essa língua estrangeira,

Tanto a esta tua ingrato te mostraste.

Volve pois, volve, Andrade, da carreira,

Que errada levas (com tua paz o digo):

Alcançarás tua glória verdadeira.

Té quando contra nós. Contra ti imigo

Te mostrarás? Obrigue-te a razão,

Que eu, como posso, a tua sombra sigo.

As mesmas Musas mal te julgarão,

Serás em ódio a nós teus naturais,

Pois, cruel. nos roubas o que em ti nos dão.

Sejam à boa tenção obras iguais,

E a boa tenção e obra à pátria sirva:

Demos a quem nos deu, e devemos mais.

Floreça, fale, cante, ouça-se e viva

A Portuguesa língua! E já onde for

Senhora vá de si, soberba e altiva.

Se téqui esteve baixa e sem louvor,

Culpa é dos que a mal exercitaram:

Esquecimento nosso, e desamor.

Mas tu farás que os que a mal julgaram,

E inda as estranhas línguas mais desejam,

Confessem cedo ant’ela quanto erraram.

E os que despois de nós vierem, vejam

Quanto se trabalhou por seu proveito,

Por que eles pera os outros assi sejam.

Se me enganei, se tive mau respeito,

Andrade. tu o julga; mas espero

De te ser este meu desejo aceito.

E, enquanto mais não peço, isto só quero.

 

António Ferreira (Lisboa, 1528 – Lisboa, 29/11/1569)
Poeta, dramtaurgo e humanista, considerado o Horácio português, doutorado em Cânones.

Prefixos de Origem Latina: a-, ab-, abs-, ad-, ar-, as-, além-, ante-, aquém- 

Dezembro 20, 2014 - Leave a Response

Vogais

A Língua portuguesa é constituída por numerosos elementos de origem latina e grega na formação das suas palavras, muitos das quais são utilizadas na linguagem científica.

O seu conhecimento facilita-nos a compreensão do seu significado.

Eis alguns exemplos:

1. Prefixos de Origem Latina

Prefixo                                 Significado                         Exemplo

a-, ab-                                   afastamento                          aversão,   abdicar

abs-                                        separação                             abster

 a-, ad-                                  aproximação                        abeirar, adjunto

ar-, as-                                 direção                                  arribarassentir

além-                                   posterioridade                     além-mar

ante-                                    anterioridade                       antepassado

aquém-                               anterioridade                       aquém-mar

(continua)

António Cândido – A Nossa Literatura

Dezembro 20, 2014 - Leave a Response

António Cândido

“A nossa literatura é galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas.”

CÂNDIDO, António, in  Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos,  1959

 

António Cândido de Mello e Souza(Rio de Janeiro, 24/7/1918)

Poeta, ensaísta, professor universitário.

António Botto – Fatalidade

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António Botto

A fatalidade,
Várias vezes
No meu caminho aparece;
Mas,
Não consegue perturbar
A minha serenidade.

Sòmente,
No meu olhar,
Poisa e fica mais tristeza.

Não me revolto,
Nem desespero.

- Quero morrer em beleza.

António Botto (Concavada, Abrantes, 1897 – Rio de Janeiro, 12-3-1959)
Poeta, autor de contos infantis, O Livro das Crianças, amigo de Fernando Pessoa.

Alda do Espírito Santo – Ilha Nua

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Alda do Espírito Santo

Coqueiros e palmares da Terra Natal
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.
Verdura, oceano, calor tropical
Gritando a sede imensa do salgado mar
No deserto paradoxal das praias humanas
Sedentas de espaço e devida
Nos cantos amargos do ossobô
Anunciando o cair das chuvas
Varrendo de rijo a terra calcinada
Saturada do calor ardente
Mas faminta da irradiação humana
Ilhas paradoxais do Sul do Sará
Os desertos humanos clamam
Na floresta virgem
Dos teus destinos sem planuras…

Alda do Espírito Santo (São Tomé e Príncipe, 30/4/1926- Angola, Luanda, 9/3/2010)
Poetisa, colaboradora em diversas publicações, Ministra da Educação e Cultura, Ministra da Informação e Cultura e Deputada, autora do hino nacional “Independência Total”

Alberto de Serpa – Riqueza

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Alberto de Serpa

Por parques e praças,

Ruas e travessas,

Tu, meu olhar, caças

A vida. E tropeças.

 

Uma gargalhada

Vem dum par contente.

Guarda-a bem guardada,

Mas caminha em frente.

 

Surgem-te sorrisos

Dum e de outro lado.

Não faças juízos

Rápidos. Cuidado!

 

Uma face grave

Nada te revela?

Talvez a dor cave,

Só mais tarde, nela.

 

Num choro, num grito,

Pressentes a dor?

E quedas, aflito.

Seque, por favor!

 

Seque, bem aberto

Para cada canto!

Olha o desconcerto

Que parece tanto!

 

Corre, olhar, em roda!

O que me intimida?

A vida? Só toda

Pode amar-se, a vida.

 

Alberto de Serpa (Porto, 12/12/1906 – 8/10/1992)
Poeta, novelista, ensaísta, o “Primeiro Poeta Português de Poesia Livre”, secretário da Presença e da Revista de Portugal, que fundou com Vitorino Nemésio.

Alberto da Costa e Silva – Flumen, fluminis

Dezembro 20, 2014 - Leave a Response

Alberto da Costa e Silva

Ouçamos o fluir deste curso de rio entre velhos muros imóveis de fadiga
não apenas meras lajes limitadas e cinzentas
mas pedras tristes e calmas
entre as quais escorre o límpido silêncio
da água que flui sobre a nudez
pura da morte

em nenhuma outra fonte, o cansaço
de ser manhã quando a noite se debruça
sobre nós, sofreremos
pois tão estranhos seremos ao murmúrio
de suas águas veladas
à música que nada anuncia a não ser primaveras
como agora, sôfregos, nos reclinamos
sobre o líquido móvel deste rio que leva
para o mar distante e irrevelado
estas formas maduras e tranqüilas
este sopro perfeito
daquilo que foi apenas o fugidio e precário pó.

Alberto da Costa e Silva (Sao Paulo, 12/5/1931)
Poeta, ensaísta, memorialista, historiador, diplomata, filho do poeta António Francisco da Costa e Silva.

Grupos Naturais – Acordar da Pinga / Adoçar a Boca / Afiar a Língua e os Dentes (Continuação)

Dezembro 20, 2014 - Leave a Response

Vogais

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

 

VERBO ACORDAR

 Acordar da pinga – sair da bebedeira.

       Ex.: Ele só acordou da pinga às vinte horas.

 

VERBO ADOÇAR

Adoçar a boca – bajular, atrair com uma intenção.

Ex.: Ele anda a adoçar-lhe a boca com presentes.

 

VERBO AFIAR

 Afiar a língua – apurar a linguagem, esmerar-se.

Ex.: Tens de afiar a língua para o discurso.

 

Afiar os dentes – exercitar os dentes.

Ex.: Enquanto enchia os copos, ele afiava os dentes com o assado.

(continua)

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