Joseia Matos Mira – Enlevo

Julho 25, 2014 - Leave a Response

Ontem, sim o rouxinol cantou

Bem dentro do meu peito

E a minha mão

Abriu na tua mão

Como um amor-perfeito

 

MIRA, Joseia Matos, Lugar Solitário

 

Joseia Matos Mira (Baleizão, Beja)

Romancista, contista e poetisa.

Professora do ensino secundário e superior, licenciada em Filologia Românica, doutorada em Literatura Francesa.

Manuel da Fonseca – Olhos Baços

Julho 25, 2014 - Leave a Response

Manuel da Fonseca

 

“Parecem de cegos os olhos que a fome tornou baços… “

FONSECA, Manuel, O Fogo e as Cinzas

 

Manuel da Fonseca (Santiago de Cacém, 15/10/1911-11/3/1993)

Poeta,
Romancista,
Contista e cronista, membro do Grupo Novo Cancioneiro, presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores.

Dificuldades da Língua Portuguesa: Devido a e Derivado de

Julho 25, 2014 - Leave a Response

Vogais

Conversa entre o Zé-Concertina, as Vogais e outras mais…

- Bom dia, Sr. Zé-Concertina!

- Bom dia, Menina d! Passou bem?

- Bem, obrigada! E o Sr.? Vem muito pensativo!

- Calcule a Menina que esta noite não tive sossego derivado à balhana da música que vinha do castelo! Aquilo era uma coisa por demais. A mocidade vai ficar mouca não tarda muito.

- Ouvi falar sobre um festival, mas a Sr.ª Professora Linguesa aconchegou-nos e às vogais num livro de poemas da Sophia, e dormimos toda a noite.

- Sorte a vossa, Menina Consoante!

- Sr. Zé-Concertina, permite-me que faça uma correção?

- Faça favor, Menina d! Não me diga que já dei algum pontapé na gramática?!…

- Tropeçou no “derivado“, Sr. Zé-Concertina.

- Ai, Menina! Nem dei por isso! Pode ajudar-me, se faz favor?

- Com todo o gosto! O  Sr. Zé-Concertina queria dizer que era devido a… 

- Mas, Menina d, derivado e devido não é a mesma coisa? Não quer dizer: por causa de?

- Não, Sr. Zé-Concertina! Devido a é que traduz essa ideia, pois trata-se de uma expressão relacionada com o verbo dever, significando ter como causa, e emprega-se com a preposição a.

- Ohhh! Não sabia, mas para que serve o derivado, Menina Consoante?

- O Sr. Zé-Concertina quer ajudar-me?

- Gostaria, mas como?

- Com que verbo lhe parece que  a palavra derivado se relaciona?

- Muito fácil, Menina! Com o verbo derivar.

- Muito bem, Sr. Zé-Concertina! Derivar de alguma coisa, ter origem.

- Entendido, Menina d! Posso dar um exemplo?

- Com certeza!

- O vinho é um derivado da uva.

- Muito bem! E o Sr. Zé-Concertina não descansou…

- … devido à balhana da  música! Muito obrigada, Menina Consoante! Já  tenho mais uma para ensinar depois da sesta lá  na tasca do Valentim.

- Não tem de quê, Sr. Zé-Concertina

Urbano Tavares Rodrigues – Margem Sul

Julho 22, 2014 - Leave a Response

Urbano Tavares Rodrigues

Ó Alentejo dos pobres,
reino da desolação,
não sirvas quem te despreza,
é tua a tua nação.

Não vás a terras alheias
lançar sementes de morte.
É na terra do teu pão
que se joga a tua sorte.

Terra sangrenta de Serpa,
terra morena de Moura,
vilas de angústia em botão,
doce raiva em Baleizão.

Ó margem esquerda do Verão
mais quente de Portugal,
margem esquerda deste amor
feito de fome e de sal.

A foice dos teus ceifeiros
trago no peito gravada,
ó minha terra morena
como bandeira sonhada.

Terra sangrenta de Serpa,
terra morena de Moura,
vilas de angústia em botão,
doce raiva em Baleizão.

(Interpretado por Adriano Correia de Oliveira – A Noite dos Poetas)

Urbano Tavares Rodrigues (Lisboa, 6/12/1923 – Lisboa, 09/08/2013)
Ficcionista, investigador, ensaísta, crítico literário, jornalista, professor universitário.
Pai da escritora Isabel Fraga, esposo de Maria Judite de Carvalho, falecida em 1998.

Guerra Junqueiro – Morena

Julho 22, 2014 - Leave a Response

Guerra Junqueiro

Não negues, confessa
Que tens certa pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena.

Pois eu não gostava,
Parece-me a mim,
De ver o teu rosto
Da cor do jasmim.

Eu não… mas enfim
É fraca a razão,
Pois pouco te importa
Que eu goste ou que não.

Mas olha as violetas
Que, sendo umas pretas,
O cheiro que têm!
Vê lá que seria,
Se Deus as fizesse
Morenas também!

Tu és a mais rara
De todas as rosas;
E as coisas mais raras
São mais preciosas.

Há rosas dobradas
E há-as singelas;
Mas são todas elas
Azuis, amarelas,
De cor de açucenas,
De muita outra cor;
Mas rosas morenas,
Só tu, linda flor.

E olha que foram
Morenas e bem
As moças mais lindas
De Jerusalém.
E a Virgem Maria
Não sei… mas seria
Morena também.

Moreno era Cristo.
Vê lá depois disto
Se ainda tens pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena!

 

Joaquim Pessoa – Cantar

Julho 22, 2014 - Leave a Response

Joaquim Pessoa

“Canta!”. Esta é a obrigação do poeta: cantar. Cantar o mundo, cantar a vida em todas as suas formas, nas diversas vertentes, viradas ao sol ou banhadas pela luz sombria de um universo (…)”

In Rio de Doze Águas, Prefácio.

Joaquim Pessoa (Barreiro, 22/2/1948)
Poeta, artista plástico, professor.

Óscar Lopes na Voz de Eugénio de Andrade

Julho 22, 2014 - Leave a Response

Óscar Lopes

 

“Há já muito tempo, desde 1951, que conheço o Óscar, que sou amigo dele. (…)

Para lá das divergências de sempre, há muita coisa que amamos em comum: os areais de Leça, os campos do Alentejo, os gatos, os lilazes, o Pessanha, o Pessoa, o Eça, o Guimarães Rosa, o Aquilino, o Bach, o Mozart, o Brukner, o Scriabine, o Rembrandt, o Klee.

Há ainda o que ambos detestamos, e tanto nos aproxima: o fascismo, a intolerância, a hipocrisia, a futilidade, o exibicionismo…

Para além da admiração intelectual, que sempre tive por ele (numa linha que, entre nós, passa por Sérgio, Cortesão, Maria Helena da Rocha Pereira, Aguiar e Silva, Eduardo Lourenço, José Mattoso), o que mais me apetece sublinhar agora é o seu caráter, a sua generosidade.

Num tempo tão abandalhado como o que nos coube em sorte – já sem deuses a recear mas ainda sem pessoas para amar – espíritos onde a bondade e inteligência se harmonizam, como ele, são cada vez mais raros, com imensa pena nossa, pois de algum modo são eles o que Marianne Moore pedia à poesia: um lugar para o genuíno.”

In JL de 10 – 23 outubro 2007

Óscar Lopes (Leça da Palmeira, 2/10/1917 – Porto, 22/03/2013)
Ensaísta, crítico literário, especialista em Linguística e Literatura, colaborador em diversos jornais e revistas, professor liceal e catedrático, licenciado em Filologia Românica e Histórico-Filosóficas.

Marly de Oliveira – O Sangue na Veia XXV

Julho 22, 2014 - Leave a Response

Marly de Oliveira

Escrevo; logo, sinto, logo, vivo,

e tiro-lhe ao viver a indisciplina

que o espraiaria, que o dispersaria,

e dou-lhe a minha forma comedida,

a que tem o tamanho de um amor

que eu guardo, que não gasto, não disperso;

amor que se concentra em dura pérola,

não pétala, não isto que é um excesso,

pois que pode voar; o que me fica

de tudo o que acontece e não se altera,

de tudo o que acontece e me escraviza,

e do que escravizando me liberta.

Escrevo; logo, sou quem se domina,

e quem avança numa descoberta.

 

Marly de Oliveira (Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo 1935 — Rio de Janeiro, 1/6/2007)
Poetisa, professora de língua e literatura italiana e de literatura hispano-americana, ex-esposa de João Cabral de Melo Neto.

Nélida Piñon – O Prazer da Escrita

Julho 22, 2014 - Leave a Response

Nélida Piñon

“Tenho um grande prazer no ato da escrita.

Vou experimentando a língua como se fosse uma comida que precisa condimento.

Leio alto para eliminar desequilíbrios fonéticos ou para introduzir nervuras na língua.

É como no amor. Sinto-me inevitavelmente jovem. Sinto que não devo nada a ninguém e seja o que Deus quiser, meu bem! “

 

In JL de 26 outubro – 8 novembro 2005.

 

Nélida Piñon (Rio de Janeiro, 03/05/1937)

Romancista, contista, cronista, ensaísta, autora de literatura infanto-juvenil, licenciada em Jornalismo, primeira mulher a ser eleita presidente da Academia Brasileira de Letras

Clarice Lispector – A Língua Portuguesa

Julho 22, 2014 - Leave a Response

Clarice Lispector

” Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter subtilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor.

A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.

Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastam para nos dar sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.

Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que eu recebi de herança não me chega. Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que queria escrever em português. Eu até não queria ter aprendido outras línguas: só para a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.”

Clarice Lispector

In Jornal do Brasil, de 11 de maio de 1968

 

Clarice Lispector (Tchetchelnik, Ucrânia 10/12/1920 – Rio de Janeiro, 09/12/1977)

Contista, romancista, cronista, tradutora, jornalista, licenciada em Direito.

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