Corsino Fortes - Girassol

Janeiro 13, 2012 - Deixe uma Resposta

Girassol
Rasga a tua indecisão
E liberta-te.

Vem colar
O teu destino
Ao suspiro
Deste hirto jasmim
Que foge ao vento
Como
Pensamento perdido.

Aderido
Aos teus flancos
Singram navios.

Navios sem mares
Sem rumos
De velas rotas.

Amanheceu!

Orça o teu leme
E entra em mim
Antes que o Sol
Te desoriente
Girassol!

Corsino Fortes (Mindelo, Ilha de São Vicente, Cabo Verde, 4/2/1933)
Poeta, licenciado em Direito.

Arnaldo França – A Conquista da Poesia

Janeiro 13, 2012 - Deixe uma Resposta

Era um castelo erguido na montanha
da paisagem deserta submarina
tinha muros altamente inacessíveis
ao salto imaginário do meu pensamento

Minha musa você diga-me
onde mora a poesia
quero ir deitar-me com ela
quero amá-la toda a noite

Fiquei parado à porta do castelo
os muros tolhiam meus passos
mas de dentro vinhas gritos de alegria
de meninos correndo numa cerca

Minha musa você conte-me
a história da bela adormecida
que quando eu era menino
Manhanha gostava de me contar

No alto do castelo tinha um vulto
tinha uma mulher vestida de vermelho
lembrando-me todas as princesas encantadas
dos sonhos inocentes de minha infância

Arnaldo França(Praia, Cabo Verde, 1925)
Poeta e ensaísta.

Arménio Vieira – Construção na Vertical

Janeiro 13, 2012 - Deixe uma Resposta

Com pauzinhos de fósforo
podes construir um poema.

Mas atenção: o uso da cola
estragaria o teu poema.

Não tremas: o teu coração,
ainda mais que a tua mão,
pode trair-te. Cuidado!

Um poema assim é árduo.
Sem cola e na vertical,
pode levar uma eternidade.

Quando estiver concluído,
não assines, o poema não é teu.

Arménio Vieira (Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde, 29/1/1941)
Poeta, jornalista, primeiro cabo-verdiano a receber o Prémio Camões.

António Nunes – Ritmo de Pião

Janeiro 13, 2012 - Deixe uma Resposta

Bate, pilão, bate,
que o teu som é o mesmo
desde o tempo dos navios negreiros,
de morgados,
das casas-grandes,
e meninos ouvindo a negra escrava
contando histórias de florestas, de bichos, de encanta-
[das…

Bate, pilão, bate
que o teu som é o mesmo
e a casa-grande perdeu-se,
o branco deu aos negros cartas de alforria
mas eles ficaram presos a terra por raízes de suor…

Bate, pilão, bate
que o teu som é o mesmo
desde o tempo antigo
dos navios negreiros…

(Ai os sonhos perdidos lá longe!
Ai o grito saído do fundo de nos todos
ecoando nos vales e nos montes,
transpondo tudo…
Grito que nos ficou de traços de chicote,
da luta dia a dia,
e que em canções se reflecte, tristes…)

Bate, pilão, bate
que o teu som é o mesmo
e em nosso músculo está
nossa vida de hoje
feita de revoltas!
Bate, pilão, bate!…

António Nunes (Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde, 9/12/1917 – Lisboa, 14/5/1951)
Poeta, integrou o grupo neo-realista.

Palavras de Grafia Dupla – Ulmeiro / olmeiro / olmo; Vassoira / vassoura; Verisímil (e) / verosímil; Xale / xaile.

Janeiro 13, 2012 - Deixe uma Resposta

A língua portuguesa admite duas (ou mais) formas de registo gráfico em algumas palavras, a nível de: mudança de acento; aditamento de uma letra/letras – vogal ou consoante -; alternância de letras.
Eis alguns exemplos:

Ulmeiro / olmeiro / olmo ——– árvore.

Vassoira / vassoura ————- utensílio para varrer.

Verisímil (e) / verosímil ——– aparenta ser verdadeiro; plausível.

Xale / xaile ———————— espécie de manta.

Nota: Falaremos sobre a dupla grafia introduzida pelo Acordo Ortográfico.

Natália Correia – Poema Destinado a Haver Domingo

Janeiro 11, 2012 - Deixe uma Resposta

Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.

Natália Correia (Fajã de Baixo, S. Miguel, 13/9/1923 – Lisboa, 16/3/1993)
Poetisa, romancista, ensaísta, jornalista e
dramaturga.

Alexandre Herculano – A Corrupção e a Dignidade

Janeiro 11, 2012 - Deixe uma Resposta

“Há épocas de tal corrupção, que, durante elas, talvez só o excesso do fanatismo possa, no meio da imoralidade triunfante, servir de escudo à nobreza e à dignidade das almas rijamente temperadas.”

Alexandre Herculano (Lisboa, 28/371810 – Santarém, 13/9/1877)
Escritor, historiador, jornalista, poeta.

António Franco Alexandre em folhas de acetato me proteges

Janeiro 11, 2012 - Deixe uma Resposta

em folhas de acetato me proteges
floresço em avenida litoral
breve serei semente um céu e a terra
plantado azul e sopro de marés

as palavras fechadas com o jeito
que a boca tem ao ver-se
retratada
quase um sabor razão acidulada

me persegues de nomes, me retratas
igual ao branco hotel onde regressa
a não lembrada sombra do verão

e pousam de ouro em água o só
engano breve
das rosas e da neve despertadas.

António Franco Alexandre (Viseu, 17/7/1944)
Poeta, professor universitário, doutorado em Matemática e Filosofia.

Alberto de Oliveira -Lisboa

Janeiro 11, 2012 - Deixe uma Resposta

Ó Cidade da Luz! Perpétua fonte
De tão nítida e virgem claridade,
Que parece ilusão, sendo verdade,
Que o sol aqui feneça e não desponte…

Embandeira-se em chamas o horizonte:
Um fulgor áureo e róseo tudo invade:
São mil os panoramas da Cidade,
Surge um novo mirante em cada monte.

Ó Luz ocidental, mais que a do Oriente
Leve, esmaltada, pura e transparente,
Claro azulejo, madrugada infinda!

E és, ao sol que te exalta e te coroa,
— Loira, morena, multicor Lisboa! —
Tão pagã, tão cristã, tão moira ainda…

Alberto de Oliveira (Porto, 16/11/1873 – Porto, 23/4/1940)
Poeta, memorialista, cronista, crítico, colaborador da Revista Bohemia Nova, diplomata.

Al Berto – Os Amigos

Janeiro 11, 2012 - Deixe uma Resposta

no regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias

tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite

prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência

Al Berto (Coimbra, 11/1/1948-Lx, 13/6/1997)
Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares
Poeta, pintor, editor, animador cultural, um “coimbrense-siniense” único.

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